Tempos de identidade globalizada

A psicóloga intercultural Simone Torres Costa analisa a nova dimensão cultural moderna: a dos cidadãos que vivem pelo mundo em comunidades internacionais.

Liliana Tinoco Baeckert
Um migrante trabalhando em uma cozinha na Suíça: a vida no exterior exige capacidade de adaptação, mas não a perda da própria cultura. Keystone

Valorizar a cultura de origem e ao mesmo tempo a do país de acolhida são medidas indispensáveis para melhor adaptação em uma sociedade estrangeira. Essa é a constatação do famoso estudo de John W. Berry, pesquisador canadense, realizado desde os anos 70. A psicóloga intercultural e autora do livro Deconstructing Brazil beyond Carnival Soccer and Girls in Small Bikinis, Simone Torres Costa questiona, entretanto, a verdade que vem sendo absoluta há décadas.

Sua dissertação de mestrado pela Universidade de Lund, na Suécia, demostra que para a população de migrantes voluntários ou cidadãos do mundo globalizado, a convivência com pessoas da terceira cultura, aqueles de nacionalidades diversas que não necessariamente pertencem nem às suas culturas de origem nem à local, seria mais uma dimensão no processo de adaptação.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Como foi a sua pesquisa?

Simone Torres Costa: Em vez de focar em apenas uma nacionalidade se adaptando em um único país estrangeiro, entrevistei 708 pessoas de 69 diferentes nacionalidades vivendo 43 países. E foi exatamente essa diversidade de entrevistados que gerou resultado tão diferente: pela primeira vez analisou-se o ponto de vista dos nômades globais com um número tão significativo de participantes. O trabalho não focou na identificação das respostas por país; essa análise deverá ser realizada posteriormente.

swissinfo.ch: E o que foi tão surpreendente em termos de resultado?

S.T.C.: A interpretação dos resultados foi muito complexa, já que acaba por quebrar um paradigma. Há três décadas que se trabalha com a estratégia Integração como a melhor premissa. O estudo não desmente a psicologia intercultural de Berry, mas abre verificação de uma terceira dimensão que não havia sido observada anteriormente.

Os cidadãos globalizados estão aí para mostrar que é possível viver de outras maneiras. Essas pessoas mergulham tanto na cultura local, ao mesmo tempo mantém os seus traços culturais e ainda passeiam na terceira dimensão que é a cultura global, que ficam mais fortes ou atenuados dependendo do grupo em que estejam em determinado momento.

Uma brasileira participante da pesquisa, que mora há 40 anos na Suécia, lembra que apesar dos anos existe uma parte de sua identidade que nunca muda, uma parte na qual o cheiro, o paladar, e as emoções de se estar no Brasil nunca se perdem. É algo profundo. Por um outro lado, desenvolvemos a sensação nítida do não pertencimento em todos os lugares em que estamos e de certa forma nos acostumamos com ela.

A minha pesquisa vem de encontro ao trabalho de papas da área de identidade e globalização, como Stuart Hall e Zygmunt Bauman. Em seu livro A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, o sociólogo Stuart Hall escreveu sobre as novas identidades que estão surgindo na época do sujeito pós-moderno: um ser fragmentado, composto de várias identidades, algumas contraditórias e não resolvidas.  Segundo Hall, o pós-moderno assume diferentes identidades em diversos momentos. Elas estão inextricavelmente articuladas ou entrelaçadas, uma nunca anulando a outra completamente.

swissinfo.ch: E como se explica esse processo de integração sob as lentes do famoso psicólogo John W. Berry?

S.T.C.: Para melhor explicar as estratégias de adaptação, é importante dizer que existem quatro maneiras de lidar com a questão: a Assimilação, marcada pela valorização praticamente exclusiva da cultura local. A pessoa não quer falar o idioma natal, só quer pertencer à cultura do país estrangeiro. É como alguém que viesse viver na Suíça e resolvesse esquecer a vida pregressa. Tem poucos amigos brasileiros, não interessa esse tipo de contato. Só fala alemão com os filhos, não quer que eles tenham relação com o Brasil, por exemplo.

Simone Torres Costa: "Os cidadãos globalizados estão aí para mostrar que é possível viver de outras maneiras". swissinfo.ch

Existem emigrantes, no entanto, que negam a cultura do lugar onde vivem e só querem ter contato com os costumes do passado. A esse fenômeno dá-se o nome de Separação. São aqueles que só querem falar a língua portuguesa, não querem falar o idioma do país onde escolheram para morar. Outros, no entanto, acham que podem tomar emprestado um pouco das duas culturas. A isso dá-se o nome de Integração.

A quarta prática é denominada "marginalização" e acontece quando o imigrante não quer se integrar nem com a sua terra e tampouco com a sociedade onde habita. Esta está relacionada com vários problemas psicológicos como depressão. Não estranhamente essas pessoas se sentem perdidas.

swissinfo.ch: A senhora também mora fora do Brasil há muitos anos. Na busca de respostas sobre adaptação em eras globais, não houve nenhum questionamento pessoal sobre o seu próprio processo de adaptação?

S.T.C.: O meu objetivo, ao iniciar meu trabalho acadêmico, era investigar a melhor adaptação psicológica e sócio cultural. Saí a campo virtual com a pergunta "Você valoriza e mantém a cultura de origem?" e "Você valoriza e mantém a cultura do país de acolhida?". Mas o estudo teve um efeito questionador sobre mim também.

Passei a pensar em mim mesma, enquanto brasileira no exterior, onde vivo há mais de 18 anos. Eu refletia: será que eu valorizo a minha cultura? No caso do brasileiro em tempos de crise, essa pergunta é muito atual. Nos questionamos que valor a cultura brasileira tem, o quanto nós a julgamos. E nesse caso, será que eu a mantenho?

Acredito que essa questão esteja mais ligada aos comportamentos que nos aproximam à nossa cultura de origem, sobre como manter amigos da mesma nacionalidade, sobre ouvir música ou comidas típicas.

A conclusão foi a de que eu valorizava, mas não mantinha, já que me colocava um pouco a parte e não trazia para o dia a dia aspectos do Brasil. Por trás da teoria, coloco outra questão: por que teríamos que escolher entre uma e outra? O que adotar, tomar para si e deixar de fora? Esse é exatamente o dilema da adaptação: manter o respeito às duas culturas, nutrir a antiga, entrar na nova e, com o mundo cada vez mais globalizado, talvez ter que circular na terceira dimensão cultural, ainda mais desconhecida do imigrante.

Trocando em miúdos

A psicóloga intercultural Simone Torres Costa explica que a identidade é um pilar invisível que guia o nosso comportamento. É socialmente construída, fluida e não permanente. Em contrapartida, precisa ser alimentada todos os dias. Cada um dependendo da experiência internacional que teve pode construir a sua identidade saudável incorporando várias influências culturais sem precisar apagar ou desvalorizar o seu passado.

Trocando em miúdos, usar a camisa com o brasão do seu time de futebol identifica o torcedor e o diferencia de um de outro time. E aí mora a dúvida, alguns símbolos culturais não fazem mais sentido em outro ambiente. Qual a diferença que faz usar o escudo do Vasco da Gama ou da Chapecoense se você mora na Suíça? Então, a decisão vai depender do imigrante. O único problema é que as decisões não são tão lógicas ou simples sempre.

Segundo a tese de mestrado de Vanessa Paola Rojas Fernandez, feita pela Universidade de São Paulo em 2011, o processo de adaptação e negociação identitária que os imigrantes têm de fazer no novo contexto ao qual foram inseridos é uma das problemáticas fundamentais que emana dos trabalhos de história oral de vida e movimentos migratório.

De acordo com Vanessa, em seu trabalho sobre "Dilemas de Construção de Identidade: história de vida dos chilenos em Campinas", ao efetuarem a mudança de um país para outro, os emigrantes/imigrantes são portadores de valores de uma cultura original, e chegam com esses valores a uma cultura diferente.

Para uma adaptação ao contexto, alguns de seus valores culturais precisam ser revisados e até abandonados, ao mesmo tempo em que novos valores vão sendo adquiridos, completando aqueles e por vezes provocando conflitos, o que exige uma negociação desses valores. Esses valores culturais nacionais são os formadores de identidade nacional dos habitantes de uma nação. Dessa maneira, ao negociarem seus valores nacionais, estão, na verdade, negociando sua identidade nacional.

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