Opinião
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Onde estavam os robôs? 

Onde estavam os robôs durante a crise da Covid-19?

Este conteúdo foi publicado em 22. julho 2020 - 09:00
J. Jesse Ramírez

Ao longo da últimos dez anos, ouvimos rumores de que uma nova geração de tecnologias automatizadas teria aprendido a fazer nosso trabalho. Se estas profecias tecnológicas fossem verdadeiras, robôs e algoritmos deveriam estar prontos para intervir durante as quarentenas e, finalmente, provar que podem trabalhar de forma mais segura, barata e eficiente do que nós. Mas quando o Covid-19 deu à automação a chance de mostrar serviço, foram as pessoas que se tornaram o centro das atenções.

Os robôs não estão equipando hospitais, estocando prateleiras em mercearias, cozinhando e servindo refeições, desinfetando banheiros, entregando pacotes, dirigindo ônibus ou educando estudantes. Enquanto as quarentenas vão sendo gradualmente encerradas, devemos nos lembrar que a crise de hoje não é uma questão de automação. Trata-se de como valorizamos e protegemos as pessoas cujo trabalho sustenta o mundo. 

Desde a Grande Depressão dos anos 1930, quando o desemprego causado pela tecnologia se consolidou como uma preocupação social generalizada nos EUA, muitos americanos têm se perguntado se as máquinas fariam com que os trabalhadores fossem despedidos. Embora o debate sobre automação seja silencioso durante as guerras e os booms econômicos, ele está sempre pronto para ressurgir durante a próxima crise. A fase mais recente deste debate começou após o colapso financeiro de 2008, quando futuristas empresariais afirmaram que os avanços na robótica, inteligência artificial e processamento de dados em grande escala teriam sido os responsáveis pelo fraco crescimento na taxa de emprego durante a fase de recuperação econômica. Em um estudo amplamente citado de 2013, dois pesquisadores de Oxford concluíram que 47% do emprego total nos EUA, que está concentrado em serviços, transporte e vendas, estaria na mira dos robôs. Outros, incluindo o antigo candidato presidencial do Partido Democrata de 2020, Andrew Yang, defenderam a instauração de uma renda básica universal (UBI, na sigla em inglês) para compensar a inevitável perda de empregos. 

Desde então, Yang já reconheceu as limitações de sua análise: "Ao invés de falar de automação, deveria ter falado sobre uma pandemia". Yang e outros futurólogos da automação estavam quase certos, mas por razões muito equivocadas. O apocalipse dos empregos chegou; dezenas de milhões de americanos estão desempregados, e os cheques de estímulo e pagamentos suplementares de desemprego se assemelham vagamente ao UBI. Mas a automação não é a culpada. Do lado da oferta, o fechamento de postos de trabalho, as restrições de viagem, as quarentenas e o distanciamento social causaram um declínio nas horas de trabalho que se assemelha a uma greve geral forçada pelo Estado. Do lado da demanda, as quarentenas têm sido como um boicote em massa dos consumidores, o que deprime ainda mais as vendas e o emprego. 

Os profetas da tecnologia não conseguiram prever esta situação não apenas porque é difícil prever o futuro, mas porque estavam muito ocupados propalando a ficção científica empresarial. Quando confrontados com verdades inconvenientes, tais como uma maçaneta da porta que não consegue ser aberta pelos robôs mais avançados, ou carros que não conseguem reconhecer pedestres, os profetas da tecnologia nos disseram que os engenheiros já estavam superando os problemas. O ponto crucial de suas especulações era que mais automação é inevitável porque a inovação revolucionária é uma força imparável da natureza. É irônico que a natureza, sob a forma de um vírus, provou ser ainda mais revolucionária. O Covid-19 não estava no radar dos profetas da tecnologia porque, como muitos pensadores pró-negócios, eles estavam mais interessados na inventividade dos empresários e engenheiros do que nos cortes dos orçamentos dos departamentos de saúde e outras infraestruturas públicas que ajudam a combater as pandemias. Mais importante ainda, os profetas da tecnologia subestimaram as enfermeiras e paramédicos americanos, caixas de supermercado e motoristas de entrega, servidores de alimentos e trabalhadores de armazém, funcionários dos serviços postais e de limpeza.

Em um ensaio intrigante de 2013, “Sobre o fenômeno dos trabalhos estúpidos”, que desde então foi expandido em um livro, o antropólogo David Graeber propôs um experimento hipotético anti-automação. Imagine que um dia, as pessoas cujo trabalho beneficia mais claramente a sociedade simplesmente desaparecessem. "É óbvio que se elas desaparecessem como fumaça", observa Graeber, "os resultados seriam imediatos e catastróficos". De certa forma, o Covid-19 forçou os governos estaduais a realizar um experimento hipotético semelhante. Confrontados com a redução do trabalho que sustenta a vida, eles isentaram das quarentenas os trabalhadores de indústrias como saúde, transporte, agricultura, serviço de alimentação e saneamento. 

Isso foi exatamente o contrário das conclusões a que chegaram os profetas da tecnologia. Os trabalhadores que eles consideravam tecnologicamente supérfluos são nossos trabalhadores mais essenciais; a mão de obra que eles consideravam tão pouco qualificada que as máquinas poderiam substituir é, na verdade, insubstituível.

No entanto, embora a crise tenha sublinhado o valor desses trabalhadores para a sociedade, nos Estados Unidos, eles continuam mal remunerados e expostos. Muitos trabalham por salários mínimos, e a grande maioria não é sindicalizada. Arriscando suas vidas em locais de trabalho que fornecem equipamentos de proteção pessoal inadequados, eles estão testando positivo para o Covid-19 e morrendo. Eles são representativos de todos os americanos, mas são desproporcionalmente mulheres da classe trabalhadora e pessoas de cor.

Os profetas da tecnologia responderam à situação com um “rebranding”, ou seja, mudaram seu marketing. Esperando que tivéssemos esquecido suas previsões fracassadas, eles estão abandonando a ficção científica pela pura magia do raciocínio circular. Um recente artigo na seção de negócios do New York Times afirma que o distanciamento social está acelerando a automação. Em um notável truque de ilusionista, tecnologias que supostamente desencadeariam o desemprego em massa são agora as soluções deste último; a causa se tornou efeito. Se os futuristas empresariais não conseguem fazer seu determinismo tecnológico passar pela porta da frente da história, eles o farão pelas pela porta dos fundos enquanto reciclam todas as antigas alegações sobre a redundância dos trabalhadores. 

Mas a verdadeira redundância é a “hype” ou a moda da automação. À medida que reorganizamos a maneira como vivemos e trabalhamos, é hora de reconhecer os robôs pelo que eles realmente são: uma hipótese malfeita sobre qual trabalho importa e o qual pode desaparecer. Os robôs não nos salvarão nem nos destruirão, pois não podem aliviar nosso próprio trabalho de construir um mundo mais equitativo e justo. Naquele mundo, vamos remunerar, salvaguardar e respeitar as pessoas cujo trabalho torna a vida possível.  

J. Jesse Ramírez é professor assistente de Estudos Americanos e coordenador da área de tecnologias na Universidade de St. Gallen. Ele é o autor de “Against Automation Mythologies: Business Science Fiction and the Ruse of the Robots”, a ser publicado pela editora Routledge. 

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