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Fé de migrantes As muitas igrejas de língua portuguesa na região de Basileia

A comunidade de língua portuguesa dispõe de uma generosa opção de igrejas e templos no noroeste da Suíça. Diversas instituições oferecem consolo espiritual para as famílias imigrantes na região de Basileia. A swissinfo.ch visitou os templos, participou dos encontros e conversou com pastores, líderes e fiéis para descobrir como é o mundo da fé lusófona.

Fiel cantando cantões durante o culto da Assembleia de Deus na Basileia

Música faz parte dos cultos da Assembléia de Deus na Basileia, dos quais muitos brasileiros participam.

(swissinfo.ch)

Um conhecido hit dos anos 90 de Joan Osborne ecoa na minha cabeça. O refrão da música pergunta em inglês: "E se Deus fosse um de nós? Somente uma pessoa comum assim como nós? Somente um estranho no ônibus tentando voltar para casa?" E é essa mesma dúvida que tento responder, enquanto observo imigrantes rezando com devoção. São mais de 5500 lusófonos residentes no noroeste da Suíça, 600 brasileiros e 3400 portugueses somente em Basileia-cidade. Muitos deles se encaixam na singela descrição do Deus da canção de Osborne. Onde esses nossos irmãos encontram conforto?    

É uma noite de sexta-feira e na igreja Deus é Amor o culto fala de Jeremias 30:8-11, uma passagem da Bíblia onde Deus promete retirar o povo israelita do cativeiro, mas somente após castigá-lo. Não por coincidência a história dos judeus, com o estigma de serem estrangeiros no Egito, guarda semelhanças com a dos imigrantes de hoje na Suíça. O presbítero Aginel comanda com vozeirão de radialista que os fiéis tenham fé, pois a vida é difícil, mas vai melhorar.

Entre os presentes está D* um angolano, que sofreu atrofia em uma das pernas. Há mais de 16 anos na Suíça, ele traz estampado no rosto a saudade da África. "Deus me libertou de pensamentos suicidas. Eu queria morrer, pois não tinha amigos. Mas fui salvo. Hoje essa é a minha família", me conta. Para D., a certeza de um abrigo espiritual já é a materialização da felicidade.   

Música para Deus

Seguindo uma batida mais agitada, a noite de sábado oferece aos fiéis jovens uma opção gospel. "O nosso trabalho aqui é voltado para o louvor", explica o pastor Nivaldo Resende. Líder na igreja Encontro com Deus (Assembleia de Deus), em Birsfelden, o paulista canta, toca guitarra e baixo, acompanhado por talentosas vocalistas. A atmosfera é contagiante como num concerto de rock. O altar é um palco com luzes à frente da uma grande cruz de madeira. 

O sermão baseia-se em 2 Timóteo 3:16: "toda escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça" e o trabalho é realmente focado na instrução da juventude. Após o culto há um fraterno jantar e durante a refeição ouço a história de M*. brasileira de 16 anos, que se converteu do budismo ao cristianismo há um ano. Ela conta que Jesus a salvou da rebeldia e das drogas. Agora ela repensa até a sua sexualidade. "Eu estava à procura do amor e eu encontrei o verdadeiro amor Nele", diz com olhos brilhantes.

Fé prática  

Apesar do Espírito Santo ser onipresente, seguimos buscando-o por Basileia. Nossa próxima parada: Igreja Batista Brasileira. A congregação abre suas portas nas noites de domingo. Fundada no começo dos anos 2000 por um jogador de futebol, a igreja tem cultos baseados na interpretação prática da Bíblia. No prelado de hoje, o pastor Ricardo Arakaki aborda a inveja e convida os fiéis a admitir o pecado para superá-lo. 

"…Os meus pés quase que se desviaram; faltou pouco para que escorregassem os meus passos, pois eu tinha inveja dos soberbos, ao ver a prosperidade dos ímpios", lê de Salmos 72:1. Pastor Ricardo explica que a solução é a oração privada. A chave está no encontro sincero e humilde com Deus, pela confissão do erro. Famílias como a de Edgar Mourão e Larissa Carlin sentem-se em casa. "Aqui á a extensão do lar da gente. Compartilhamos alegrias e tristezas com a comunidade". 

O culto da prosperidade

Há ainda outras formas de se viver a fé cristã. Desafiar Deus no dízimo é uma delas e a Igreja Universal do Reino de Deus é a mais conhecidas por pregar essa abordagem da teologia da prosperidade. 

O pastor Filipe Santos é português da região de Madeira. Recém-chegado da Venezuela, ele já serviu em diversos países tendo entrado na Universal aos nove anos. A decisão de viver a fé como profissão veio ainda na adolescência, após perceber que a proximidade com Deus silenciava as vozes estranhas e vultos que o perseguiam na mente. 

"Nosso objetivo é dar aos fiéis um bocadinho de paz. Essa paz que só se encontra em Cristo e que tantos desejam" explica. Com os olhos faiscando ele prega resoluto as bênçãos de abundância. "Eu te consagro como dizimista da Casa do Senhor" diz, impondo a mão sobre a cabeça dos seguidores.

R* é uma amazonense casada com um suíço e próspera dona de um restaurante. Ela superou o trauma da marginalização e suicídio. "Ninguém fez por mim o que os pastores daqui fizeram. A oração é poderosa. Teve dia em que rezaram comigo da manhã até à noite", elogia.      

A igreja pioneira

No evangelho de João 21:15, Jesus ordena ao apóstolo Simão Pedro que cuide das suas ovelhas, dando início assim ao movimento que originaria a igreja Católica Romana. A instituição pioneira continua sendo também a que mais atrai féis portugueses. Numa noite de sábado, na paróquia de São José, os bancos estão lotados. Todos querem ouvir à pregação do padre paranaense Marquiano Petez. É dia de primeira comunhão e calculo em pelo menos 100 o número de crianças presentes. 

Fiéis da Igreja Batista Brasileira em Basel durante o seu culto aos domingos na Basileia.

Fiéis da Igreja Batista Brasileira em Basel durante o seu culto aos domingos na Basileia.

(cortesia da IBBB)

O diácono fluminense José de Souza se apresenta à comunidade. Ele veio reforçar a equipe de língua portuguesa. "O encontro com Deus na língua materna se dá com mais proximidade", explica para ilustrar a importância da sua missão. 

A portuense Julieta Moreira da Cruz coordena a equipe de onze professoras de catequese. "Neste momento já não temos mais salas com capacidade de receber tantas crianças", constata. "Sinto que nossa comunidade está a crescer, não só em números, mas também em atividades", comemora. "Já temos mais de 400 fiéis", diz o Padre Petez, com o orgulho de quem vive o milagre da multiplicação de ovelhas. 

A vida após a morte

Se ainda assim, o imigrante lusófono não se identifica com as diferentes denominações do cristianismo, há a alternativa do espiritismo. A religião acredita na vida após a morte e promove o contato com os espíritos por meio de intercessões mediúnicas. Dilma Hambrock diz que o centro de Basileia surgiu em 1998, quando ela começou a estudar as obras de Allan Kardec com a irmã, que já frequentava um espaço semelhante em Zurique.

Elas alugaram uma sala e começaram a promover encontros recorrentes. O aumento da popularidade veio com a visita do renomado médium Divaldo Franco em 2007. Atualmente o grupo se reúne às segundas e quintas para palestras e sessões de passe no Núcleo Espírita a Caminho da Luz. "É fundamental o apoio espiritual porque é no espiritismo que se encontram as respostas" diz Dilma. 

Concluído esse tour da fé, eu ainda não consigo responder "como seria se Deus fosse um de nós", mas fico reconfortada em constatar que há tantos lugares de fé de língua portuguesa na Suíça, que mesmo no estrangeiro é possível sentir-se acolhida e viver uma experiência de proximidade com Deus, "como se ele fosse um de nós".

Suíços e a fé

Em abril de 2016 foram publicados os resultadosLink externo do primeiro censo de idiomas, religião e cultura da Suíça.

Segundo as pesquisas, ele mostrou que cada segundo habitante do país acredita em apenas um Deus e, uma pessoa em quatro, em um poder superior. Mais de 20% da população declarou não ter uma religião, mas apenas 12% afirmaram ser ateístas. 

Apesar da taxa de visitação dos centros religiosos ter caído, a maioria dos entrevistados (71%) com mais de 15 anos declarou visitar no máximo cinco vezes por ano um centro religioso para participar de algum culto. 87% dessas pessoas afirmaram ter participado de um culto por questões sociais como, por exemplo, um casamento ou enterro. 

Entre os muçulmanos, 12% visitam um culto pelo menos uma vez por semana, assim como os católicos (14%). Entre os protestantes esse número era menor: 7%. 

Dos muçulmanos, 46% dos entrevistados não participaram de um culto nos últimos dozes meses antes da realização da pesquisa.

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