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Economista critica discurso dos políticos suíços

Walter Wittmann. SP

Em seu último livro, o economista Walter Wittmann analisa as fórmulas prontas do discurso público na Suíça.

Este conteúdo foi publicado em 05. outubro 2006 - 12:25

Para o autor, essas palavras vazias freqüentemente tem o objetivo de impedir qualquer reforma do sistema. É o que ele afirma em entrevista a swissinfo.

O professor emérito Walter Wittmann não tem tempo de desfrutar sua aposentadoria em sua casa de Bad Ragaz, no Cantão dos Grisões, leste da Suíça.

Nos últimos anos, ele escreve quase um livro por ano e o próximo será publicado em fevereiro. "No inverno, preciso me ocupar", explica sorrindo esse incansável crítico das idéias simples e acabadas.

swissinfo: Como o sr. teve a idéia de criticar o discurso vazio da política suíça?

Walter Wittmann: O gota d'água foi quando ouvi o ministro das Finanças Hans-Rudolf Merz dizer: "Nós nos lamentamos por futilidades", wir jammern auf hohem Niveau, na versão original.

Eu respondo que 40% das pessoas na Suíça não têm dinheiro suficiente para pagar o seguro de saúde. Fala-se qualquer coisa sem ser colocado em questão. Não se pode repetir a mesma coisa durante cem anos sem questionar se continua sendo válido!

swissinfo: O sr. denuncia o imobilismo e fraco crescimento do país. Mas a Suíça não atravessa justamente um período de crescimento?

W.W.: O momento é inoportuno para falar de fraqueza ...! Há realmente uma retomada do crescimento devido fatores conjunturais mas não se trata de uma tendência. Todos os indicadores demonstram que essa retomada vai atingir o pico este ano.

Mas a fase atual permite a reprodução do reflexo de denegação: mesmo os espíritos mas analíticos não querem ver a fragilidade do sistema e têm viseiras quando falam da Suíça.

swissinfo: Por que?

W.W.: É como uma religião: crê-se na Suíça e no seu sistema político, que seria o melhor do mundo. E quando a gente crê, deixa de refletir. Quem quizer questionar passa por um herético. Portanto eu sou um herético. É por essa razão que não se faz qualquer reforma.

swissinfo: Mas tudo leva muito tempo na Suíça ...

W.W.: Sim "mais lento que em outro lugar" é mais uma dessas fórmulas prontas. Deveríamos questionar se um sistema que não permite qualquer reforma é um bom sistema! Mas esse passo, ninguém ousa. Esperamos até que ocorra uma falha para então aplicar o direito de urgência.

swissinfo: O sr. defende a volta do sistema majoritário?

W.W.: Defendo, como era antes de 1919. Isso permitiria a formação de maiorias que teriam um programa de coalisão. Aliás, um governo de coalisão seria possível sem mudar a Constituição.

Posteriomente - e sei que provoco muita gente ao dizer isso - essa coalisão deveria adotar pelo menos 300 mudanças legislativas de uma só vez para contornar o risco de referendo, porque então seria impossivel recolher assinaturas contra todas as modificações.

swissinfo: O sr. denuncia a falta de renovação nos cargos de responsabilidade na Economia. O sr. faz a mesma constatação na política?

W.W.: Evidentemente. Não vejo atualmente nenhuma personalidade forte capaz de impor uma mudança. Portanto a Suíça ainda tem potencial, mas o «filz», o sistema de relações, ainda impede o acesso de pessoas competentes, se elas não têm uma agenda com bons endereços. É a tal sociedade fechada! "A Suíça é uma sociedade liberal e livre", dizem. Livre para quem? Para os que estão no poder...

swissinfo: Mas se continua a funcionar, bem ou mal, não está bom?

W.W.: Ainda não estamos na fase final! Vai continual indo mal por bastante tempo! Ora, desde os anos 70, o país perde cada vez mais da substância que fez sua grandeza. Entre 1946 e 1973, o tecido econômico suíço angariou muita riqueza. Os outros países, logo depois da II Guerra, não podiam exportar. Foi que tiramos proveito da forte demanda.

Mas foram as "velhas indústrias" que progrediram como a mecânica tradicional, o têxtil etc. Durante esse período, os outros países desenvolveram novas tecnologias. Por isso a crise foi brutal na Suíça nos anos 70.

swissinfo: Ouve-se dizer que quando a pressão será grande, as mudanças virão...

W.W.: Eu não creio. Quando estamos em plena crise, por exemplo conjuntural, diz-se que não podemos nos dar ao luxo de reformar. E quando está melhor, nos congratulamos, "está vendo, estamos no bom caminho, não precisamos de reformas!"

Para mim, a Suíça é como um piloto de Fórmula 1 que quer concorrer com Schumacher dirigindo um carro velho dos anos 50, abastecido com uma gasolina de má qualidade ...

Entrevista swissinfo: Ariane Gigon Bormann

Breves

Palavras que impedem as reformas? É o que pretende o economista suíço Walter Wittmann. Ele faz uma lista das fórmulas típicas do discurso político suíço em seu último livro «Helvetische Schlagworte, politisch, markant, leer» (Orell Füssli Verlag, Zurique).

Ao reafirmar sempre os mesmos pressupostos - a Suíça é um país de inovação, a democracia direta é o melhor sistema político, o pragmatismo é a melhor solução, etc. - impede-se o questionamento e, portanto, qualquer reforma.

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Walter Wittmann

Nascido em 1935, Walter Wittmann foi professor de economia na Universidade de Fribourg de 1965 a 1998.

Fez várias pesquisas e publicou uma quinzena de livros, entre eles "Os mitos Helvéticos" e "Entre mercado e Estado - o caminho escarpado para a União Européia".

O economista, natural do Cantão dos Grisões (leste da Suíça) não se enquadra facilmente em etiquetas: pró-europeu convicto, defensor da economia de mercado mas não da economia de mercado livre "que permite os cartéis", afirma, ele ainda é adversário ferrenho da democracia direta no plano federal.

"O referendo e a dupla maioria (do povo e dos Cantões) são instrumentos de bloqueio", afirma. Wittmann é membro do Partido Radical (PRD), que não deixará apesar de suas decepções.

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