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Futuro do Home Office vacila entre risco de precariedade e desejo de independência

Ter seu próprio espaço em casa para o home office nem sempre é fácil. Keystone / Sascha Steinbach

Somente o tempo dirá se o teletrabalho se consolidou na sociedade e se terá consequências negativas. Contudo, já é possível fazer algumas suposições.

Este conteúdo foi publicado em 13. julho 2021 - 10:39

Home office, trabalho remoto ou simplesmente teletrabalho: esses termos agora fazem parte do nosso cotidiano. Entre meados de janeiro e 31 de maio de 2021, onde quer que fosse possível, o teletrabalho tornou-se até mesmo obrigatório na Suíça. A sociologia do trabalho, no entanto, não esperou a pandemia para se interessar por essa prática. O trabalho remoto tem sido estudado por décadas, como confirmou Nicolas Pons-Vignon, professor do Centro de Competência em Trabalho, Riqueza e Sociedade da Universidade de Ciências Aplicadas da Suíça italiana (SUPSI).

Agora que a obrigatoriedade do teletrabalho foi suspensa, será que ele sobreviverá à crise sanitária? De acordo com um estudo global realizado pela Gartner, uma empresa internacional de consultoria e pesquisa estratégicas, 90% dos gerentes de recursos humanos das empresas pesquisadas continuarão a permitir que seus funcionários trabalhem pelo menos parcialmente de casa após o fim da crise do coronavírus. Além disso, 48% dos funcionários optarão por essa opção pelo menos em parte do tempo. A proporção chega até mesmo a 75-80% em setores como atendimento ao cliente ou suporte técnico/TI.

Os setores mais interessados

Na Suíça, de acordo com dados do Departamento Federal de Estatísticas, o número de funcionários que trabalham em casa saltou de 24,6% em 2019 para 34,1% em 2020. O teletrabalho é amplamente praticado no setor de informação e comunicação, onde abarcava (pelo menos ocasionalmente) 58,4% dos funcionários em 2019 e 76,3% em 2020! Mas também foram registrados aumentos surpreendentes no setor de finanças e seguros (de 34 para 61,4%), nas profissões científicas e técnicas (de 39,3 para 54,7%) e na administração pública (de 22,4 para 42%). Por razões óbvias, contudo, as porcentagens permaneceram muito baixas em setores como construção, saúde, alimentação e hotelaria.

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O risco da precariedade

Com a pandemia, o teletrabalho provou ser a única opção viável para muitos profissionais. Mas ao tentar prever se esta prática continuará e como ela evoluirá, muitos aspectos precisam ser avaliados, dependendo da empresa, do trabalhador e das circunstâncias. "Quando os empregadores falam de 'flexibilidade' oferecida e exigida do empregado, isto muitas vezes implica também em maior vulnerabilidade por parte do próprio empregado", observa Nicolas Pons-Vignon. "Devemos, portanto, distinguir entre flexibilidade na organização do trabalho (por exemplo, teletrabalho) e flexibilidade nas condições contratuais". Quando você trabalha remotamente, certamente há muitas vantagens. Mas estas vantagens também podem permanecer teóricas se você não tiver a autonomia, a segurança ou as condições necessárias para realizar suas tarefas.

Nem todos têm um trabalho que possa ser feito em casa (como mostra a galeria acima). Mas mesmo quando o fazem, as condições nem sempre são ideais. Keystone / Mahmoud Khaled

Na verdade, a expansão do teletrabalho também pode levar a um aumento da precariedade, explica o professor. “Um empregador pode pensar ‘se um trabalho pode ser feito em casa, eu não preciso empregar um funcionário e pagar contribuições sociais e seguros. Basta contratar uma pessoa externa que é paga por hora’. Essa externalização do trabalho pode ser atraente para aqueles que querem se tornar autônomos, mas ela torna os empregados mais vulneráveis, especialmente aqueles com menos perspectivas”, alerta Nicolas Pons-Vignon.

Esse risco é particularmente forte em países com alto desemprego ou com uma situação social já frágil. A qualidade do trabalho remoto, portanto, depende muito das condições contratuais, e é provável que seu futuro seja híbrido e heterogêneo. O pesquisador da SUPSI vê três cenários possíveis:

  • Todos voltam ao trabalho presencial, principalmente devido ao medo do empregador de que seus funcionários não “produzam” o suficiente em casa, ou devido à oportunidade que têm de progredir através do contato uns com os outros.
  • Sempre que possível, todos ficam em casa. Se a opção funcionar para ambos os lados, pode ser de grande benefício para ambas as partes, especialmente em cidades como Zurique ou Londres, onde as empresas precisam de grandes instalações, que são muito caras. O potencial de economia é, portanto, enorme.
  • O sistema híbrido, que alterna entre estar no escritório e trabalhar em casa. Para que ele funcione, é importante entender por que o escritório é importante – trocas informais entre colegas, comparação profissional, desenvolvimento da criatividade, etc. – e em que situações o trabalho remoto é preferível, tais como reuniões que duram muito tempo se forem presenciais, ou momentos em que o funcionário precisa de autonomia e independência.

Economizar impostos trabalhando no exterior

Com o grande crescimento do teletrabalho, alguns países logo se organizaram a fim de atrair pessoas para se estabelecerem e pagarem impostos enquanto trabalham para empresas de outros países.

É o caso da Itália, por exemplo, que desde 2020 aumentou de 50 para 70% a porcentagem de renda livre de impostos dos “trabalhadores à distância” que se estabelecerem, pelo menos fiscalmente, na península. Em cinco anos, esse número pode chegar até 90% para aqueles que optarem por se estabelecer em uma região do sul do país ou nas ilhas.

A Grécia não ficou para trás, tendo anunciado que os impostos serão cortados pela metade para aqueles que se mudarem para lá em 2021. Essa medida visa principalmente trazer de volta alguns dos 800.000 gregos que deixaram o país durante a década de grave crise (2009-2019).

A Espanha adotou uma abordagem um pouco diferente, mas que também vai essencialmente na mesma direção, ou seja, atrair residentes. O país introduziu um “visto de residência sem fins lucrativos” para não europeus, que assim podem residir na Espanha sem se envolverem em atividades remuneradas.

Além das margens do Mediterrâneo, a Costa Rica emite facilmente vistos para aqueles que podem provar uma renda de pelo menos US$ 2.500 por mês, desde que não estejam empregados no país. Da mesma forma, tanto Antígua e Barbuda como Barbados concedem autorizações de residência para aqueles com uma renda anual de pelo menos US$ 50.000.

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“O problema é que o mundo do trabalho não é um mundo democrático”, destaca Pons-Vignon. “Na maioria das vezes, quando há grandes mudanças, são os empregadores que decidem. Também são eles que influenciam possíveis mudanças na legislação”. E, novamente, há muitos aspectos a serem considerados: o tipo de trabalho, mas também o tipo de trabalhador, o diálogo entre colegas e com os gerentes, e se os empregadores estão ou não realmente ouvindo as necessidades de sua empresa e de seus empregados.

Previsões e estudos, portanto, veem um futuro possível para esse tipo de trabalho “flexível”. Já está em curso uma certa revolução na forma como todos concebem seu trabalho. Porém, levará tempo para que se possa tirar conclusões.

Adaptação: Clarice Dominguez

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