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Flore Révallès – a "vampira" árabe do lago de Genebra

Flore Revalles na produção da peça "Xerazade" de 1910 do Balé Russo. Granger Historical Picture Archive

Ela foi a estrela do Ballet Russo nos Estados Unidos em 1916, tabloides interessavam-se ardentemente por suas unhas e penteados, e até mesmo Charlie Chaplin fixou um retrato dela na parede. Mas na Suíça, onde nasceu e morreu, ela encontra-se esquecida. Quem foi, afinal, Flore Révallès?

Este conteúdo foi publicado em 09. outubro 2021 - 10:00

Na década de 1950, Emilie Flora Cerf-Treichler alugou um estúdio em Genebra a que chamou “Paradiso”. Nele, ela pendurou seu passado na parede: um crocodilo empalhado que a tinha acompanhado nos Estados Unidos, sabres do Norte da África, tapeçarias do Egito, peles de serpente; de mais disso, partituras de música e dezenas de fotografias das suas apresentações em palcos ao redor do mundo – ou da região amazônica.  No meio, dois canários chilreavam em uma gaiola. Aqui, no Paradiso, ela acompanhava-se ao piano, cantava as óperas de seu passado e sonhava com seus dias de glória, quando ainda percorria o mundo como Flore Révallès.

Fotografia dos anos 1910, quando Flore Revalles ainda era uma celebrada estrela. Access Rights From Art Collection / Alamy Stock Photo

Seu nome já estava esquecido na Suíça daquela época, e hoje é ainda mais difícil encontrar informações sobre ela. Seu único biógrafo foi o seu afilhado, o ator Guy Trejan, que escreveu algumas páginas sobre ela em sua própria biografia. Apesar de toda a ternura presente em sua descrição, ele compara a querida tia nos últimos anos de sua vida à diva decadente do cinema mudo Norma Desmond em “Sunset Boulevard”, e alguma vergonha vem à tona quando ele conta como ela continuava a dizer a todos: “Vous ne pouvez pas savoir ce que j'ai été!” Bem, quem foi, afinal, Flore Révallès?

Flore Emilie Treichler, da pequena cidade de Rolle, torna-se Flore Révallès

Flore Révallès nasceu Emilie Flora Treichler em 25 de janeiro de 1889 em Rolle, uma pequena cidade às margens do Lago de Genebra. Ela teve dois irmãos, um dos quais morre de tuberculose ainda jovem. Pouco se sabe sobre sua infância – em entrevista ao "Motion Picture ClassicLink externo", nos Estados Unidos, ela diz que quando criança sempre cantava. “And I would want people to listen, that is much, thee audience.” – a jornalista caricatura seu sotaque francês na transcrição.

Aos 16 anos, parte para o conservatório, em Paris, a fim de ter aulas de canto – contra a resistência de sua mãe. Seu pai já não tinha uma palavra a dizer quanto à esta decisão. Gustav Treichler tinha ido ao Império Abissínio em 1903 para construir uma ferrovia através do país para o Rei Menelique II. Em suas cartas para casa, ele descreve uma África em que hienas andavam às furtadelas em torno das casas e jiboias que cresciam até aos dez metros de comprimento. Só regressou à Europa em 1914, morrendo de febre em Marselha.

A filha de Gustav Treichler chama-se agora Flore Révallès e canta no Grand Théatre em Genebra. Mas em breve também ela se lança ao mundo, ainda mais longe do que o pai. Após ter cantado “Thaïs” no palco em 1915, alguém bate à porta de seu camarim. À sua frente está Leon Bakst, o cenógrafo e figurinista do famoso Ballet Russe, que faz uma turnê pelo mundo com o empresário Sergei Pavlovich Dhiagilev.

Flore fica surpresa quando Bakst quer contratá-la como bailarina. Ele assegura-lhe, tranquilizando-a, que não há necessidade de formação em dança clássica, é o seu “allure, votre façon de vous mouvoir, votre plastiques...”. Dhiagilev resgata Flore de seu contrato com o teatro em Genebra – e a leva em sua turnê. Em janeiro de 1916, partem para os EUA – primeiro para Nova Iorque, seguido de uma viagem à Costa Oeste.

Erotismo fatal

Nos EUA, Emilie Flora Treichler, da pequena Rolle às margens do Lago de Genebra, é celebrada acima de tudo como uma beleza exótica, elogiada pela sua “dusky beauty” e pelo seu “exotic flavor”. Com as peças “Scheherezade” e depois também “Cléopatra”, na qual desempenha o papel principal, o Ballet Russes atende à fome insaciável do público ocidental por representações do Oriente. O Ballet Russe já não tem nada que ver com tutus e pequenos vestidos brancos; nele as mulheres dançam descalças em vestidos arejados e coloridos concebidos pela fantasia que Leon Bakst tem do Oriente – um estilo que se tornou uma tendência entre as estrelas americanas por volta de 1920.

Lydia Sokolova (esquerda) e Flore Revalles em uma cena da produção do Ballet Russes de "Cleopatra" de Sergei Diaghilev. The Granger Collection, New York

“Scheherezade” é sobre um xeque que testa a lealdade de seu harém – mas sua favorita, Zobeide, se entrega a um escravo do harém, interpretado por Nijinski, logo após ele lhe virar as costas, e começa uma orgia. O xeque então manda assassinar a todos – o Oriente é apresentado como um refúgio de violência bruta e sexualidade selvagem. O Ballet Russe é também o campo de ensaio para a figura da mulher sedutora, uma mulher de erotismo fatal pela qual os homens se apaixonam, o que mais tarde fez tanto sucesso em Hollywood.

Flore Revalles em seu papel de grande ninfa e Vaslav Nijinsky de fauno na peça "L'après-midi d'un faune". Nova York, 1916. Karl Struss

A foto de Flore Révallè logo aparece na revista “Vanity Fair”, na “Vogue”; jornais de todo o país elogiam sua entrada em cena. E torna-se ainda mais conhecida graças a uma iniciativa de Edward Bernays, o inventor das relações públicas. Ele começou como “press agente” do cantor de ópera Caruso, e ajuda a triunfar cantores e cantoras, sobretudo, a obterem mais atenção. Mais tarde, ele venderá o cigarro às mulheres como símbolo de liberdade e a torrada, o bacon e o suco de laranja aos americanos como um café da manhã saudável. Seu lema era: uma boa história vende qualquer produto.

Enrico Cecchetti e Flore Revalles em "Xerazade", Nova Iorque, 1916. MS Thr 495 (153), Harvard Theatre Collection, Houghton Library, Harvard University

No caso de Flore Révallès, foi a história de que ela domou uma cobra com sua beleza e a usou para aperfeiçoar sua dança como Cleópatra. Ela disse à revista Billboard que queria tornar sua dança como Cleópatra “ainda mais perigosa, ainda mais cruelmente sedutora do que nunca, estudando os movimentos frios e escorregadios da serpente”. A foto de Révallès no Zoo do Bronx brincando com uma cobra foi vista em todo o país e fez dela uma estrela de um dia para o outro – ela voltaria a aparecer com sua cobra nos anos que se seguem, mais tarde com um jovem crocodilo que lhe foi dado por um admirador.

Flore Revalles com sua cobra. Underwood & Underwood

Ela é conhecida por seu estilo extravagante de moda e sua aparição em público cheia de estilo e confiança, e os tabloides informam sobre a bataLink externo que usa nas horas vagas e a linguagem de suas unhas.

Artigo de jornal do "Boston Post" sobre Flore Révallès. Boston Post

Tornando-se um fantasma

Após algumas produções da Broadway, que também são bem recebidas na imprensa, ela interpreta a esposa desleal em dois filmes mudos americanos. Por um lado, em "Woman", um filme que tenta contar a história da mulher desde Eva até aos dias de hoje, um esforço ousado na época. Em "Earthbound" (um êxito de bilheteria!), o rival mata seu marido, que se torna assim um fantasma e fala com Révallès do além em uma espécie de terapia de casal. Seu segundo filme seria também seu último nos Estados Unidos – depois disso, ela própria se converte, de certa forma, em um fantasma e sua carreira se torna mais difícil de acompanhar.

Cena do filme mudo "Earthbound". Michael A. Dean

Ela sentia saudades da Europa e de cantar, escreve seu sobrinho Guy Trejan; muda-se para Itália e começa a cantar novamente. Seu sobrinho faz breves insinuações em suas memórias de que ela teria cantado, em uma festa de gala, para Mussolini e apoiado o fascismo italiano, mas aparentemente não quis envolver-se em demasia. Continua a fazer turnês pelo mundo, incluindo uma apresentação no Cairo no seu antigo papel como Cleópatra. Em 1936 ela regressa à Suíça – os compromissos diminuem; ademais, ela tem de cuidar de seu irmão psiquicamente doente e, após a morte dele um ano depois, de seu filho. De vez em quando, ainda atua em Paris.

Depois da guerra, ela casa-se com um industrial de Genebra, cuja fábrica, porém, está prestes a fechar. Em 1958, seu marido falece e Flore Révallès encontra-se em uma situação financeira extremamente precária; sua pensão é bastante baixa. Ela tenta manter-se ocupada, começa a pintar, busca um sentido de vida entre os mórmons e os rosa-cruzes e luta contra aqueles que “roubaram” a fábrica de seu marido. Em 1966 ela morre em uma clínica perto de Leysin (VD) – sobre sua lápide lê-se o nome Flore Cerf-Treichler.

Flore Revalles entre 1918 e 1923. New York Public Library

Fonte bibliográfica:

Guy Tréjan: Ma vie est mon plus beau rôle. Paris 1993.

Jean-Pierre Pastoris: Soleil de nuit. La Renaissance des Ballets Russes. Lausanne 1993

Artem Lozynsky: Orientalism and the Ballets Russes. In: Situations 1/2007.

Larry Tye: The father of spin: Edward L. Bernays & the birth of public relations. New York 1998.

Adaptação: Karleno Bocarro

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