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Suíços na Bahia


Imigrantes falam de trajetória e dizem o que pensam da Copa


Por Nelson Oliveira, Bahia


Jacques Delisle (esq.) vive milhares de quilômetros distante da Suíça, mas está ligado às tradições. (swissinfo.ch)

Jacques Delisle (esq.) vive milhares de quilômetros distante da Suíça, mas está ligado às tradições.

(swissinfo.ch)

Atualmente, de acordo com estimativa do Consulado da Suíça na Bahia, há cerca de 850 pessoas com cidadania suíça habitando no estado – a maior parte delas é de helvéticos da segunda e terceira gerações, com pais e avôs suíços. Em Salvador, capital do estado, eles compõem uma comunidade bastante diversificada. Cada um por seus motivos, se mudaram para o Brasil e hoje, garantem, levam vida muito diferente da que tinham antes, na Europa.

Jacques Delisle, amante da Bahia, mas ligado às tradições helvéticas

 

O engenheiro eletrônico Jacques Delisle, de 72 anos, chegou ao Brasil em 1975, para trabalhar na General Electronic, em Santo André, São Paulo. Um ano depois, se transferiu para Salvador, após contatos com a Escola Suíço-Brasileira de Mecânica de Precisão e o SENAI de Santo Amaro (SP), para desenvolver um projeto de ensino em Eletrônica Industrial no Centro Industrial de Aratu. No final da década de 1970, Salvador era uma cidade muito diferente de hoje. São tempos dos quais Jacques Delisle se lembra bem e sente saudades.

“Naquela época a Bahia e especialmente Salvador tinha muitos encantos que até hoje perduram, porém com menos intensidade. Era a época de Vinicius de Moraes, de Jorge Amado, de Dorival Caymmi. Na Lagoa do Abaeté, íamos nadar com meus filhos, e os pescadores traziam peixe fresco na nossa casa, em Itapuã. Tantas outras coisas que a vida acelerada de hoje não permite mais”, lembra.

O engenheiro, nascido em Neuchâtel, viveu na cidade entre 1976 e 1984, e, por motivos de trabalho, se mudou para a Índia. No entanto, quatro anos depois, Jacques Delisle estava de volta à Bahia, terra que o encantava pelas belezas naturais, pelo clima bom e pela cordialidade do povo baiano.

“Voltamos para Salvador para então fixar realmente raízes. Meus filhos constituíram família, as netas e netos logo estiveram com a gente e a Bahia continuou a nos acolher e encantar com suas belezas, seu carnaval, suas moquecas e acarajés com as baianas de saias amplas e redondas. O céu azul que não vai embora nunca sempre me encantou, a temperatura amena, sem muito calor e nunca frio, entre 20 e 30 graus sempre. Raramente se tem um dia cinza, mas sol e calor sempre”, diz.

Em Salvador, ele habita até hoje, onde é dono das empresas Cardioservice e Telemedicina da Bahia, que empregam mais de 100 pessoas e atuam nas áreas de equipamentos de cardiologia e exames recebidos via internet, com experiência de mais de 20 anos. Apesar de fixado no estado, Jacques Delisle mantém fortes ligações com o seu país de origem. Além de participar das consultas públicas e eleitorais, ele já foi presidente da Sociedade Suíça de Beneficência da Bahia, e foi durante a gestão dele, em 2006, que foi inaugurada a Casa Suíça, espaço de convívio entre os imigrantes helvéticos e seus descendentes no estado.

“Os contatos com a Suíça foram sempre mantidos através de notícias, parentes, viagens e da Sociedade Suíça da Bahia e dos muitos encontros com outros suíços durante todo o ano, onde celebramos as datas festivas do nosso país com comidas e música típica. Recebo jornais e revistas mensalmente, e como tenho um irmão que mora em Neuchâtel e tios em Yverdon e Moudon, sempre ficamos ligados e em contato. Também participo sempre das consultas públicas”, explica.

Margarita Gaudenz, sobrevivente da ditadura e apaixonada por Salvador

Margarita Gaudenz estudava em Perúgia, na Itália, quando conheceu o seu primeiro ex-marido, o antropólogo, artista plástico e militante político brasileiro Renato da Silveira. Um ano depois, em 1969, quando concluía seus estudos, já em Zurique, ele voltou, pedindo-a em casamento e chamando-a para morar no Brasil. Margarita confessa que, naqueles tempos, não conhecia muito sobre o país. “Naquela época, a ideia que tínhamos era a de uma verdadeira selva, com cobras nas ruas. Na verdade, a nossa recepção foi bem diferente. Meu início no brasil foi passando por prisões”, lembra.

Um ano e meio depois de chegar a um Brasil muito diferente do que imaginava, urbanizado e vivendo um período de ditadura militar, Margarita e Renato acabaram sendo detidos pelo regime. “Fiquei presa por 60 dias. Não falava português direito e não sabia responder aos interrogatórios constantes. Foi muito difícil. Não fui torturada fisicamente, mas sofri muita tortura psicológica. Quando cheguei em casa, encontrei tudo quebrado e revirado”, conta. Além disso, ela passou mais dois anos sozinha, enquanto o seu marido continuava preso e era torturado, na Penitenciária Lemos de Brito.

Enquanto seu ex-marido estava preso, Margarita Gaudenz tentava viver trabalhando como professora de línguas e tradutora, especializada em italiano e francês. Todos os problemas que a suíça de Scuol teve, porém, não afastaram-na do Brasil. Em 1974, Margarita se separou de Renato e até tentou retornar para seu país de origem, mas passou alguns meses nos Alpes e decidiu retornar para Salvador. Em 1983, Margarita se formou em massagem oriental e shiatsu e desde então trabalha como massoterapeuta, atendendo sua clientela em seu próprio apartamento.

Apesar de, no início, ter demorado a se acostumar com o calor, já que havia nascido nos Alpes, e com a grande desigualdade social, hoje Margarita não tem receio de dizer que acredita ter feito a melhor escolha ao vir morar no Brasil. Ela chegou a voltar para a Suíça outra vez, no final dos anos 80, depois que havia se casado e separado pela segunda vez, e quando já tinha dois filhos. Porém, a hospitalidade e a desenvoltura do brasileiro para fazer novas amizades fez com que ela não se acostumasse novamente ao país em que nasceu.

“Os suíços são muito reservados. Um dos meus filhos mora lá, e me conta que quando vai andar de skate na Suíça, nunca faz amizades, o que não acontece no Brasil. Quando voltei, também achei tudo um pouco seco. No Brasil é muito diferente. Às vezes você conhece uma pessoa em um ponto de ônibus e em 20 minutos já sabe a história de toda a vida dela. É o oposto. Para quem já viveu aqui, é muito estranho voltar. Foi um choque cultural vir para o Brasil e mesmo com todas as mudanças em Salvador, ainda me sinto bem aqui”, analisa.

Dentre os costumes helvéticos que preserva, Margarita conta que a falta de pontualidade dos baianos é algo com o que ela, mesmo há 45 anos morando em Salvador, tem dificuldade de lidar. “Sou pontual, faço questão. Na primeira vez que fui numa reunião na universidade e vi pessoas chegarem com mais de uma hora de atraso, me assustei. Hoje sei que preciso me adaptar, senão viverei irritada. Me disseram uma vez que se te convidam para um jantar e você for pontual é até falta de educação!”, pontua.

Leonardo Grogg, um suíço-brasileiro preocupado com o futuro do país

Entre os suíços que habitam na Bahia, há também aqueles mais críticos e atentos à política do Brasil. Leonardo Grogg, estudante de arquitetura de 20 anos, nasceu em Genebra, filho de uma ítalo-brasileira com um professor de artes suíço, que vive em Berna. Para o jovem, que veio morar no Brasil com sua mãe em 2005, quando tinha 11 anos, após o divórcio de seus pais, a adaptação à Bahia foi complicada, mesmo que ele já tivesse visitado o país diversas vezes, nas férias. Um dos motivos para isso foi a grande desigualdade social.

“Existem maneiras, comportamento e realidades extremamente distintas entre os países. Para minha mãe que é brasileira, a adaptação foi pior ainda, pois ela morou 17 anos na Suíça, com isto se readaptar com os costumes daqui foi terrível, principalmente na área profissional, porque aqui existem muitos problemas com horários. Também foi muito impactante conviver com as diferenças sociais entre as classes”, diz o estudante.

Atento às questões político-sociais do Brasil, Grogg participou das onda de manifestações que aconteceram no Brasil em junho de 2013, durante a Copa das Confederações. Segundo ele, os protestos são necessários para se alertar aos governantes que as pessoas não estão satisfeitas com a gestão do orçamento nacional. No entanto, ele acredita que a realização da Copa do Mundo pode ter sido uma oportunidade perdida para os brasileiros.

“Eu participei dos protestos durante a Copa das Confederações, e acho extremamente necessário protestar contra as diversas falhas do nosso governo. Acredito que a Copa poderia ter sido positiva para o turismo, o esporte e como propaganda do país, atraindo capital estrangeiro. Porém é lamentável o despreparo do país, o que, atrelado a alta burocracia, corrupção e falta de seriedade, estragou uma boa oportunidade de negócio”, acredita.

Apesar de incentivar que as pessoas expressem seu descontentamento, Leonardo Grogg acredita que protestar durante a Copa do Mundo pode não ser a melhor das escolhas. Segundo ele, a competição pode servir como marketing para o Brasil internacionalmente e ajudar turistas que, hoje, se sentem desmotivados para viajarem ao país.

“Acredito que os protestos durante a Copa do Mundo, podem ter efeitos negativos, pois esse evento não deixa de ser o marketing para o país. Espero que não acabe prejudicando a situação econômica daqui. Muitos amigos meus de lá da Suíça estão mais curiosos e interessados em vir ao Brasil por causa da Copa, mas a instabilidade social e o alto custo do Brasil, que é um destino caro, longínquo e inseguro, acaba desmotivando o pessoal”, avalia. 

 

Francisco Álvarez, um caloroso suíço-espanhol em terras brasileiras

“Um suíço não esquece a Suíça. Não há nenhum país melhor do que a Suíça. Nenhum. É a pérola da Europa”, diz Francisco Álvarez Dourado. Nascido em Zurique, mas filho de pais espanhois, oriundos de Ourense, na Galícia, o autônomo de 42 anos é taxativo ao falar sobre o país no qual nasceu e morou por 32 anos, sobretudo pela educação do seu povo, as belezas naturais e as boas condições de emprego e renda da população. Algo bem diferente do Brasil, país em que a desigualdade social é grande, assim como a violência. Fatos que o chocaram logo nos primeiros momentos.

“Da primeira vez que cheguei ao Brasil, fiquei assustado com a desigualdade e a violência. Mal dormi na primeira semana. Até hoje não me acostumei com isso e não conheço nenhum brasileiro que esteja tranquilo com isso. Um dos meus irmãos, que mora na Suíça e é casado com uma brasileira, teve uma arma apontada à sua cabeça uma hora depois que chegou a São Paulo pela primeira vez. As abordagens policiais também são truculentas”, disse.

Desde 1991, Álvarez fazia constantes viagens ao Brasil. Antes de se mudar para Salvador, onde esteve pela primeira vez em 2006, conheceu sua atual esposa, a baiana Taise Dourado, que trabalhava como modelo em Zurique. Em 2010, se mudaram para Salvador por uma oportunidade de negócios. Especializado em serviços de acabamento em imóveis, como impermeabilização e vedação de janelas, ele acreditava que não havia muita mão de obra qualificada em terras brasileiras. Assim, deixou a empresa que tinha para um dos irmãos e se mudou para o Brasil, onde hoje é um dos nomes mais requisitados na área. Recentemente, ele foi contratado para finalizar as obras em muitos apartamentos de um condomínio de alto padrão na cidade. Apesar de dizer que poderia ganhar mais na Suíça, ele se diz satisfeito com a escolha.

“Ganho bem aqui, mas poderia ganhar bem na Suíça. Quando eu tinha 20 anos, ganhava o equivalente a quase 10 mil reais. Que jovem brasileiro tem essa oportunidade? Mas gosto da Bahia. O clima me faz bem, e o fato de as pessoas serem mais calorosas e amigáveis que na Suíça também”, argumenta.

Apesar de gostar muito da Bahia e do Brasil, Álvarez não poupa críticas ao país quando o assunto é a realização da Copa do Mundo. Ele, que chegou a trabalhar como funcionário terceirizado da Fifa durante as reformas feitas nos estádios suíços que sediariam o Euro 2008, garante: os estádios brasileiros poderiam ter recebido um acabamento mais apurado para a Copa do Mundo. Ele também acredita que Salvador pode não estar suficientemente preparada para receber um grande fluxo de turistas de todo o planeta durante a competição. Para ele, há sérios problemas de infraestrutura, principalmente no aeroporto da cidade, que também não conta com um grande estafe de funcionários capacitados em idiomas estrangeiros.

“A impressão que tenho é que os estádios foram feitos às pressas. Poderiam ter um acabamento muito melhor. O Brasil sabia que iria realizar a Copa desde 2007, mas muita coisa ficou para última hora. Nem parece que a cidade irá receber jogos em alguns dias. O aeroporto está uma vergonha. Recentemente, cheguei da Europa e um outro voo havia chegado no mesmo horário. Cerca de 300 pessoas. Fiquei uma hora e meia na fila da imigração com um bebê de cinco meses no colo e funcionários da Polícia Federal ainda fizeram piadas. A maioria deles não fala outras línguas. Na Copa, com mais gente e um terminal com obras incompletas, será melhor? A Copa no Brasil foi um erro. Esse dinheiro poderia ser investido em outras áreas. Acho que o país pode passar vergonha pela sua desorganização”, critica.

swissinfo.ch

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