Por que é que o acordo de vacina Moderna Covid-19 da Suíça é arriscado?

A Suíça juntou-se a uma lista crescente de países a firmar acordos bilaterais para encomendar vacinas às farmacêuticas. Keystone / Carolyn Kaster

A Suíça encomendou vacinas da farmacêutica americana Moderna. A decisão, algo inédito, mostra que o país alpino tem poucas esperanças que a distribuição da vacina do Covid-19 ocorra de forma justa, afirmam os especialistas.

Este conteúdo foi publicado em 13. agosto 2020 - 10:00

Com o acordo assinado na semana passada, a Suíça se tornou um dos primeiros países a concluir um acordo com a empresa de biotecnologia Moderna. Ela não foi o único país a assinar acordos bilaterais com farmacêuticos: Estados Unidos, Reino Unido, Brasil e Japão estão entre os compradores que já desembolsaram dinheiro na pré-compra do que poderá ser uma vacina contra o novo coronavírus.

Enquanto a corrida pelas vacinas se acelera, o acordo com a Moderna traz um alívio a muitos na Suíça que o veem como uma medida necessária para proteger a população.  

Entretanto, os críticos argumentam que os gastos são elevados e terminam por prejudicar os esforços globais de garantir uma distribuição justa das vacinas Covid-19, algo que a Suíça apoia publicamente.

"O acordo mostra que a Suíça não acredita ser possível ter um acordo global para distribuir equitativamente as vacinas", afirmou Patrick Durisch, especialista em saúde pública na ONG Public Eye.

País continua apoiando esforços

Um desses grandes esforços globais é o chamado "Covid-19 Global Access Facility" (COVAX). A Suíça foi um dos primeiros países a apoiar o projeto e agora preside junto com outro país a colaboração global lançada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para acelerar o desenvolvimento e garantir o acesso equitativo à vacina. Seu objetivo é obter dois bilhões de doses para vacinar 20% da população dos países participantes até o final de 2021.

No anúncio do acordo com Moderna, o governo suíço ressaltou que ainda apoia projetos multilaterais como o COVAX para a distribuição justa da vacina.

Porém Durisch reforça a crítica ao apresentar os seguintes dados. Segundo a revista econômica "The Economist", governos de vários países fizeram compras futuras de quatro bilhões de doses de vacinas Covid-19 para entrega até o final de 2021. Isso inclui acordos firmados pelos EUA e Reino Unido com a farmacêutica AstraZeneca para encomenda de, respectivamente, 400 milhões e 100 milhões de doses. Na terça-feira, o presidente americano Donald Trump também assinou um acordo com a Moderna para garantir a compra de 100 milhões de doses.

Entretanto, a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI, na sigla em inglês), uma organização filantrópica localizada em Oslo, Noruega, estima que há apenas capacidade global de produção suficiente para produzir entre duas a quatro bilhões de doses até o final de 2021. Se os países continuarem a assinar acordos individuais, não haverá o suficiente para os países mais pobres.

Até então, apenas a AstraZeneca e a Novovax reservaram doses para a COVAX, além dos acordos bilaterais.

Mas qual é a alternativa? Os especialistas preveem que a demanda excederá em muito a oferta por algum tempo.

"Devemos ficar parados e esperar para receber em algum momento vacina?" perguntou o ministro suíço da Saúde, Alain Berset, na edição de domingo do jornal Neue Zürcher Zeitung (NZZ). "Estamos cuidando dos dois: tanto do nosso próprio abastecimento como pela distribuição internacional justa (da vacina)".

Mas isto dá poucas garantias a ativistas como Durisch. "Não faz sentido, do ponto de vista da saúde pública, vacinar toda a população da Suíça e deixar de lado os profissionais de saúde na África, por exemplo", questiona-se. "Deveríamos estar assegurando que pessoas dos grupos de risco atuantes em áreas prioritárias como a saúde recebam as primeiras vacinas, independentemente do lugar que estejam."

Aposta arriscada

O negócio também é uma aposta cara. Se for bem-sucedido, espera-se que as 4,5 milhões de doses de vacinas vacinem 2,25 milhões de pessoas - cerca de um quarto da população da Suíça. No início deste ano, o governo federal havia reservado 300 milhões de francos suíços para vacinas e pretende adquirir o suficiente para vacinar 60% da população.

Embora poucos detalhes do acordo tenham sido publicados, o jornal Tages-Anzeiger estima que o governo suíço tenha paga aproximadamente entre 100 e 150 milhões de francos (110 a 160 milhões de dólares) à Moderna, baseando-se na tabela atual de preços da empresa de biotecnologia, que é de US$ 32 a 37 por dose.

O Departamento Federal de Saúde Pública declarou à swissinfo.ch que não poderia fornecer detalhes sobre os termos do contrato. Normalmente, em um contrato de compra antecipada como este, um governo paga uma quantia inicial para financiar o desenvolvimento da vacina em troca de uma garantia de que uma parte da produção será reservada a este. Porém se houver algum problema e a vacina não for desenvolvida, não se prevê a restituição do dinheiro.

De acordo com a OMS, a vacina da Moderna é um dos poucos projetos que se encontra nos testes clínicos na chamada "fase três", dos mais de 160 preparados desenvolvidos atualmente no mundo. As vacinas em testes finais normalmente têm 20% de chance de fracasso. Embora tenha cerca de 20 medicamentos e vacinas em desenvolvimento, a empresa nunca teve um produto que chegasse à fase comercial apesar de já funcionar há dez anos.

"A decisão foi arriscada e prematura. Com isso a Suíça está participando desse movimento de caça pelas vacinas", afirma Durisch. "O fato é que o país teme que, se nada for feito agora, não irá sobrar nada."

Há dez anos, muitos governos assinaram acordos semelhantes para a compra de uma vacina contra a gripe suína. Mais tarde tiveram que encontrar maneiras de doar ou se livrar das vacinas restantes, quando a pandemia desapareceu.

As autoridades sanitárias suíças indicaram que estão em conversações com outras farmacêuticas. Como um possível sinal, o governo anunciou um acordo com a companhia zuriquense Molecular Partners na terça-feira para ter acesso a 200 mil doses do remédio Mono-DARP, que atualmente está sendo desenvolvido para tratar os sintomas do Covid-19.

Preços elevados

Moderna está sendo criticada por outras razões. O preço estabelecido para a vacina é o mais caro dos fabricantes, apesar de estar sendo altamente subsidiado. Só o governo dos Estados Unidos já investiu 955 milhões de dólares na empresa.

O presidente da farmacêutica também disse publicamente que o principal objetivo com a operação é ter lucro, ao contrário das farmacêuticas Johnson & Johnson e Astra Zeneca, que negaram ter a mesma estratégia. O site da indústria da saúde, STAT, também criticou as lacunas na divulgação dos custos de desenvolvimento da vacina do Covid-19, como exige as leis federais nos EUA.

"Os governos estão passando cheques em branco sem qualquer compromisso relacionado a preço, acesso ou transparência", reforçou Durisch.

Já Michael Altorfer, que dirige a Associação Suíça de Biotecnologia, argumenta que é importante para uma empresa gerar lucro sobre os seus investimentos. "Caso contrário, os investidores podem perder o interesse em investir", disse.

As grandes empresas farmacêuticas têm abandonado áreas como o desenvolvimento de vacinas e novos antibióticos devido ao baixo retorno de investimento se os preços não condizem.

Ele observa que, como é o caso de muitas empresas de biotecnologia: os investidores privados correram riscos nos estágios iniciais do desenvolvimento da tecnologia mRNA da Moderna, o que dá à farmacêutica um avanço na corrida em busca de uma vacina para o Covid-19.

A Suíça também tem sua própria participação no sucesso da Moderna. Ela assinou um acordo com a farmacêutica suíça Lonza para fabricar ingredientes farmacêuticos ativos (API) que são utilizados na vacina desenvolvida pela Moderna.

A mídia suíça também informou que a Moderna poderia também se instalar na Suíça. De acordo alguns jornais, a empresa americana fez um registro comercial no final de junho. Na terça-feira, nomeou Nicolas Chornet como chefe de operações na Europa, para atuar no escritório aberto recentemente na Basiléia.

Isto faz da Suíça um dos poucos países na invejável posição de ter a produção de vacinas em seu solo e os recursos para adquirir as vacinas. Suerie Moon, co-diretor do Centro Global de Saúde do Instituto Universitário de Altos Estudos Internacional, afirma que o governo suíço deveria usar sua posição para pressionar a Lonza a cumprir as diretrizes da OMS sobre a alocação ao produzir vacinas.

"O próprio governo também poderia adotar uma abordagem mais integrada, adquirindo um grande volume de uma só vez, alguns para uso na Suíça e o restante para outros países via COVAX", conclui Moon.

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