Os suíços deveriam parar de reciclar o lixo?

Cena comum na Suíça: uma pessoa colocando garrafa no contâiner para vidros em um bairro de Zurique. © Keystone / Gaetan Bally

A Suíça é conhecida pelo sistema de reciclagem baseada em triagem feita pelos próprios usuários. No entanto, uma análise instigante recentemente publicada sugere que empresários e máquinas deveriam assumir essa tarefa.

Este conteúdo foi publicado em 12. julho 2020 - 09:15

A Suíça fechou seus aterros sanitários em 2000 e, desde 2005, cada vez mais lixo doméstico tem ido parar em lixeiras de reciclagem, e não em incineradores. Isto se deve a vários fatores, incluindo a maior conscientização, a melhor infraestrutura e a introdução de taxas para o descarte do lixo.

Mas será que isso é bom o suficiente? Em um artigo recente*, o grupo de reflexão Avenir Suisse indica um potencial para o aumento da proporção de recicláveis coletados.

"Apesar das inúmeras campanhas de informação, quase metade de um saco de lixo médio consiste essencialmente de material reciclável. Segundo estimativas, cerca de um quinto de um saco poderia ser reciclado economicamente", estimam os autores do Avenir Suisse, Patrick Dümmler, Fabian Schnell e Mario Bonato.

Isso sugere que muitas pessoas na Suíça não estão dispostas ou não são capazes de classificar seu lixo de forma adequada. Os autores questionam se faz sentido os consumidores levarem suas garrafas, latas e outros materiais para os depósitos centrais de reciclagem, que é como é feito na maioria das cidades do país. Será que a reciclagem em um único fluxo, ou seja, um método em que todos os recicláveis vão para o mesmo depósito para posterior separação, pode ser uma solução?

700 quilos por pessoa

Nas últimas cinco décadas, o volume de lixo doméstico suíço mais do que dobrou chegando a mais de 700 kg por pessoa por ano. Ao mesmo tempo, as pessoas na Suíça estão reciclando sete vezes mais lixo do que há 50 anos.

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O estudo do grupo Avenir Suisse argumenta que além de evitar que   recursos recicláveis terminem no incinerador, o método de coleta unificada chamado “single-stream” também economizaria tempo e dinheiro.

"Se você estimasse o tempo gasto pelos consumidores separando os resíduos com base em um salário por hora de CHF 25 (US$ 26), o single-stream representaria uma economia de reciclagem de cerca de CHF 2,3 bilhões em comparação com o sistema atual", calcula Avenir Suisse, deduzindo CHF 0,3 bilhões para investimentos adicionais e custos operacionais.

Base legal

A Lei suíça de Resíduos exige que estes sejam reciclados ou recuperados para energia desde que a incineração cause menos danos ao meio ambiente do que qualquer outra forma de eliminação, como a fabricação de novos produtos, ou a geração de outros combustíveis para aquecimento. A lei também exige que os incineradores sejam de última geração.

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Mas isso é apenas uma economia hipotética, contra-argumenta o ministério suíço do Meio-Ambiente (BAFU, na sigla em alemão).

"Claro, não é tempo produtivo, mas temos uma taxa de participação muito boa e custos relativamente baixos. É um sistema muito estável", diz Michael Hügi, subchefe da seção de resíduos municipais da BAFU. "Para um país pequeno como a Suíça, o single-stream não seria adequado". A instalação de usinas de triagem em adição aos sistemas de coleta existentes, que têm de ser mantidos para algumas frações de resíduos, acabaria causando custos extremamente altos".

No entanto, graças aos robôs, há potencial para mais automação. Como aponta Avenir Suisse, a mais moderna instalação de reciclagem da Suíça, a Sortera, abriu em Genebra no final do ano passado. Sua especialidade é a separação de resíduos de empresas e canteiros de obras não tratando, atualmente, resíduos domésticos.

Papel molhado, vidro quebrado

Single-stream pode ser problemático, independentemente de humanos ou máquinas estarem fazendo a triagem. "Um ponto importante é o risco de contaminação mútua, que influencia a pureza dos bens coletados. A qualidade do material para reciclagem é crucial", diz Hügi, citando as garrafas PET para bebidas como exemplo. Para transformá-las em novas garrafas de bebida (R-PET), elas não podem ser misturadas a outros itens, nem mesmo a caixas PET para frutas, por exemplo.

O Avenir Suisse também reconhece o perigo potencial de contaminação.

"O papel perde qualidade de reciclagem por causa da umidade e de matéria estranha. Portanto, poderia fazer sentido manter coletas separadas para papel e papelão. O mesmo se aplica ao vidro. Se coletado em um sistema de fluxo único, cerca de 40% dele é inutilizável para uso posterior. Há demasiados cacos de vidro".

Sacos coloridos

No entanto, o vidro é uma das muitas coisas aceitas por um serviço de reciclagem suíço chamado Mr. Green. Nos últimos dez anos, ele tem coletado sacos de materiais recicláveis mistos de residências e empresas. Hoje, o negócio tem 10 mil clientes em várias cidades suíças.

"É um nicho. Temos clientes que estão felizes em pagar para reciclar mais itens, incluindo rolhas, caixas de bebidas e plásticos diversos", diz Valentin Fisler, um dos fundadores do Mr. Green.

Os preços começam em 17,90 francos para uma coleta mensal de três sacolas de 35 litros de reciclagem mista. Fisler diz que os materiais chegam enxaguados e prontos para a triagem pelos funcionários, muitos dos quais portadores de deficiências. Ele diz que funciona bem porque os clientes são ambiental e socialmente mais conscientes do que o público em geral.

"Eles não querem apenas se livrar de coisas o mais barato possível". Não sei se [o single-stream] funcionaria para todos, especialmente se fosse de graça", diz Fisler.

Quem paga é o poluidor

Em um programa piloto, a cidade de Berna começou a coletar uma gama mais ampla de itens recicláveis deixados nos passeios, e a cobrar pelos sacos. O esquema funciona assim: os moradores separam os recicláveis em sacos codificados por cores que são coletados junto com o lixo geral e o orgânico. Ao contrário dos depósitos municipais de reciclagem, os coletores de lixo deste sistema têm rodinhas, estão abertos 24 horas por dia, sete dias por semana, mas tanto os coletores como seus sacos requerem espaço de armazenamento em casa.

Em seu site, a cidade de Berna saúda a popularidade dos pontos de coleta de lixo do bairro, mas diz que estes "atingiram seus limites em termos de capacidade" e precisam ser esvaziados e arrumados até três vezes ao dia.

O single-stream é um "no-go" para Berna, explica um trabalhador da cidade no FAQ (questões frequentes) sobre o novo sistema: "O esforço para separar tudo de dentro de um saco depois é alto e insustentável". Além disso, não corresponde à ideologia da reciclagem". Durante décadas, as pessoas na Suíça foram treinadas para separar o lixo. É imprudente fingir que jogar tudo junto é a melhor alternativa".

Migros, a maior rede de supermercados suíça, introduz a partir de junho um sistema de coleta de plásticos. A empresa venderá sacolas para os clientes coletarem plásticos mistos e devolverem em suas filiais. swissinfo.ch

Para a Suíça, parece que pagar para reciclar é mais provável do que a adoção generalizada de sistemas de fluxo único.

"Em teoria, pode ser que tenhamos que pagar para reciclar tudo baseado na quantidade, porque é lixo, e custa dinheiro para nos livrarmos dele. O financiamento atual da eliminação de resíduos na Suíça impõe custos mais altos para a incineração do que para a reciclagem, portanto há um incentivo para o consumidor reciclar", diz Hügi, da BAFU.

Enquanto isso, ele diz que a qualidade do que é reciclado na Suíça é muito boa, assim como as taxas de reciclagem. "As pessoas estão preparadas para fazer o trabalho e talvez para ir ao depósito de reciclagem".

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Fluxo único

Popular em partes dos EUA e Canadá, o single-stream é valorizado por incentivar mais pessoas a separar os recicláveis do lixo doméstico destinado ao aterro sanitário. No entanto, alguns municípios acabaram recentemente com o sistema por causa do “downcycling” (qualidade de reciclagem reduzida) e "wishcycling" (reciclagem baseada na esperança), que é quando as pessoas jogam qualquer coisa velha no lixo e esperam que seja de alguma maneira reciclada. A decisão de 2018 da China de parar de importar resíduos estrangeiros foi outra razão, pois significou um mercado reduzido para os resíduos plásticos em particular.

A capital escocesa, Edimburgo, tem um sistema dual-stream (fluxo duplo) para recicláveis. Os moradores usam um único lixão para papel, papelão e plásticos limpos, assim como latas. A segunda lixeira é para vidro, pequenos itens elétricos e baterias (em sacos plásticos transparentes) e têxteis ou sapatos (também em sacos plásticos).

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* Avenir Suisse, "Reciclagem: Definindo metas ao invés de métodos" (em alemão)

Grandes produtores de lixo

Cada pessoa que vive na Suíça joga fora, em média, mais de 700 kg de lixo por ano; muito mais do que a maioria das pessoas no mundo. Entretanto, os suíços reciclam mais da metade desse total.

Residentes na Suíça produzem o dobro do lixo produzido por pessoas na República Tcheca, Japão, Polônia e Costa Rica. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o cidadão médio da OCDE jogou fora 525kg de lixo em 2018. Nessa comparação, apenas os neozelandeses (781 kg), dinamarqueses (771 kg) e noruegueses (736 kg) encheram mais lixeiras do que os suíços (705 kg). * A Colômbia, a última da lista de países comparados, registrou uma média de resíduos per capita de 240 kg.

Com uma pequena superfície e montanhas de lixo para lidar, não é surpreendente que a Suíça tenha grandes sistemas de reciclagem. Nos últimos 50 anos, o volume de lixo doméstico suíço mais do que dobrou. Ao mesmo tempo, a quantidade de lixo doméstico separado e coletado para reciclagem aumentou mais de sete vezes, chegando a 52% em 2018. A Suíça deixou de enterrar lixo em aterros em 2000, o que significa que o que não é reciclado é incinerado para gerar energia.

Na década de 1990, os cantões suíços começaram a cobrar dos moradores pelo lixo. Embora isso tenha incentivado as pessoas a economizarem dinheiro separando o lixo, há sempre indivíduos que tentam economizar ainda mais jogando o lixo doméstico em lixeiras públicas, ou despejando-o na natureza ou até mesmo através da fronteira. O cantão do Ticino, que faz fronteira com a Itália, esperou até 2017 para introduzir um imposto sobre o lixo, e Genebra, que é quase um enclave na França, não tem planos para isso.

Geralmente não há cobrança de taxas para reciclagem através de instalações públicas. A maioria dos municípios possui pontos de coleta de garrafas de plástico e vidro, latas de alimentos e bebidas, papel e papelão. Outros municípios oferecem serviço de coleta de determinados itens, incluindo resíduos orgânicos, em determinados dias. Supermercados normalmente aceitam garrafas plásticas de bebidas e de produtos de limpeza, assim como baterias, filtros de água e lâmpadas. Não é difícil encontrar estações ferroviárias com coletas para papel, garrafas plásticas PET e latas de bebidas. Algumas lojas coletam caixas de bebidas, e qualquer loja de eletrônicos receberá o lixo eletrônico para reciclagem. As instituições de caridade coletam roupas e calçados velhos, mas ainda usáveis, passando os têxteis mais velhos para a indústria de isolantes.

Qualquer que seja o sistema, a participação pública nos sistemas de reciclagem suíços é geralmente bastante boa. Deve-se fazer, no entanto, uma distinção entre as taxas de coleta e as taxas reais de reciclagem ou recuperação. Por exemplo, em 2019, as pessoas na Suíça destinaram 82% de seu papel e papelão para reciclagem, mas apenas 68% foram realmente convertidos em novos produtos de papel, segundo a Associação para a Reciclagem de Papel e Papelão.

Para as embalagens de bebidas as taxas de recuperação são mais altas, em parte porque as autoridades federais poderiam impor um depósito em latas e garrafas se a taxa caísse abaixo de 75%. Em 2018, os consumidores suíços reciclaram 94% de suas latas e garrafas de vidro e 82% de suas garrafas de plástico PET que um grupo de empresas engarrafadoras de bebidas na Suíça está convertendo em novas garrafas com o rótulo R(ecycled)-PET.

* No estudo da OCDE de 2018, não havia dados para os Estados Unidos; em 2017, a taxa era de 743 kg per capita.

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