Empresa suíça investigada por espionagem

O governo suíço abriu uma investigação por espionagem. Durante décadas, a CIA e o serviço secreto alemão BND interceptaram milhares de documentos de mais de cem países através da empresa Crypto.

Este conteúdo foi publicado em 12. fevereiro 2020 - 12:38
Rádio e Televisão da Suíça (SRF), swissinfo.ch
A sede da Crypto AG em Zug. Parte das atividades da empresa e seu nome foram adquiridos em 2018 por um grupo sueco, a Crypto International. A empresa sueca afirma em seu website que é uma entidade completamente diferente da Crypto AG e que nunca teve nenhuma conexão com a CIA ou o BND Keystone / Urs Flueeler

O governo suíço ordenou a investigação no dia 15 de janeiro, declarou o Ministério da Defesa na terça-feira, confirmando as informações do telejornal Rundschau, da televisão pública suíça SRF.

A investigação foi confiada ao juiz federal aposentado Niklaus Oberholzer, que deverá apresenta um primeiro relatório ao Ministério da Defesa até ao final de junho.

Escutas que marcaram a política mundial

Um dossiê secreto de 280 páginas da CIA e do BND mostra que durante décadas esses serviços secretos espionaram vários países utilizando dispositivos de encriptação manipulados da Crypto AG. A empresa de Zug, que fazia negócios a partir da neutra Suíça, era na verdade propriedade da CIA e do BND.

Graças a mensagens supostamente encriptadas de diferentes países e interceptadas pelos serviços secretos, as duas potências influenciaram a política mundial. Assim mostram os seguintes exemplos de quatro acontecimentos históricos.

Camp David: setembro de 1978

Dez anos após a Guerra dos Seis Dias, na qual Egito, Síria e Jordânia sofreram uma grave derrota nas mãos de Israel e perderam territórios, o então presidente dos EUA Jimmy Carter lança uma iniciativa para o Oriente Médio. A sua intenção é finalmente selar a paz entre Israel e o Egito. Os dois países estão envolvidos em confrontos e reina uma grande desconfiança.

Carter convida o presidente egípcio Anwar al Sadat e o primeiro-ministro israelense Menachem a se encontrarem em Camp David - o lugar de repouso presidencial no estado de Maryland. Lá eles inicialmente negociam em sigilo. De fato, após doze dias de negociações, eles apresentam um plano para normalizar as relações entre Israel e o Egito e restaurar a calma no Oriente Médio.

Da esquerda para a direita: Sadat, Carter, Begin assinam o acordo de paz de Camp David entre o Egito e Israel em março de 1979 Keystone / Str

Graças aos documentos da CIA disponibilizados à mídia internacional, sabe-se que os egípcios foram escutados durante as negociações - com a ajuda de dispositivos de criptografia manipulados pela Crypto AG. "Isso significa que enquanto Jimmy Carter jogava pôquer ele podia ver todas as cartas", diz o especialista em serviços secretos Richard Aldrich.

De fato, o presidente americano aproxima mais do que nunca a tão esperada paz no Médio Oriente e se ergue como um herói. "Qual foi o valor de poder ler a correspondência diplomática do Egito durante as negociações de Camp David em 1979? A questão está registrada nos documentos da CIA. "A resposta correta é: um preço impagável".

Irã: início de 1979

Em meados de janeiro e após meses de protestos maciços que deixaram a economia iraniana paralisada, o xá da Pérsia Reza Pahlevi, que tem o apoio de Washington, deixa o país para os Estados Unidos. Em 4 de novembro de 1979, um grupo de estudantes enfurecidos que manifestavam contra a decisão dos EUA de conceder asilo ao xá, ocupam a embaixada americana em Teerã e tomam 52 cidadãos norte-americanos como reféns.

Em 4 de novembro de 1979, estudantes invadem a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e fazem 52 reféns. O cativeiro dura 444 dias Keystone / Irna

Como o presidente Carter e o líder da Revolução Iraniana e da nova República Islâmica Ruholla Khomeini não conseguiram chegar a um acordo, a Argélia intervém como mediadora neutra nas negociações para garantir a libertação dos americanos. No dia 20 de janeiro de 1981, os 52 reféns são libertados após 444 dias de detenção na embaixada dos EUA. De acordo com documentos da CIA, Washington estava claramente em vantagem durante as negociações, porque era capaz de ouvir as comunicações que supostamente estavam encriptadas.

Um alto funcionário da CIA disse ao jornalista do The Washington Post Greg Miller - que conduziu uma investigação sobre os documentos da CIA - que o presidente Carter teve acesso a informações úteis com a ajuda dos dispositivos de criptografia manipulados da empresa Cryto AG. "Ele me disse que durante a crise iraniana ele recebia ligações do presidente dos EUA quase todos os dias. Carter perguntava: ‘O que se passa? O que nós sabemos?’ Graças aos dispositivos manipulados, o alto funcionário da CIA conseguiu informar Carter sobre o que os iranianos estavam fazendo e as decisões que eles estavam tomando.

Os documentos da CIA confirmam isso: "Uma das vantagens mais importantes foi poder ler as mensagens da Argélia durante as negociações, que levaram à libertação dos reféns detidos na embaixada de Teerã em janeiro de 1981", afirmam os documentos.

Na conferência de imprensa que se seguiu ao comunicado, o próprio Carter dirigiu-se ao mediador argelino. "Gostaria de expressar minha gratidão especialmente aos argelinos que fizeram um grande trabalho e conseguiram uma mediação justa entre nós e as autoridades iranianas", declarou publicamente.

Com o conhecimento que se tem agora de que Carter estava ciente das intenções dos iranianos, estas declarações adquirem um significado bem diferente.

Uma máquina de codificação da empresa Crypto AG, sediada em Zug wikimedia/GFDL

Argentina: ditadura militar

A junta militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983 também é cliente da Crypto AG. Com a ajuda de dispositivos de descodificação, o BND e a CIA sabem em primeira mão como a junta militar procede com os opositores do regime - como sequestra, tortura e assassina inúmeras pessoas.

"Os documentos da CIA provavelmente vão além do que sabemos - quando se trata de saber quantos governos ocidentais estavam cientes dessas atrocidades", diz Richard Aldrich. O que surpreendente, segundo ele, é que não houve muita oposição de europeus e americanos contra o que estava acontecendo na Argentina.

Durante a ditadura, todas as semanas os prisioneiros eram colocados em aviões e atirados vivos ao mar. O regime militar fez mais de 30.000 vítimas durante os quase oito anos em que esteve no poder.

Panamá: outubro de 1989 

O caos reina nas ruas do país da América Central. Os militares lideram uma tentativa de golpe contra Manuel Noriega, conhecido por cooperar na lavagem de dinheiro e no tráfico de drogas. Noriega consegue abortar o golpe de Estado, mas os Estados Unidos invadem o Panamá: foi a maior operação aérea desde a Segunda Guerra Mundial.

No final de dezembro de 1989, tropas americanas invadiram o Panamá. Manuel Noriega foi preso mais tarde na embaixada do Vaticano Ap1989

Cerca de 20 mil soldados americanos participam da invasão e, após quatro dias, terminam praticamente todos os combates. Noruega se refugia na nunciatura do Panamá. Dez dias depois ele se rende às tropas americanas e é transferido para Miami, onde é condenado a 40 anos de prisão por tráfico de drogas. Uma sentença que mais tarde foi reduzida para 30 anos de prisão.

Os documentos da CIA afirmam: "Quando os Estados Unidos invadiram o Panamá em 1989 para prender Manuel Noriega, eles tiveram a primeira indicação de que ele estava na embaixada do Vaticano graças à comunicação compatível com a ‘Minerva’ do Vaticano”. Em outras palavras: o Vaticano estava se comunicando com sua embaixada no Panamá com um dispositivo de codificação - e a CIA estava escutando tudo.

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