Dia da Mulher "Precisamos falar sobre violência doméstica"


Por
Liliana Tinoco-Baeckert


A brasileira Lúcia Amélia Brühllhardt lança em Zurique sua autobiografia, que conta uma trajetória de agressões e vítima do tráfico de seres humanos até chegar à Suíça.

Lucia Amelia (entre as crianças), durante uma palestra realizada em uma escola no Brasil.

Lucia Amelia (entre as crianças), durante uma palestra realizada em uma escola no Brasil.

(Rolf Aeberhardt)

O Dia Internacional da Mulher é uma data especial para se chamar a atenção sobre um assunto tabu: a violência doméstica. As mulheres do século XXI continuam passando por situações de depreciações psicológicas, agressividade física e até tráfico de seres humanos. A brasileira Lúcia Amélia Brühllhardt, que enfrentou vários tipos de crueldades e chegou à Suíça ludibriada com falsas promessas, lança sua autobiografia "Madame Brühllhardt – Minha História ", no dia 11 de março, em Zurique, durante evento que discute a situação da mulher, autoestima e opressão.

swissinfo.ch: Por que você decidiu escrever sua autobiografia e expor sua intimidade?

Lúcia Brüllhardt: Estou prestes a completar 50 anos e passei por muita coisa nessa vida. Eu não posso compactuar com o tabu que o tema violência doméstica se tornou. Se ninguém quer falar sobre isso, eu então uso a minha história para trazê-lo à tona. Sofri vários episódios de agressões na minha vida. Há 16 anos presidindo a Madalena’s, uma ONG especializada em ajudar pessoas que sofrem esse tipo de brutalidade, cheguei à conclusão de que devemos abordar abertamente o tema como forma de alertar, informar e ajudar.

Durante esse tempo com a ONG, a experiência me mostrou diversas vítimas do problema. Algumas são agredidas de forma psicológica, financeira, patrimonial, sexual ou até passam por cárcere privado. Outra forma gravíssima é a pedofilia, que também está inserida nas horrendas práticas de desajuste familiar. O índice é alto e acomete não somente brasileiras, mas pessoas do mundo inteiro, inclusive suíças e suíços. Acho que depois de conviver com essa horrível realidade, presenciada na minha própria carne, precisei arregaçar as mangas e mostrar ao mundo que é necessário ao menos falar sobre o tópico, que não pode mais ser um tabu.

Biografia

Lúcia Amélia Brühllhardt tem 49 anos, nasceu em São Paulo mas foi criada no estado de Pernambuco. Vive no país há 30 anos, no cantão de Berna, e tem nacionalidade suíça. É graduada em Teologia, escreveu sete livros publicados em português, alemão, francês e inglês. A brasileira tem participação ativa em programas de aconselhamento sobre violência contra mulher e doméstica em diversos órgãos suíços, como Heilsarmee e Service de Probation SPFP etc.

Por sua vida e pela luta contra a violência doméstica e o tráfico de seres humanos, Lúcia foi tema de documentário de curta metragem efetuado pela MimaVision Suisse, intitulado “Lúcia, an autre destin”, distribuído em países da Europa e América. A brasileira é vice-presidente da Academia de Letras e Artes Luso-Suíça e fundadora da ONG Madalena’sLink externo.

Criada há 16 anos, a ONG defende os direitos humanos das brasileiras vítimas da exploração sexual, dos maus tratos, da violência doméstica e do trabalho forçado. A equipe do Madalena's visita escolas públicas no Brasil com o intuito de alertar sobre as armadilhas do tráfico de seres humanos e violência doméstica. Na Suíça, a ONG distribui folhetos explicativos em locais como cabarés, saunas e clubes de massagem. Durante esse período, a ONG já atendeu 162 pessoas, incluindo mulheres, homens e transgêneros.  

Eu já vi mulheres que eram proibidas de sair de casa ou de, ao menos, telefonarem para seus parentes, homens agredidos por suas parceiras; crueldades psicológicas que minam, com o tempo, qualquer resíduo de autoconfiança. Muitas dessas pessoas acabam desenvolvendo depressão, isso quando não se tornam alcóolatras ou se envolvem com drogas.

swissinfo.ch: Como a violência doméstica marcou a sua vida?

L.B.: Antes de responder à pergunta, quero deixar bem claro que fui vítima de muitas formas de agressões físicas e psicológicas, mas de jeito nenhum pretendo me colocar como coitada. Meu objetivo é alertar e prevenir.

Meu pai tinha temperamento frio e era alcoólatra. O que pensar de alguém que incendeia a casa com a família dentro? De um pai que colocava um revólver carregado na cabeça da mãe e das filhas? A situação é o que hoje conhecemos como violência doméstica, mas na época não se tinha essa noção.

Eu já sofri a minha primeira rejeição ainda no ventre, quando ele se disse desapontado por ter uma menina e não um filho homem. O fato é que atitudes como essas me faziam sofrer muito na infância. Eu praticamente não tinha endereço fixo quando era criança. Fui obrigada a me mudar com minha família diversas vezes devido ao comportamento do meu pai. Meus pais se separavam constantemente.

Uma passagem muito ruim aconteceu após uma dessas mudanças. Foi quando fui matriculada em uma nova escola. Apesar de ter sido sempre uma menina inteligente e esperta, tive dificuldades de adaptação. Começava a aparentar sinais de depressão. Ao findar o ano, meu boletim escolar foi um desastre, repleto de notas vermelhas. Meu pai, que não admitia notas baixas, reagiu com violência.

Como já estava debilitada emocionalmente, não suportei e ingeri todos os comprimidos que encontrei pela casa. Lembro-me exatamente da dor que sentia em minha alma. Um ser humano que tenta se matar está gritando silenciosa e desesperadamente por socorro.

Somente quando já não estava mais conseguindo me manter em pé é que contei o fato à minha mãe. Fui levada às pressas ao hospital e submetida a uma lavagem estomacal. Ao me visitar, meu pai não poupou seu lado desumano: ele disse que eu era a desgraça da família e que eu devia ter morrido. Ali, no leito de um hospital infantil, fiz um pacto de morte comigo mesma. Essa foi a primeira experiência com suicídio, já aos nove anos. Depois houve outras tentativas. Dessa maneira, eu abordo muito o tema do autoextermínio por consequência da violência familiar.

Lúcia Amélia Brühllhardt com o seu livro.

Lúcia Amélia Brühllhardt com o seu livro.

(swissinfo.ch)

swissinfo.ch: E como você chegou na Suíça?

L.B.: Tudo começou quando eu era jovem, trabalhava em Recife e nos fins de semana viajava para trabalhar em João Pessoa. Ali conheci dançarinas e, exatamente neste momento, sem saber, estava tendo meu primeiro contato com mulheres traficadas. Eu já tinha passado por muitas situações difíceis e me interessei pela ideia de deixar o Brasil. Elas falavam de modelos e artistas que se deram bem no exterior e cada vez mais eu me convencia de que deveria trilhar esse caminho. Cheguei à Suíça aos 20 anos com um contrato para trabalhar como artista.

swissinfo.ch: A exposição do tema ajuda a evitar que outras vítimas passem pelo problema sem buscar ajuda?

L.B.: A violência contra a mulher é uma profanação aos direitos humanos e, como tal, deve ser tratada com mais visibilidade. A informação é, sobretudo, uma arma muito forte. É preciso que se entenda que agressão não se expressa só em olho roxo. Marido que não dá dinheiro à esposa e a humilha com essa situação está praticando agressão, só que de outra forma. Cônjuge que "joga na cara " da parceira que a casa onde vive não é dela, mas dele, e que ela não tem direito a nada, está cometendo ato de violência patrimonial. Eu preciso, então, entrar em um tema ainda mais tabu, que é o sexual. Parceiro ou parceira que obriga o outro a ter relações sexuais também está cometendo ato violento.

Eu acho que o tema é, inclusive, pouco explorado pela imprensa. A mulher brasileira fala pouco sobre isso, mas a mulher suíça, que é por natureza mais reservada, demora muito mais a pedir ajuda. Portanto, se o assunto não for discutido e esclarecido, a vítima nem saberá que padece de ato amoral ou fora da lei. O meu objetivo não é vender milhões de livros ou ganhar prêmio literário, mas sim de alertar, prevenir e informar.

A violência doméstica é uma experiência árdua, que até hoje me dá forças para combater, ajudando mulheres, homens e crianças a se libertarem desse cativeiro e serem protagonistas de um final feliz. 

Uma radiografia da violência doméstica

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a violência contra mulheres e meninasLink externo é uma grave violação dos direitos humanos. Seu impacto varia entre consequências físicas, sexuais e mentais, incluindo a morte. Afeta negativamente o bem-estar geral das famílias, com consequências negativas também para a comunidade e para o país em geral.

A agressão baseada no gênero é aquela decorrente das relações entre mulheres e homens, e geralmente é praticada pelo sexo masculino contra o feminino, mas pode se dar de forma inversa. Sua característica fundamental está nas relações de gênero. Não é marcada somente pela brutalidade física, mas também pela psicológica, sexual, patrimonial, moral, entre outras. Pode ser explicada por um abuso, um ato de constrangimento, desrespeito, discriminação, impedimento, imposição, invasão, ofensa, proibição, sevícia, agressão física, psíquica, moral ou patrimonial contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela ofensa e intimidação pelo medo e terror.

No Brasil, este tema ganhou maior relevância com a entrada em vigor da Lei nº 11.340, de 2006, também conhecida como “Lei Maria da PenhaLink externo”. O tema infelizmente é motivo de preocupação no mundo inteiro. De acordo com dados globais da ONU, entre 15 a 76 por cento das mulheres são alvo de violência física ou sexual em suas vidas; cada país tem média diferente. A maioria dos casos acontece em esfera íntima, 70% dos agressores são maridos ou parceiros. Entre os 28 estados da União Europeia, cerca de uma a cada cinco mulheres já teve experiência com violência física ou sexual, segundo a Agência Europeia para Direitos Fundamentais em 2014.

Na Suíça, de acordo com o Serviço Suíço de EstatísticasLink externo foram registrados 16.495 crimes de violência doméstica, fazendo 9.381 vítimas, segundo os números da polícia em 2013. A diretora da Fundação contra a Violência na Suíça, Marlis Haller, em reportagem à SRF em 2014, diz que não há estudos profundos sobre o tema, o que leva a crer em uma grande sombra e uma realidade ainda mais drástica.

Para buscar ajuda na Suíça: frauenberatung.chLink externo

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