"Apoiamos tudo o que o governo decide"

Janaína Dahinden (esq.) e Fabiana Jakob logo após a montagem da barraca "Namoa" na feira de Berna, em 29 de abril de 2020. swissinfo.ch

A população precisa improvisar em tempos de "lockdown". Na medida que as taxas de contágio do novo coronavírus começam a baixar, o governo decide o retorno à normalidade. Duas confeiteiras brasileiras são as primeiras as voltar à feira de Berna, uma das mais tradicionais do país.

Este conteúdo foi publicado em 29. abril 2020 - 19:05

Hoje é dia de mercado na Praça Federal, o coração de Berna. Se fosse um dia normal, o grande quadrado formado por inúmeras placas de granito, já estaria ocupado por dezenas de barracas coloridas, onde padeiros, artesãos e agricultores locais vendem seus produtos. É quase um dia de festa na capital da Suíça e uma antiga tradição: o mercado já funciona há mais de 130 anos.

Porém esta quarta-feira, 29 de abril, não é um dia como os outros. Depois de quase dois meses após a entrada em vigor das medidas emergenciais para combater o novo coronavírus (ver box), os feirantes retornam à praça, porém em um número muito mais reduzido que o normal.

"Recebemos das autoridades um e-mail avisando que poderíamos retornar à feira, mas dessa vez todos os comerciantes teriam de se espalhar pela cidade para evitar a concentração de pessoas", conta Fabiana Jakob, 42 anos. Ela aponta para as garrafas de álcool desinfetante colocadas sobre uma mesinha disposta na frente da barraca e outra para elas próprias utilizarem. São medidas de segurança impostas pelas autoridades ao comércio.

Brasileiros na Suíça

Segundo os dados oficiais do Departamento Federal de Estatísticas (BFS, na sigla em alemão) 21.278 brasileiros vivem na Suíça (até 31 dezembro de 2018), porém estima-se sejam entre 70 e 80 mil. Muitos se naturalizaram, em grande parte graças ao casamento com suíços, e, portanto, não entram mais na estatísticas da população estrangeira. Além disos, também há pessoas não registradas.

End of insertion

Originária de Recife, a brasileira já vive há 14 anos na Suíça. Enquanto conta sua história, arruma os produtos que trouxe hoje para vender na feira: coxinhas, pão-de-queijo, bolo de fubá, bolo de mandioca, pastéis e até geleia de goiaba. Ao seu lado, a parceira de negócios, Janaína Dahinden, 42, começa a colocar a massa no forno elétrico. "Assim os pães-de-queijo ficam fresquinhos e dão aquele aroma gostoso que a gente se lembra."

As duas brasileiras têm histórias semelhantes ao de outras conterrâneas. Casadas com suíços, elas chegaram no país e foram se integrando aos poucos. Fabiana se formou em veterinária no Brasil e biologia na Suíça e trabalhava até pouco como assistente de laboratório no Hospital Insel, o maior da região. Já Janaina era enfermeira e chefiava um setor do hospital em sua cidade natal, Itabira, Minas Gerais. Como chegou há pouco no país, aprende ainda o alemão. Porem acha que tomou a decisão certa. "Adoro esse país", ressalta.

A ideia de abrir o próprio negócio surgiu durante uma festa de amigos, quando se conheceram. "A gente falava como sentia falta da comida brasileira e pensamos que seria uma ótima ideia fazer algumas das nossas especialidades e vendê-las aos suíços", lembra-se Janaína.

Então começara a fazer testes na cozinha. "Importante era utilizar os produtos locais. Como estamos na Suíça, a terra do queijo, imaginamos que daria muito certo no pão-de-queijo", diz Fabiana, contando que os maridos testavam e aprovavam. Porém não conta a receita. "É secreta. Só posso dizer que vai o Appenzeller", brinca, referindo a um queijo feito na parte oriental do país, conhecido pelo gosto temperado.

No começo do dia, poucas pessoas andavam no centro da cidade. A maior parte das lojas continua fechada. Os prédios vizinhos, o Parlamento Federal, o Banco Central da Suíça e o Banco Cantonal de Berna estão praticamente vazios, já que muitos funcionários continuam trabalhando no esquema de "home-office", em casa. Já os políticos encontram-se em uma sessão organizada em um espaço provisório, construído ao lado do Centro de Convenções de Berna, mais espaçoso para permitir o distanciamento de dois metros. A pandemia continua causando vítimas no país, apesar dos números estarem em constante diminuição.

Janaína e Fabiana sentem-se seguras apesar do estado de emergência. "Seguimos todas as recomendações feitas pelo governo. Ficamos em casa a maior parte do tempo, só saindo para fazer compras. Só agora é que as autoridades permitiram que a gente voltasse a montar a nossa barraca, mas nos deram muitas instruções de segurança, inclusive indicando o local exato onde podíamos nos instalar", conta a recifense.

Para elas o trabalho de feirante é apenas um acréscimo à renda familiar, porém um trabalho de paixão. "Namoa" foi o nome que escolheram para batizar o negócio próprio. "Significa 'Vem de longe' em tupi-guarani", explica Janaína. A marca já está presente no Facebook e no Instagram. Ela e sua colega estão seguras que irão conquistar os suíços pelo paladar, lembrando que muitos já estiveram no Brasil e são atraídos pela cozinha nacional. O local, pelo menos, ajuda. Não poderia ser mais central e exclusivo. Poucos minutos pela manhã passava na frente da barraca a ministra do Meio-Ambiente, Transportes, Energia e Comunicações da Suíça, Simonetta Sommaruga. "Ela estava apressada e ainda não parou para experimentar um pão-de-queijo. Mas seguramente irá fazê-lo da próxima vez", afirma decidida Fabiana.

Medidas contra o coronavírus

Para combater a disseminação do novo coronavírus SARS-CoV-2, o governo suíço introduziu diversas medidas emergenciais partir de 16 de março de 2020.

Dentre outras, elas previam o fechamento do comércio, escolas, centros culturais e esportivos. Ao mesmo tempo, aconselharam a população a manter-se em casa e respeitar o distanciamento.

A Suíça começou a atenuar as medidas de isolamento social para evitar mais prejuízos para a economia. As lojas de jardinagem e material de construção voltaram a abrir na segunda-feira 27 de abril, além de outros serviços pessoais, como cabelereiros, terapeutas e dentistas, iniciando a primeira fase para a saída do isolamento na Suíça.

A volta à normalidade ocorre gradualmente. A partir de 11 de maio, se a situação permitir, as escolas obrigatórias e todas as lojas poderão reabrir. Em 8 de junho ocorre a reabertura das escolas profissionais, universidades, museus, jardins zoológicos e bibliotecas.

End of insertion

Este artigo foi automaticamente importado do nosso antigo site para o novo. Se há problemas com sua visualização, pedimos desculpas pelo inconveniente. Por favor, relate o problema ao seguinte endereço: community-feedback@swissinfo.ch

Partilhar este artigo