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Como as criptomoedas se beneficiam da crise bancária

A sede do Banco Seba no cantão de Zug. swissinfo.ch

Segundo Päivi Rekonen, presidente do SEBA Bank, a recente crise bancária não afetou sua clientela. Pelo contrário, os pedidos de abertura de contas até aumentaram. Entrevista.

Foi em Zug que Päivi Rekonen (54 anos), presidente do conselho de administração do SEBA Bank, recebeu a swissinfo.ch. Como o SEBA Bank, que emprega cerca de 120 pessoas em cinco países, é um banco fundado em 2018, seria de se esperar que a entrevista acontecesse em uma garagem ou em um hangar cheio de jovens especialistas em tecnologias da informação (TI). Mas a sede do SEBA Bank Zug se parece muito mais com as luxuosas instalações de um banco privado do que com as de um start-up de tecnologia.

Nascida na Finlândia, Päivi Rekonen possui um mestrado em Economia e outro em Ciências Sociais pela Universidade Finlandesa de Jyväskylä. Durante sua carreira internacional, ocupou diversos cargos estratégicos de transformação digital em empresas como Cisco, Nokia, UBS, Credit Suisse e Adecco. Päivi Rekonen também faz parte de vários conselhos administrativos de empresas internacionais (Wipro, Konecranes etc.) Desde setembro de 2020, ela preside o conselho de administração do SEBA Bank. DR

swissinfo.ch: Na Finlândia, onde você nasceu, a igualdade de gênero é muito importante. E na Suíça?

Päivi Rekonen: Cada país se desenvolve de maneira diferente. Na Finlândia, tivemos uma enorme necessidade de mão-de-obra durante nossa nascente industrialização, durante e após a II Guerra Mundial. Uma vez que as mulheres participaram ativamente desse esforço, elas ingressaram naturalmente no mundo do trabalho. Além disso, a legislação e a segurança social foram sendo gradualmente adaptadas para apoiar as famílias, por exemplo, com creches.

No meu caso, sempre trabalhei na área tecnológica para grandes multinacionais, particularmente na Suíça. Vinte anos atrás, eu era muitas vezes a única mulher. Felizmente, a situação mudou muito desde então. 

swissinfo.ch: O que agrada e não agrada a senhora no país?

P.R.: Meu marido e eu viemos para a Suíça há muitos anos. A princípio pensavamos que estávamos apenas de passagem, mas nos apaixonamos por este pequeno, cosmopolita e muito dinâmico país. E decidimos nos estabelecer aqui. Correndo o risco de causar surpresas, por mais que eu procure não consigo encontrar nada que eu não goste na Suíça.

“Por mais que eu procure não consigo encontrar nada que não me agrade na Suíça”.

swissinfo.ch: Os gestores de start-up são geralmente muito jovens. Em contraste, a senhora e seu CEO têm mais de trinta anos de experiência profissional.

P.R.: Em nosso banco, temos compromisso com a diversidade, especialmente no que diz respeito à idade. No meu caso, experimentei o desenvolvimento e a adoção de várias tecnologias inovadoras. E isso ao longo de vários ciclos. Todas essas experiências, conhecimentos e competências devem nos ajudar a tomar melhores decisões e a evitar armadilhas. Mas além de quaisquer diferenças, estamos sobretudo unidos pela mesma paixão por blockchain e criptotecnologias.

swissinfo.ch:O SEBA-Bank é um “criptobanco”. Concretamente, o que isso significa? 

P.R.: Somos um banco suíço semelhante a outros bancos suíços. Portanto, temos uma licença bancária concedida pela FINMA, a Autoridade federal de supervisão do mercado financeiro. Consequentemente, o conjunto de nossas atividades é regulado e controlado por esta autoridade supervisora.

Nosso banco oferece uma multiplicidade de serviços a investidores privados e institucionais, como, por exemplo, a gestão de ativos, a disponibilização de cartões de crédito ou a concessão de empréstimos. Além de tudo isso, temos uma ótima infraestrutura e competências específicas em ativos digitais como criptomoedas.

swissinfo.ch: Quais são as vantagens de sua especialização em ativos digitais?

P.R.: Um número crescente de investidores deseja investir parte de seus ativos em criptomoedas, como bitcoins ou etheres. Esses investidores podem isso sozinhos, mas é complicado. E é antes de tudo arriscado se o armazenamento de ativos digitais não for feito de maneira correta: em caso de ataque de hackers, esses investidores podem perder tudo.

Nosso banco oferece assim a esses investidores não só facilidades de uso, mas também um armazenamento altamente seguro para suas criptomoedas. Além disso, podemos, por exemplo, vincular uma conta bitcoin a outros produtos, como cartões de crédito. Finalmente, muitos bancos tradicionais recorrem à nossa expertise no universo das criptomoedas a fim de gerir os ativos digitais de seus clientes.

swissinfo.ch: Seu site está exclusivamente na língua de Shakespeare. A base de seus potenciais clientes é unicamente anglófona?

P.R.: O inglês é a língua de fato das finanças. Como nossas ambições são globais e ainda somos uma start-up, decidimos usar o inglês, por enquanto, como único idioma.

swissinfo.ch: E como está o desenvolvimento do banco na Suíça e no exterior?

P.R.: Estamos em pleno crescimento e prestes a contratar novos funcionários em Zug e no exterior, neste caso em Abu Dhabi, Hong Kong e Singapura. A nível internacional, apostamos no recrutamento de talentos que reforcem o contato direto com clientes em jurisdições que o permitam, bem como levem a cabo nossas atividades operacionais e de “compliance” (conformidade).

swissinfo.ch: A ascensão do blockhain e dos criptoativos é muito recente. É possível encontrar talentos suficientes já treinados?

P.R.: Na Suíça, cerca de vinte universidades e faculdades de ciências aplicadas já oferecem formação nessas áreas. E segundo a Crypto Valley Venture Capital (CV VC), as empresas que compõem o Crypto Valley [cujo epicentro é Zug] empregam cerca de 6.000 pessoas; além disso, o ecossistema suíço de blockhain já conta com vários unicórnios, ou seja, start-ups avaliadas em mais de um bilhão de dólares.

Em comparação internacional, a Suíça ocupa, portanto, uma boa posição em termos de talentos. E se certas competências não estiverem disponíveis localmente, não é particularmente difícil atraí-las do exterior. Na realidade, cerca de vinte nacionalidades estão representadas em nosso banco.

swissinfo.ch: Quanto ao seu financiamento, que valores já angariou? Foi por meio de uma “Initial Coin Offering” (ICO) ou de uma “arrecadação de fundos de criptomoedas”?

P.R.: Levantamos cerca de 230 milhões de francos suíços em três rodadas. Fizemos isso de maneira totalmente clássica, emitindo ações denominadas em francos suíços. Mas em um segundo momento, e para assegurar uma administração mais eficiente, digitalizamos todas as nossas ações e as colocamos em blockhain.

“Levantamos cerca de 230 milhões de francos suíços em três rodadas de financiamento”.

swissinfo.ch: A FTX, uma importante bolsa de criptomoedas, entrou recentemente em processo de falência. Poderia ter ocorrido um tal colapso na Suíça?

P.R.: A FTX, com sede nas Bahamas, era uma organização não regulamentada. Muito já foi escrito sobre esta organização e os acontecimentos que conduziram a esta situação. A regulamentação pode certamente reduzir o risco, mas, no mundo dos negócios, não há garantia de sucesso, especialmente se um modelo empresa não se revelar sustentável e seguro.

swissinfo.ch: Como as recentes falências do Signature Bank e do Silicon Valley Bank, bem como a súbita aquisição do Credit Suisse pelo UBS, afetaram seu banco?

P.R.: Todos os nossos serviços bancários têm funcionado sem problemas e os nossos clientes não foram afetados. Com efeito, estamos assistindo uma demanda crescente por nossos serviços em todo o mundo. Por exemplo, em todos os nossos escritórios em Singapura, Hong Kong, Abu Dhabi e Zug, o número de solicitações de abertura de contas aumentou após esses eventos.

Além disso, o preço do bitcoin se fortaleceu, o que pode ser um indicador de que os investidores estão buscando instrumentos alternativos de investimento, ou seja, fora do sistema financeiro tradicional. Como banco criptográfico com mais de três anos de experiência, estamos bem posicionados para tirar partido dessa tendência.

swissinfo.ch: Em relação à regulamentação das criptofinanças, qual é a posição da Suíça em comparação com os outros países?

P.R.: É certo que a FINMA e outros órgãos têm feito grandes esforços para regular de maneira adequada as finanças criptográficas. Portanto, podemos dizer com certeza que a regulamentação suíça está na linha da frente. No cantão de Zug é até possível pagar parte dos impostos em bitcoins.

Os reguladores em Singapura e Hong Kong são também muito ativos, mas não creio que devam ser considerados concorrentes. Idealmente, gostaríamos de ver alguma regulamentação harmonizada internacionalmente em nosso setor. Uma primeira etapa seria a adoção de definições comuns para conceitos tão fundamentais como “criptomoeda” ou “ativo digital”.

Edição: Samuel Jaberg

Adaptação: Karleno Bocarro

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