Lições das favelas do Rio de Janeiro na mala

Hilaine Yaccoub é doutora em Antropologia do Consumo, matéria que estuda comportamentos das pessoas em relação as escolhas de produtos e serviços. Para escrever sua tese de doutorado, morou durante quatro anos na favela carioca da Barreira do Vasco, onde investigou a dinâmica local e sua organização sócio econômica, cultural e política.

"Favelados e migrantes têm muito em comum: integram o grupo de populações vulneráveis, das minorias", afirma Hilaine Yaccoub. swissinfo.ch

Ao se inserir no mundo dos "de dentro" da comunidade, observou que os moradores encontraram um caminho particular para desenvolver formas de consumo compartilhado e colaborativo, a partir dos laços e vínculos sociais formados e estabelecidos em valores baseados em trocas de favores, nua espécie de assistência mútua. Trocando em miúdos, quem tem torradeira, não compra liquidificador, porque usa o do vizinho. A rede de favores funciona porque cada um doa o que pode, ajudando o grupo.

A antropóloga apresenta a favela além da precarização, mas dona de práticas que estão na vanguarda do pensamento social e contemporâneo. A favela apresenta expressões sociais que, apesar de informais ou ainda não legitimadas pelas instituições estatais, estão cada vez mais afinadas com a vanguarda do pensamento social e econômico contemporâneo. A economia de compartilhamento dos moradores brilha como prenúncio de uma futura economia baseada na sustentabilidade, na qual compra-se menos e troca-se mais. Dessa forma, populações ignoradas por governantes driblam falta de recursos com criatividade e união.

Ao trazer as reflexões sobre grupos vulneráveis para o ambiente migratório, Hilaine acredita que pessoas que morem fora do seu país de origem possivelmente devam ou senão deveriam agir da mesma maneira, levando na mala as lições de vida das favelas. "Diferenças sociais a parte, estrangeiros e favelados pertencem a categorias minoritárias, vulneráveis. Então, aconselho que se abram para conexões com os seus semelhantes", explica Hilaine, que presta consultoria para empresas multinacionais no Brasil, profere palestras no país e pelo mundo.

swissinfo.ch: Você passou quatro anos estudando a vida em favelas do Rio de Janeiro e descobriu uma série de sistemas interessantes que ajudam essas pessoas a sobreviverem em um ambiente de abandono do governo. Qual o paralelo que você faria dessa situação com a dos brasileiros e portugueses que vivem no exterior e mais precisamente na Suíça?

Hilaine Yaccoub: Vou começar a minha explicação contando um caso que aconteceu comigo na ponte aérea Rio-São Paulo. Estava dentro do avião, na fila da decolagem, já na pista de decolagem. No voo percebi um público diferenciado, com executivos de alto padrão socioeconômico que trajavam ternos assinados e mulheres bem vestidas usavam bolsas de grife. Eis que o voo, que era o último da noite, atrasa quase três horas devido ao mau tempo e todo o glamour se esvanece com o cansaço extremo. Do alto da minha fome e precaução, saco um pacote de biscoito recheado de chocolate e começo a oferecer aos que estão ao meu lado. Todas aquelas pessoas, que certamente fazem dieta o ano inteiro, comeram meu biscoito. Fizemos amizade e até ganhei carona depois de um desses passageiros, que tinha motorista particular.

Assim é o ser humano, quando colocado em situação de desconforto extremo, status, título e dinheiro não valem mais nada. O modus operandi naquele ambiente foi modificado pela necessidade mais forte de união para driblar uma eventualidade. Eu quero dizer com isso que, diante de circunstâncias extremas, somos colocados em situação de solidariedade mais uma vez contextualizada. Naquele momento, fazia sentido se juntarem a mim porque eu tinha o biscoito. Numa outra situação, eu poderia até ter sido olhada como uma estudante hippie, que não combinava naquele ambiente. Na época eu estudava antropologia e andava com colares de sementes da Amazônia nada glamoroso. Risos

Mas a necessidade transforma hierarquias. E assim acontece com quem vai viver em um país estrangeiro. Favelados e migrantes têm muito em comum: integram o grupo de populações vulneráveis, das minorias. Assim como os moradores de comunidades pobres, os migrantes, sejam de classe alta ou baixa, bem empregados ou não, geralmente não se sentem abraçados, inseridos. São estrangeiros. Assim como os favelados, os estrangeiros não são prioridade para receber a melhor parte do bolo. Por isso, nesses grupos, faz mais sentido focar no social; o dinheiro deixa de ser moeda nesses casos.


swissinfo.ch: Como assim? Você poderia exemplificar?

H.Y.: Imagine que para uma pessoa que more longe da família, assim como para uma que viva em uma favela, as relações sociais de favores e agradecimentos valha muito mais que a relação comercial. É a cultura da "mão que lava a outra". Nesse tipo de grupo, a economia surge inclusive pelas relações sociais, depois entra a moeda.

Em uma favela, por exemplo, o que é mais importante? A relação estabelecida entre vizinhos ou um liquidificador, por exemplo? A coisa, ou seja, o produto, é só um produto. Mas na hora em que você realmente precisar, quem vai te salvar é o vizinho, e não a coisa. Eu quero dizer com isso que esse tipo de relação revive a economia antiga, na forma de compartilhamento, na qual todos têm que contribuir. Então, se o seu vizinho não tem um liquidificador, você empresta o seu a ele quando necessário, porque as relações estão no topo dos interesses.

Se o vizinho te devolve o e eletrodoméstico queimado, você tenta resolver, se não chegarem a um acordo, podem até passar um tempo chateado, mas depois, na hora da precisão, na hora do socorro, é justamente essa relação que vai te garantir a solidariedade.

Pessoas que são ou se sentem excluídas, porque não fazem parte de uma sociedade de alguma maneira, devem compartilhar, se ajudar. Eu acredito que se vocês, que vivem em outro país, criarem força e se unirem, vão ganhar um poder enorme: o poder das relações sociais.

Hilaine Yaccoub com uma moradora da comunidade onde viveu quatro anos. swissinfo.ch

swissinfo.ch: Então essa seria a Lição da Favela que todos os estrangeiros deveriam seguir?

H.Y.: Sim, com certeza. Ser estrangeiro em outro país significa viver na vulnerabilidade. E quem está nessa situação precisa entender que o coletivo deve se sobrepor ao indivíduo. É preciso valorizar a conexão com os seus semelhantes. O grupo de pessoas de uma mesma nacionalidade pode até ter diferenças, mas divide as mesmas necessidades e desafios.

Quem emigra, sofre um desenraizamento, um verdadeiro descolamento da própria cultura. Passa pela aculturação, que é uma espécie de perda da própria cultura e se transforma em algo híbrido, não é nem uma coisa nem outra. Fica assim inserido num vácuo cultural. É uma situação difícil, porque o tempo todo tem que avaliar o que é certo e errado. Então, meu conselho é que aceitem que estão todos no mesmo barco e se unam.

swissinfo.ch: Você teria outros exemplos de como os moradores de comunidade fazem para se unir e o que poderia ser copiado?

H.Y.: Eu diria que os estrangeiros precisam ter leveza com os seus semelhantes. Também diria que é primordial entender o sentido da empatia e colocá-la em prática. Eu, que há pouco me mudei do Rio para São Paulo, presenteio o meu porteiro com uma garrafa de refrigerante de vez em quando. Ofereci ao grupo de porteiros do meu prédio a senha do meu Wi-Fi. Não é porque sou boazinha, mas porque acredito que eles não tenham tanto dinheiro para gastar com um pacote de dados melhor. Exercito a empatia para criar a minha rede de contatos também.

Então, quem mora fora do seu país, geralmente não tem família próxima. Por isso, precisa reforçar a sua rede e fortalecê-la constantemente, com pequenos atos, não é só em dia de festa ou dia de dor, é no cotidiano, é perceber e antecipar necessidades, se mostrar disponível, se abrir para as relações de reciprocidade. Eu sugiro que você doe roupas dos seus filhos que não caibam mais, se ofereça para cuidar das crianças dos outros quando possível, emprestar ferramentas, ou ajudar a virar uma laje como se diz na favela quando se faz o teto de uma casa. Estabeleça uma troca de favores. Se o seu filho faz o mesmo curso que uma criança que mora próximo, dê carona.

Se mora sozinha e sente falta de companhia, ofereça um pedaço de bolo ao vizinho, ou um jantar com comida da sua cidade ou país. O importante é distribuir afeto. As pessoas não estão mais acostumadas com gentilezas genuínas, mas esse pode ser o seu diferencial. Dar, receber, retribuir: esse é o lema da nova vida moderna.

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