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O bilionário mora ao lado O homem mais rico do Brasil mora na Suíça



Para Jorge Paulo Lemann, conhecido por sua simplicidade, toda essa história de listas tem pouco significado.

Para Jorge Paulo Lemann, conhecido por sua simplicidade, toda essa história de listas tem pouco significado.

A jornalista brasileira Cristiane Correa, autora de “Sonho Grande”, conta a trajetória de empreendedorismo e fala sobre estilo de vida do suíço-brasileiro Jorge Paulo Lemann, o terceiro homem mais rico da Confederação Helvética.

Ano após ano ele vem avançando rumo ao topo da lista dos homens mais ricos do mundo. Na Suíça, onde fixou residência há alguns anos, o investidor e empresário Jorge Paulo Lemann, 74 anos, já ocupa o terceiro lugar entre os mais abastados do país, atrás apenas da Família Kamprad, da rede Ikea, e da Família Hoffmann e Oeri, da farmacêutica Roche, de acordo com a revista Bilanz 2013.

No Brasil, onde nasceu e morou até 1999, Jorge Paulo Lemann lidera o ranking atualmente publicado pela Bloomberg. Na lista mundial dos bilionários, ocupa a 35a posição. Apesar dos dados impressionantes, para Jorge Paulo Lemann, um sujeito conhecido por sua simplicidade, pé no chão e foco, toda essa história de listas tem pouco significado. "Quando Sam Walton  (fundador do Walmart) aparecia nas listas das pessoas mais ricas do mundo, a gente perguntava o que ele achava e ele respondia que as listas não mudavam nada, porque era tudo papel. Ele achava que as coisas realmente importantes eram outras. Eu acho a mesma coisa", disse o empresário certa vez.

Para entender o que está por trás da trajetória bem sucedida de empreendedorismo, a jornalista brasileira Cristiane Correa mergulhou no mundo de Jorge Paulo Lemann e seus parceiros de sempre. E escreveu "Sonho Grande. Como Marcel Telles, Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira revolucionaram o capitalismo brasileiro e conquistaram o mundo.”

A seguir, Cristiane conta o que está por trás do enriquecimento estrondoso de Jorge Paulo Lemann, seu estilo de gestão empresarial e de vida, as conquistas e as desventuras.

swissinfo.ch: Depois de tanta apuração, como você define o homem de negócios Jorge Paulo Lemann?

Cristiane Correa:Foco, disciplina e pensamento de longo prazo são algumas das características marcantes de Jorge Paulo Lemann. Além disso, ele sabe se cercar de gente boa, dos melhores profissionais do mercado.

swissinfo.ch: Qual a é fórmula que fez com que Jorge Paulo Lemann e seus parceiros revolucionarem o capitalismo brasileiros e conquistarem o mundo?

C.C.: Jorge Paulo e seus sócios trouxeram o conceito de meritocracia para o Brasil. Na época (década de 80) era uma ideia absolutamente nova no país. A mensagem ao funcionários era e continua a ser bem clara: trabalhe muito, bata suas metas, traga resultados, que assim você poderá ficar rico, tornar-se sócio das empresas.

swissinfo.ch: Essa cultura meio workaholic, de pouco equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, não vai contra tudo o que as empresas estão buscando atualmente? Ou mesmo contra os valores e perfil das novas gerações?

C.C.: Essa é uma discussão crescente. O que eles fazem, neste caso, é usar um processo de seleção muito focado, buscando gente que tem total aderência ao valores que defendem. No caso da Brahma, por exemplo, o próprio Marcel Telles, um dos sócios, participa da fase final de seleção. Atualmente, o programa de trainee da Ambev (que tem a marca Brahma, entre outras), por exemplo, é um dos mais disputados do Brasil. São 80 mil candidatos para 20 e poucos vagas.

(swissinfo.ch)

swissinfo.ch: Qual o peso da descendência suíça na personalidade e estilo de vida de Jorge Paulo Lemann?

C.C.: Isso aparece um pouco na questão da origem protestante, em que ter sucesso não é um pecado. Ele leva também uma vida mais simples, sem aquela necessidade de status. Dizem que na Suíça, ele pega trem. Os filhos iam de bicicleta para escola. Não precisa de todo aquele aparato para viver. Tem também essa mentalidade do trabalho, da disciplina e de que não há o famoso jeitinho para resolver as coisas. É mais planejar e executar. Menos improviso, mais controle.

swissinfo.ch: No livro você menciona um episódio importante que fez com que Jorge Paulo deixasse de um dia para o outro o Brasil. Você pode explicar o que ocorreu?

C.C.: Houve uma tentativa de sequestro dos filhos quando iam para escola. Isso ocorreu no final dos anos 90 em São Paulo. Uma tentativa, ainda bem, mal sucedida. O motorista que levava seus filhos à escola conseguiu se livrar dos criminais evitando o pior. No dia seguinte ao episódio, Jorge Paulo já tinha tirado a família do Brasil. E acabaram indo morar na Suíça. A tentativa de sequestro ocorreu com os filhos dos segundo casamento dele com Susanna, natural de Zurique. Os filhos do primeiro casamento já eram mais velhos e continuam a morar no Brasil.

swissinfo.ch: O primeiro grande sucesso de Jorge Paulo e seus parceiros foi a criação do Banco Garantia, que depois foi vendido para o Credit Suisse. Por que tiveram que se desfazer de um negócio que foi, pelo menos por vários anos, um sucesso e uma referência para o mercado brasileiro?

C.C.: A grande força de Jorge Paulo e seus sócios é a cultura que criaram da simplicidade e meritocracia. Essa cultura permite que tenham negócios tão diferentes, como uma cervejaria (AB Inbev), uma varejista (Lojas Americanas), um banco de investimento e essas empresas que compraram mais recentemente, como a rede de fast food Burger King e a empresa de alimentos H. J. Heinz.  

O que aconteceu no Garantia é que esse modelo de gestão ficou enfraquecido. Em 1994 o Banco teve um lucro recorde de US$ 1 bilhão. Até então o que se fazia quando o Banco tinha muito dinheiro em caixa era distribuir uma parte ao time e depois investir o resto. Foi por isso que compraram as Lojas Americanas, a Brahma etc. Mas naquele ano resolveram distribuir tudo ao time. Distribuíram em dinheiro e de uma vez.

O pessoal ficou rico da noite para o dia. Ficou, então, difícil fazer as pessoas pensarem no longo prazo quando já estavam ricos. Além disso, como o Banco vinha construindo uma história de sucesso, o time começou a se achar invencível. Operações cada vez mais arriscadas foram realizadas. Quando ocorreu a crise na ´Asia em 1997, como tinham algumas operações estavam super alavancadas,  foram pegos em cheio.

O Garantia não chegou a quebrar, mas perdeu muito a credibilidade. O Jorge Paulo até tentou passar o comando para a geração mais nova, para que tentassem recomeçar a operar. Mas ninguém quis. A saída foi vender para o Credit Suisse, que seguiu tocando a operação.

swissinfo.ch: Qual a importância do trio Jorge Paulo, Marcel Telles e Beto Sicupira, ou seja, do fato de sempre liderarem projetos em grupo?

C.C.: A sociedade deles é uma grande fortaleza. Cada um dos três, se tivesse tentado seguir sozinho, teria sucesso, porque são pessoas fora da curva. Mas essa combinação é poderosa. E haver uma sociedade há quarenta anos, sem ter brigas públicas, mesmo quando dá confusão, é algo especial. Há confiança total entre os três. Eles delimitam o papel de cada um e dão autonomia na tomada de decisões.

swissinfo.ch: Talvez a maior tacada do trio tenha sido a compra da Anheuser-Busch pela Inbev, criando a maior cervejaria do mundo. Você concorda?

C.C.: Foi o maior negócio em termos de valor. Foi um negócio que os projetou globalmente. Porque até então haviam se associado à belga Interbrew, mas ninguém sabia direito quem era aquela empresa. Já a Budweiser é um ícone americano.  Compraram a empresa no meio da crise de 2008 e, é claro, havia uma dúvida no ar se os brasileiros iriam conseguir encarar o negócio.

swissinfo.ch: Como foi o encontro do bilionário e investidor norte-americano Warren Buffett com Jorge Paulo e a parceria para comprar a H.J. Heinz Company?

C.C.: Jorge Paulo conhecia Warren Buffett há algum tempo, já que eles faziam parte do conselho de administração da Gillette. Foram se aproximando, construindo uma amizade. Eles têm valores parecidos, da simplicidade, do pensar no longo prazo. Gostam de construir coisas grandes, de se cercar de gente boa. Além disso, Buffett era investidor da Anheuser-Busch (AB) antes da compra pelos brasileiros. Ele viu o antes e o depois da nova gestão. Foi então que apareceu a oportunidade certa e a compra da Heinz foi anunciada no início de 2013.

swissinfo.ch: Havia, pelo menos, no Garantia um pacto de que os filhos dos sócios não poderiam trabalhar nos negócios da família. Isso ainda ocorre com a AB Inbev e as outras empresas? Qual a participação dos filhos dos sócios nos negócios?

C.C.: O futuro tem duas frentes: uma dos filhos como acionistas e a outra é a perpetuação desta cultura. Há dez anos, os filhos dos sócios participam de um programa formal de treinamento de formação de herdeiros. Eles entendem que os filhos serão acionistas e nunca executivos das empresas. A grande preocupação dos pais é que os filhos compreendam que a força está nas famílias ficarem em bloco. Assim não perdem o controle. Do outro lado, está a perpetuação da cultura. Hoje, há uma geração de executivos liderando as companhias que está totalmente alinhada. Mas manter isso nas gerações seguintes, quando os fundadores já não estiverem mais por perto, será, sim, um desafio.

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