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Pobreza na Suíça


Voluntários para ajudar crianças desfavorecidas


Por Alexander Thoele, Bienne


Bienne lança um programa de voluntariado para promover o acompanhamento de crianças de famílias desfavorecidas, em grande parte migrantes. O responsável pelo projeto é o secretário de Assistência Social, Beat Feurer, representante de um partido que defende restrições à imigração e uma política mais acirrada contra os dependentes de ajuda governamental. Contradição? swissinfo.ch o entrevistou. 

Beat Feurer, secretário de Assistência Social na prefeitura de Bienne, (Keystone)

Beat Feurer, secretário de Assistência Social na prefeitura de Bienne,

(Keystone)

São apenas trinta minutos de carro até Bienne. Esse famoso centro relojoeiro, onde os habitantes falam tanto o alemão como o francês, está localizado entre uma cadeia de montanhas e o lago com o mesmo nome. Porém as várias marcas famosas, cujos letreiros aparecem em vários pontos, não garantem a pujança econômica. A realidade é que Bienne luta contra vários problemas, dentre eles altos níveis de desemprego e pobreza.

Com uma das maiores taxas de assistência social da Suíça (ver quadro à direita), Bienne tem sido destacada nas manchetes dos jornais como uma cidade problema. Uma das populações mais vitimadas é a de migrantes: vinte por cento dos menores de idade dependem da ajuda oficial para sobreviver, da qual uma grande maioria é originária de famílias de migrantes. Devido ao baixo nível educacional dos pais, muitas crianças estrangeiras têm dificuldades nas escolas e menores chances de fazer uma formação profissional. Concentradas em baixos populares, muitas delas têm poucos contatos com suíços. Ao sair da escola, terminam dependentes de assistência social.

Problemas sociais

Da população ativa em Bienne, 4% está desempregada, enquanto que a média do país é de 3%.

Até o final de 2013, 11,7% dos 53 mil habitantes dependiam da assistência social, a taxa mais elevada do comparativo estabelecido pela iniciativa de cidades para a política social, que reúne dados de 13 cidades, em grande parte as maiores do país.

Na mira de Beat Feurer, secretário de Assistência Social de Bienne, estão os estrangeiros.

Mesmo se a taxa não é excessivamente importante na cidade (29,3%), um estrangeiro em cinco residentes na cidade recorre à assistência social, enquanto que no país é menos de 15 ou 10%, como explica o jornal "Le Temps".

Dos 6.105 casos de assistência social, mais da metade (52,9%) é de estrangeiros.

Para combater o círculo vicioso, Beat Feurer, secretário de Assistência Social na prefeitura de Bienne, lançou um projeto de apadrinhamento de crianças desfavorecidas. Apoiado pela fundação GAD, o projeto pretende engajar habitantes da cidade de 18 a 75 anos para acompanhar essas crianças no seu cotidiano e apoiá-las.

swissinfo.ch: Como funciona o projeto de apadrinhamento de crianças desfavorecidas em Bienne?

Beat Feurer: São voluntários que se engajam em cuidar de famílias desfavorecidas. A ideia é que eles irão acompanhar uma ou mais dessas crianças com o objetivo de facilitar e melhorar sua integração na sociedade.

swissinfo.ch: O projeto prevê dois ou mais encontros entre voluntários e as crianças ao mês. É o suficiente?

B.F.: Isso é melhor do que nada. Mas é óbvio que dois encontros por mês seria o mínimo necessário. Muitas vezes se desenvolve um relacionamento pessoal através de um encontro desses, como mostra a minha própria experiência (ler quadro abaixo). Mas, mesmo se for apenas um encontro, o voluntário ainda consegue dar muito às crianças: seja mostrando como organizar a mesa onde ela vai fazer os deveres escolares ou explicando que a televisão não deve permanecer ligada quando ela precisa se concentrar, entre outros.

swissinfo.ch: É difícil encontrar voluntários na Suíça? Essa tradição é mais forte nos países anglo-saxões...

B.F.: Não posso dizer que é mais difícil aqui. Ontem organizamos o primeiro evento de informações em Bienne e posso dizer que foi um grande sucesso. Mas, de fato, muitas pessoas já são expostas a uma grande pressão no trabalho, o que talvez não as incentive a se engajar.

swissinfo.ch: Vinte por cento das crianças de Bienne vivem da assistência social. Quem são elas? 

B.F.: De fato é difícil imaginar como essas crianças são. Muitas passam o dia inteiro na frente da televisão ou brincando com os bonequinhos de plástico que elas ganharam no Mc Donalds. Elas não passeiam. São famílias, em grande parte de migrantes, que não caminham nas montanhas ou na natureza. Não têm contatos sociais. E por isso achamos ser possível mudar as coisas através desse projeto.

swissinfo.ch: Mais de seis mil de 53 mil habitantes em Bienne necessitam da ajuda do governo para viver. Como elas vivem?

B.F.: Do ponto de vista material e financeiro, as pessoas que recebem ajuda social não vivem de forma precária, mas sim em condições simples. Elas têm o que necessitam. O maior problema ocorre com famílias de origem estrangeira, das quais muitas têm pouca ou nenhuma compreensão do que é importante para viver aqui. É saber, por exemplo, que é importante para uma criança pertença a um clube de futebol ou qualquer outra associação. Muitos desses pais desconhecem isso. O resultado é que essas crianças crescem isoladas das boas oportunidades oferecidas no nosso país.

swissinfo.ch: Em outra ocasião o senhor declarou que um problema de Bienne é a grande proporção de estrangeiros na população. Por quê?

B.F.: Bienne é uma cidade bastante misturada. Temos muitas pessoas originárias de outras culturas. E assim, constatamos também uma certa dificuldade de integrá-las a nossa cultura, onde os valores são diferentes. Infelizmente não somos capazes de fazer tudo o que é necessário para permitir essa integração.

swissinfo.ch: Guerras, conflitos sociais e repressão têm intensificado a imigração de pessoas originárias da Síria e Eritréia à Suíça. Muitas delas se instalam em Bienne. Qual é o desafio de integrá-las?

B.F.: É um grande desafio para nós. No caso dos eritreus, identificamos que mais de 90% deles dependem da assistência social, o que é uma proporção muito grande. Temos de nos perguntar como é possível integrar essas pessoas. Já com outros grupos, seja brasileiros ou indianos, a situação é diferente. E quanto mais migrantes chegarem aqui, vindo das mais diferentes culturas, mais rápido chegamos aos limites da nossa capacidade de absorção. 

swissinfo.ch: O governo, do qual o senhor participa, decidiu fechar dois centros de acolhimento de asilados. Isso é uma medida para resolver o problema?

Biografia

Beat Feurer nasceu em 8 de maio de 1960 em Bienne. Vive com um parceiro em um relacionamento registrado e compartilha a casa com uma família de imigrantes do Sri Lanka.

Profissão: auditor e especialista fiscal.

Eleito no início de 2013 para o grêmio de cinco membros do poder executivo de Bienne, Beat Feurer é o responsável pela secretaria de Assistência Social e Segurança na cidade de Bienne.

Ele também é membro do Partido do Povo Suíço (UDC, na sigla em francês), que representa uma linha mais dura contra a imigração. Em fundou o Grupo Gay da UDC (http://www.gaysvp.ch), do qual é o presidente até hoje. 

Beat Feurer sob supervisão

Frente aos problemas internos no Departamento de Assistência Social de Bienne, amplamente discutidos pela imprensa, o governo contratou um analista externo para avaliar a questão. No relatório, publicado em 31 de outubro de 2014, a atuação de Beat Feurer foi fortemente criticada. "Graves erros de liderança dos responsáveis provocaram perda de confiança, insegurança e desconfiança entre os funcionários do órgão".

O relatório chegou à conclusão que o responsável do Depto. interviu demasiadamente em questões operativas.

O governo decidiu colocar Beat Feurer sob controle. Todas suas decisões estratégicas devem ser discutidas com o prefeito e a vice-presidente da Câmara de Vereadores. Paralelamente, dois funcionários graduados do órgão pediram demissão.  

B.F.: Não é apenas a nossa experiência, mas também a de outras cidades na Suíça: a probabilidade é muito grande que um solicitante de asilo acabe ficando no local onde ele foi acolhido em primeiro lugar. Frente aos problemas que enfrentamos atualmente, como a grande proporção de casos de assistência social - quase 12% da população - decidimos fechar esses dois centros em comum acordo com o governo cantonal (n.r.: estadual). Não podemos receber mais asilados em Bienne.

swissinfo.ch: O senhor pertence a um partido - Partido do Povo Suíço (UDC, na sigla em francês, direita nacionalista) - que defende, dentre outros pontos, restrições à imigração. Mas no seu currículo leio que foi diretor de um centro de acolho de asilados. Não é uma contradição?

B.F.: A experiência de trabalhar com asilados foi muito enriquecedora e interessante. Foi algo que fiz com muita paixão e que me fez conhecer mais a fundo a questão do asilo na Suíça. Na época abrigávamos no centro uma maioria de cingaleses e tâmiles.

swissinfo.ch: O senhor não questionava na época se a Suíça deveria receber essas pessoas?

B.F.: Tive as experiências mais diversas. Por um lado constatei que era preciso ter mais abertura em relação a elas. Por outro, vi que não era possível abrigar e integrar na Suíça todos os estrangeiros que passam por dificuldades econômicas ou pessoais, o que considero até hoje.

swissinfo.ch: Então o senhor está então de acordo com a linha defendida pela UDC?

B.F.: No que diz respeito à política de estrangeiros, tenho algumas ideias próprias. Mas elas são, em todos seus aspectos, também bastante restritivas no que diz respeito à imigração. Estou convencido que nos direcionamos aqui na Suíça a um caminho que nos trará muitas dificuldades, especialmente se a situação econômica do país piorar algum dia. Como será possível apoiar financeiramente tantos dependentes da assistência social, desempregados e solicitantes de asilo residentes aqui em Bienne?

swissinfo.ch: Na sua vida privada, o senhor acolheu há alguns anos uma família tâmil, com quem compartilha a casa. Como isso ocorreu?

B.F.: Há vinte e quatro anos conheci um refugiado do Sri Lanka na Índia. Tornamos-nos bons amigos. Ao retornar, um tempo mais tarde ele também apareceu na Suíça, onde solicitou asilo. Eu então o recebi em casa. Dois anos depois ajudamos a sua mulher a vir para cá. Eles casaram e tiveram filhos. Hoje vivemos em uma espécie de grande família asiática (risos).

swissinfo.ch: Como foi a integração dessa família?

B.F.: Os pais tiveram grandes dificuldades e até hoje não conseguem dominar inteiramente os nossos idiomas, o que me decepcionou um pouco. Mas já no caso das crianças a situação é diferente: eles se integraram completamente, aprenderam os nossos idiomas e hoje fazem uma formação profissional. Eles têm muitos contatos sociais em Bienne.

swissinfo.ch: As estatísticas suíças mostram que os filhos de migrantes têm mais dificuldades de chegar ao ginásio e universidade. Por que essa diferença?

B.F.: Isso ocorre de fato e por isso é que lançamos vários projetos, como o do apadrinhamento, para dar mais apoio às crianças, cujos pais são estrangeiros e não conseguem apoiar seus filhos como os suíços. A questão da educação é fundamental.

swissinfo.ch: O Estado é capaz de substituir os pais em deficiência e ajudar essas crianças?

B.F.: Essa é uma tarefa do Estado, ou seja, do sistema educacional, mas também da sociedade como um todo. O governo não é capaz de resolver todos os esses problemas.

swissinfo.ch: Existem determinadas grupos de estrangeiros que são mais difíceis de integrar na Suíça?

B.F.: É difícil responder a essa questão, pois não sou especialista em integração. Mas posso dizer, segundo minhas observações, que os migrantes do Vietnã, por exemplo, se integram melhor, talvez por terem outra ética de trabalho. O outro extremo são os eritreus, dos quais mais de 90% vivem de assistência social. 

Oposição opina sobre a política de Feurer

Mohamed Hamdaoui é jornalista, membro do Partido Socialista (PS) e do parlamento municipal. Entrevistado pela swissinfo.ch, ele contradiz algumas posições de Beat Feurer e do Partido do Povo Suíço (UDC, na sigla em francês), que representa.

swissinfo.ch: Qual a sua posição em relação ao projeto?

M.H.: Em si não me oponho ao projeto, mas sim o considero bastante simpático. Mas é preciso fazer atenção: é importante que as pessoas privadas não substituam o Estado nessas tarefas importantes. Nos Estados Unidos existe essa política de deixar as igrejas e os privados a se ocupar dos pobres e marginalizados. Eu não quero que isso ocorra em Bienne.

swissinfo.ch: Bienne fechou dois centros de acolho de asilados. O senhor concorda com isso?

M.H.: Isso não foi uma decisão do Beat Feurer, mas sim do governo cantonal. Não só houve uma baixa do número de pedidos, mas também foram medidas de economia aplicadas pelo cantão de Berna.

swissinfo.ch: Para Beat Feurer, Bienne não tem condições de receber mais asilados...

M.H.: Eu não concordo com isso. Isso é uma decisão política. Como membro do Partido Socialista, eu considero que Bienne tem, sim, capacidade de absorver essas pessoas. Eu vivo em um bairro onde existia um desses centros e nunca tive nenhum problema. Eu vivia cinquenta metros distantes deles.

swissinfo.ch: Mas doze por centos habitantes depende da assistência social, em grande parte estrangeiros. Isso não justifica essa política mais restritiva?

M.H.: É preciso dizer as coisas como elas são. Muitos desses estrangeiros aqui em Bienne não têm uma formação profissional. Além disso, Bienne é também uma cidade bilíngue, ou seja, para encontrar um emprego é preciso pelo menos compreender um dos dois idiomas, o alemão ou o francês. Para esses estrangeiros, que muitas vezes não dominam nenhum dos dois idiomas, é muito difícil se integrar. No final eles precisam procurar a assistência social. O problema não está no fato de termos muitos estrangeiros, mas sim na baixa integração deles.

swissinfo.ch: O que o Partido Socialista propõe para reduzir o problema da ajuda social?

M.H.: Precisamos promover a inserção profissional das pessoas. Um dos maiores problemas de Bienne é a grande quantidade de jovens que termina a escola e não encontra uma formação profissional. Essa situação os leva a um impasse. Acho inadmissível que um jovem de 17 anos receba assistência social antes de receber um salário. Precisamos desenvolver programas, até mesmo através de estágios, para dar-lhes uma formação profissional e depois um trabalho. Isso vale tanto para suíços como para estrangeiros. 

Links: 

Projeto de apadrinhamento de crianças - Fundação GAD

Beat Feurer no site oficial de Bienne

UDC/SVP em Bienne


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