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Diáspora helvética Porque os suíços gostam tanto de se exilar na França

Mais de 200.000 suíços vivem oficialmente na França, formando a mais numerosa comunidade helvética instalada no estrangeiro. Enquanto a presença francesa na Suíça provoca frenquentemente crispações, o inverso é muito menos verdadeiro. Explicações com a historiadora Anne Rothenbühler.



Voluntários suíços em Paris, agosto de 1914. Na Primeira Guerra Mundial, numerosos suíços integraram as tropas francesas por necessidade econômica ou  por ideal.

Voluntários suíços em Paris, agosto de 1914. Na Primeira Guerra Mundial, numerosos suíços integraram as tropas francesas por necessidade econômica ou  por ideal.

(Roger Viollet/getty images)

De 18 a 20 de agosto haverá em Basileia o 95° Congresso dos suíços do estrangeirLink externoo, grande encontro anual da diáspora suíça. A delegação vinda da França será novamente a mais numerosa. Dos 775.000 suíços morando no estrangeiro no final de 2016, mais de 200.000 eram domiciliados na França.

Anne Rothenbühler conhece bem essa comunidade: ela mesma faz parte e a estudou de perto. Originária do cantão do Jura, ela se estabeleceu na região de Paris, ela de fato se especializou na história – ainda relativamente desconhecida – da imigração suíça na França.

swissinfo.ch: Mais de um expatriado suíço em cada quatro no mundo vive na França. A proximidade geográfica, linguística e cultural explica esse fenômeno?

Anne Rothenbühler:  Em parte somente. A Alemanha também é próxima geográfica e culturalmente da Suíça. No entanto, ela tem duas vezes menos suíços em seu solo. Isso está ligado à tradição migratória entre a Suíça e a França, que remonta praticamente à Antiguidade. Ao longo de séculos, as famílias traziam seus parentes, formando uma verdadeira cadeia migratória entre os dois países.

É preciso lembrar que a fronteira, tão importante atualmente, é uma construção política relativamente nova. Antes de 1914, o passaporte não existia. A fronteira era muito permeável e a circulação entre a Suíça-francesa e a França era muito importante. Vendedores, artesões e comerciantes foram, desde o século 14 numerosos a viajar e se instalar do outro lado da fronteira.

swissinfo.ch: Como explicar que metade dos suíços da França residem em Lyon ou nas imediações? 

A.R.: Muitos são descendentes de comerciantes suíços que vieram se instalar em Lyon. No século 16, a cidade se tornou, como na época romana, um dos grandes centros do mundo e atraia negociantes de toda a Europa. Atualmente, a regional é de indústria química e farmacêutica de ponta, atraindo um grande número de especialistas suíços. Nas estatísticas, acrescenta-se também milhares de suíços que vieram morar na França vizinha porque as casas e apartamentos são mais baratos mas que continuam a trabalhar do outro lado da fronteira.

Anne Rothenbühler (36 anos) é historiadora da imigração suíça, autora em 2015 de "A mochila e a saia, as suíças em Paris, itinerários migratórios e profissionais", edições  Alphil. 

(DR)

swissinfo.ch: Vamos voltar um pouco ao passado. De quando data a primeira vaga de imigração suíça na França?

A.R.: Do primeiro século antes de Cristo! Considerando que a Suíça era muito pequena para eles, uma centena de milhares de helvéticos desembarcaram na planície do Ródano. Julio César foi forçado a intervir: é começo da guerra dos Gaules. Certas imagens da imigração suíça posteriormente marcaram os espíritos, especialmente as dos temidos mercenários que se tornaram Guardas suíços a serviço dos reis da França.

Mas outros tipos de migrações menos conhecidas vão se enraizar na França: durante a guerra dos Cem Anos (1337-1453), suíços partiram colonizar as regiões norte e leste da França atingidas pelas destruições e o êxodo demográfico. A mesma coisa se repetiu durante a guerra de Trinta Anos (1618-1648) : são então os suíços-alemães que não tem acesso à terra na Suíça que vão se instalar massivamente do outro lado do Reno

swissinfo.ch: A grande vaga de imigração do século 19, durante a qual a população suíça foge da miséria e da pobreza, teve um impacto significativo nas comunidades suíças da França?

A.R.: Essa emigração de massa dirige-se principalmente a além-mar, mas também atinge a França e a Itália. Na época, a Suíça é um país majoritariamente agrícola e a industrialização não é capaz de absorver o excedente de mão de obra. Acrescente-se a isso o medo da superpopulação, atiçado pelas elites. Essa migração é muito organizada. São criadas agências de emigração para propor viagens prontas aos indigentes dos quais as comunas e os burgueses querem se livrar.

swissinfo.ch: As mulheres tiveram um papel importante nesse movimento migratório do século 19. Em Paris, Marselha ou outras cidades francesas, elas eram empregadas domésticas e babás. Por que razão?

A.R.: As suíças tinham na época um excelente reputação na França. Trabalhadoras, sérias e um certo gosto da frugalidade eram particularmente apreciados. Essas mulheres saídas de meios modestos, são mais movidas pela ambição do que por argumentos puramente econômicos. Quando voltavam, podiam valorizar a experiência na França. E, frequentemente, era a única possibilidade para elas de viajar.

swissinfo.ch: Os suíços da França mantêm laços estreitos entre eles ou se fundem na população local?

A.R.: Uma malha comunitária muito forte se instala a partir do século 19. As elites suíças que moram em Paris exercem m um controle sobre a população suíça com o objetivo de preservar sua boa reputação. Surgem cervejarias, corais, clubes de ginástica ou ainda jornais. Uma política de retorno incita os elementos mais incômodos e voltarem para o país.

Esses laços comunitários ainda são muito fortes hoje. A Revista dos Suíços do Estrangeiro é muito lida na França, muitas associações helvéticas continuam a existir. Essa necessidade de conservar laços com o país de origem manifesta-se sobretudo entre os binacionais que não têm mais vínculos fortes a Suíça.

swissinfo.ch: Teve momentos na história em que os suíços deixaram de ser bem-vindos à França?

A.R.: Teve e foi pontual. No início do século 19, surgiram crispações devido a vontade dos suíços de instalar colônias na Aquitaine. No fim da Primeira Guerra Mundial, o círculo econômico suíço deve fazer um enorme trabalho pedagógico para relançar os negócios entre os dois países, pois a Suíça era assimilada à Alemanha. Mais recentemente, houve tensões entre os dois países sob a presidência de Nicolas Sarkozy. Mas nunca houve rejeição massiva dos suíços na França.

swissinfo.ch: Ao inverso, a presença de franceses na Suíça suscita problemas, como testemunha o livro da jornalista Marie Maurisse (“Bem-vindo ao paraíso”), que denunciou a xenofobia latente de que seriam vítimas seus compatriotas expatriados e fronteiriços. Por que essa diferença de tratamento?

A.R.: Isso deve-se ao fato que o argumento econômico funciona em só um sentido. Se um suíço se instala na França, não é para ganhar mais dinheiro. Mas os clichês em relação à Suíça também permanecem na França. Me dizem frequentemente que, porque sou suíça, meu avô é chocolateiro, relojoeiro o banqueiro e desconfiam que vivo como milionária.

swissinfo.ch: A França continua hoje ainda a atrair numerosos suíços. Em que a atual vaga de imigração se distingue das precedentes?

A.R.: O perfil das pessoas que migram por razões profissionais evidentemente mudou. Não são mais os artesãos que partem, mas pessoas que pretendem ocupar cargos de alta responsabilidade, em setores de alta tecnologia por exemplo. Encontramos também entre os novos migrantes jovens aposentados que pretendem ter uma vida mais agradável na França. A semelhança com as vagas migratórias do passado são as numerosas idas e vindas entre os dois países.

swissinfo.ch: Ainda há fatos ignorados a respeito da imigração de suíços na França?

A.R.: Toda essa história migratória ainda é relativamente desconhecida, mas um capítulo particular continua ignorado, o das jovens mães que, no século 19, partiram para dar à luz em Paris para evitar zombarias e a exclusão em suas comunidades de origem. Esse é um exemplo de migração único na Europa. Nem as italianas e as alemãs fizeram isso.

Você pode contatar o autor desse artigo no Twitter: @samueljabergLink externo


Adaptação: Claudinê Gonçalves

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