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Violência policial contra jovens


"Olimpíada está causando mais problemas do que coisas boas"


Por Fabiana Kuriki


Nascida na baixada fluminense (RJ), a cineasta e estudante de jornalismo Yasmin Thayná é uma ativista de apenas 23 anos. Consciente e engajada, a jovem demonstra maturidade e sensibilidade incomuns. Seus projetos abordam racismo e igualdade de gênero e seus filmes colocam a mulher como protagonista.

Yasmin Thayná sendo entrevistada (imagem extraída de vídeo no YouTube) (swissinfo.ch)

Yasmin Thayná sendo entrevistada (imagem extraída de vídeo no YouTube)

(swissinfo.ch)

Convidada pela Anistia Internacional Suíça, Yasmin participou em abril da Assembleia Geral da organização, em Genebra, onde falou sobre a violência policial contra jovens negros no Rio de Janeiro e o lançamento da campanha “Cinco anéis para o Rio de Janeiro. Uma chamada para os Direitos Humanos.” Esteve ainda na mesa de debate da conferência promovida pela Universidade de Lausanne em parceria com a foraus (Forum Aussenpolitik), para falar do impacto dos megaeventos esportivos no Brasil.

Para Yasmin, a campanha é importante porque alerta para a realidade brutal do alto índice de jovens negros mortos em função da violência policial. “Tenho um amigo que já foi parado várias vezes em uma área nobre do Rio de Janeiro. Hoje você vê policiais parando, fiscalizando porque é um jovem negro andando em área nobre. Uma pessoa da minha família já foi espancada por ser confundida com um bandido, o irmão de um amigo já foi morto pela polícia. Isso é uma coisa que a gente convive muito aqui. São amigos, conhecidos e amigos de infância sujeitos a essa violência. Estamos vivendo uma realidade em que cada vez mais essas mortes chegam perto da gente.”

FK - Yasmin, você acha que os Direitos Humanos são respeitados no Rio de Janeiro?

YT - Não, não pelos órgãos públicos. Eles só violam os direitos humanos. Começa pelo transporte público: criou-se sistemas para que as pessoas se matem e o Rio de Janeiro implementou um sistema de ônibus de segregação. As linhas que passam em comunidades não vão até a praia. Existe um sistema para que as pessoas tenham mais dificuldade para acessar a praia e fiquem cada vez mais longe das áreas nobres.

FK - Que lembrança você tem da Copa do Mundo?

YT - Ficou a lembrança de remoções forçadas, aumento da violência e uma vigilância muito grande. Os braços do Estado e da Secretaria de Segurança Pública estavam nas comunidades para apartar e não para proteger. Montou-se um sistema perigoso operando na cidade. Ao mesmo tempo tenho a lembrança de muita luta. A gente viu que tem um poder de mobilização de coletivos, periferias, lutando contra as arbitrariedades. Vi muita gente dizendo “não”, querendo um país mais aberto, mais “de todo mundo”. Vi também muita gente morrendo, em uma escala muito maior. Foi uma Copa do Mundo sangrenta, mas de muita luta, de muita articulação e modificações em sistemas. Fiquei esperançosa porque tem muita gente na luta.

FK - Você está feliz com os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro?

YT - Cara, consigo entender pontos positivos para a cidade. Não é uma coisa totalmente ruim, acho que traz algumas coisas, benefícios: na oferta de opções de lazer coletivos onde não existia, equipamentos de esporte, a oportunidade de conviver com gente do mundo inteiro. Mas acho que se implementou um projeto de cidade apartado (segregado), para poucos. Uma cidade com dificuldades para quem vive aqui. Um modelo com muita morte, violência policial nas favelas, com tanques de guerra na sua porta. Implementou-se uma ideia de pacificação que não resolve, porque traz violência e não paz. Nesse sentido é bem negativo.

No aspecto mais geral, acho que a Olimpíada está causando mais problemas do que coisas boas. Ontem a gente viveu uma chacina no Rio de Janeiro. À luz do dia! Um terror danado. Pessoas metralhadas, uma taxa altíssima de feminicídio, um sistema de transporte bem complicado, um direito cada vez mais cerceado sendo implementado na cidade. Vejo a Olimpíada como um projeto que poderia ter alterado as estruturas, garantindo mais oportunidades. Infelizmente vejo mais políticas de extermínio e de exclusão do que de vida. A segurança policial hoje mata muita gente inocente.

Na visita à Suíça Yasmin falou também sobre seu último filme, Kbela, que ela descreve como “uma experiência audiovisual sobre ser mulher e tornar-se negra”. 

O artigo foi inicialmente publicado na revista Linha Direta, do Conselho Brasileiro na Suíça (CBS) e cedida para publicação na swissinfo.ch

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