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"Temos que aprender a morrer"

Hans Saner em Schützenmatt, parque de Basileia em que costumava passear com seu mestre, Karl Jaspers.

(swissinfo.ch)

Viver e morrer são dois direitos fundamentais que não são contraditórios, diz o filósofo suíço, Hans Saner. Ele defende o suicídio assistido, que o governo suíço pretende restringir.

Na Suíça, 61.233 pessoas morreram em 2008, entre elas, cerca de 1400 através de suicídio assistido. Nesta segunda-feira, Dia dos Mortos, elas e outras foram lembradas nos cemitérios do país.

O governo suíço propôs na semana passada restrições ao suicídio assistido ou, eventualmente, sua proibição total, o que é criticado pelas duas organizações que prestam esse serviço no país (Dignitas e Exit).

swissinfo.ch: A morte é um assunto tabu, mas ao mesmo tempo fascina as pessoas. Por quê?

Hans Saner: Creio que somos fascinados porque todos nós sabemos que vamos morrer, mas não quando nem como. Nesse fascínio mistura-se uma dose de medo que, em determinadas circunstâncias, pode se tornar agonizante. Neste estado – de fascinação e temor –, oscila-se entre a infelicidade e a felicidade de saber que, inevitavelmente, vamos morrer.

swissinfo.ch: O senhor disse certa vez que "temos de aprender a morrer a tempo". O que quer dizer com isso?

H.S.: O pensamento de Nietzsche ("Complete sua vida. Morra na hora certa") é interpretado hoje no contexto de que o ser humano se torna cada vez mais idoso, com o que surgem doenças quase intratáveis. Não devemos nos enganar: em geral, a velhice é associada ao sofrimento. Por isso, diminui o número de pessoas que querem a qualquer preço tornar-se muito velhas. Este é um ideal quantitativo e falso.

Devemos nos perguntar muito mais como preservar a qualidade de vida na velhice. Se esta se perde, tem-se o direito de dizer 'basta'. Existe hoje um duplo direito humano fundamental: de viver, o que significa que ninguém, tampouco uma instituição, tem o direito de me matar; e o de morrer, o que significa que, se quero terminar a minha vida e estou legalmente apto a fazer isso, ninguém tem o direito de me fazer desistir. Estes dois direitos não se contradizem: um proíbe a violência contra mim, que não me matem; e o outro proíbe obrigar-me ou condenar-me a sofrer.

swissinfo.ch: Então, temos também a possibilidade de tirar a vida.

H.S.: Sim. Somos seres casuais, mas no processo da vida, de certa maneira, somos responsáveis por nós mesmos. Ou seja, não mais seres casuais e sim estamos no curso de uma biografia que nos determina. Nem tudo pode ser deixado ao acaso. A ansiada independência inclui a possibilidade de ir voluntariamente para a morte.

swissinfo.ch: Lorenz Imhof, coautor de um estudo recente sobre o suicídio assistido e o turismo da morte na Suíça, diz que o problema não é vida ou morte, mas como morrer.

H.S.: Os idosos não têm medo da morte, mas de tudo o que poderia estar associado a ela, ou seja, a possível crueldade do sofrimento. Neste caso, o suicídio assistido significa ajudar a morrer. O problema é até que ponto é aceitável suicídio assistido ativo. Eu acho que ele deve ser aceito quando desejado ou exigido pelo gravemente doente ou por quem está cansado da vida. E deve ser rejeitado quando realizado contra esses desejos.

swissinfo.ch: O chamado "turismo da morte" prejudica a imagem da Suíça?

H.S.: Acredito que não. O suicídio assistido não é um fenômeno generalizado. As críticas vêm em parte de meios que viram de perto eutanásia pervertida. O que aconteceu no Terceiro Reich, os assassinatos em massa, não tem nada a ver se o suicídio assistido, que deve não só deve ser permitido, como até ser fomentado.

O ser humano não pode ser abandonado ao destino. Temos o direito de encurtar o tempo de vida. Isto é o que eu quero dizer com "temos que aprender a morrer a tempo". O processo de morrer pode se tornar algo muito difícil para uma família, para um grupo, e, se o paciente tem um desejo de morrer, não temos o direito de proibi-lo.

swissinfo.ch: Entre os homens de 15 a 44, o suicídio é a causa mais comum de morte na Suíça. Mas um estudo de uma universidade britânica concluiu que os suíços são, depois dos dinamarqueses, os mais felizes do mundo. Como se explica esta contradição?

H.S.: É difícil dizer, os parâmetros são questionáveis. Na Suíça, não se demonstra sentimentos ou emoções facilmente. O faço de não nos queixarmos não significa que nos sintamos felizes, mas talvez renunciemos à queixa justamente porque não queremos mostrar os sentimentos. Se a Suíça tem a segunda maior taxa de suicídios do mundo, isso pode ser um sinal de uma grande sensação de liberdade em relação à morte; não aceitamos o que o destino traz. Isso tem a ver com a dignidade de poder dizer "não". É uma conquista não ter que nos submeter a viver contra a nossa vontade.

swissinfo.ch: E o que faz o senhor feliz?

H.S.: O melhor na vida são amigos. O estudo, a conclusão de uma obra, geralmente é uma luta ligada a muita disciplina e dureza contra si mesmo. Depois de terminar uma obra, me sinto vazio, muitos escritores caem em depressão.

Com os amigos, existe a possibilidade da conversa, de libertar-se do opressor cotidiano. Também o amor faz feliz, mas a amizade é mais importante e mais confiável. O amor vem e vai. Não temos nenhum poder sobre ele; é vulnerável e, muitas vezes, acaba rapidamente.

swissinfo.ch: "Filosofar significa aprender a morrer", segundo Platão. Temos que nos tornar filósofos para aprender a morrer?

H.S.: Nos últimos tempos, se fala novamente disso. A arte de morrer é também a arte de viver, e vice-versa. O último da vida é a morte, a fronteira de tudo aquilo sobre o que não sabemos absolutamente nada.

Rosa Amelia Fierro, swissinfo.ch
(Adaptação: Geraldo Hoffmann)

Hans Saner

Nasceu em 1934 perto de Berna e é o mais renomado filósofo suíço vivo.

Ele estudou Filosofia, Psicologia e Germanística em Lausanne e Basileia.

Foi discípulo de Karl Jaspers, psiquiatra e filósofo alemão que emigrou para a Suíça em 1948 e desenvolveu uma filosofia existencial baseada em experiências extremas.

Entre 1962 e 1969, Saner foi assistente pessoal de Jaspers, cujo legado póstumo ele editou.

Em 1967, ele apresentou sua tese de doutorado "A Paz Eterna" sobre os escritos de Kant, com a qual venceu Prêmio Hermann Hesse, em 1968.

Ele vive em Basiléia e escreve frequentemente sobre questões filosóficas e políticas.

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