Incubador suíço de start-ups investe em refugiados e imigrantes

Refugiados e migrantes podem ser pessoas em situação de extrema necessidade e, ao mesmo tempo, um fardo ao contribuinte e à sociedade. Essa percepção generalizada prejudica a sua integração na Suíça e outros países. 

Este conteúdo foi publicado em 24. julho 2020 - 10:00
Os mentores do Capacity ajudam os refugiados e imigrantes a desenvolver suas ideias de negócio. swissinfo.ch/Dominique Soguel

Uma associação em Zurique quer combater esse estereótipo e chamar a atenção para essa reserva de talentos, frequentemente ignorada pelos empregadores.

"Aos poucos os refugiados e migrantes estão sendo descoberto", diz Ana Maria Angarita, cofundadora da Capacity. "Existe até uma curiosidade em saber o que eles podem oferecer. Se algumas empresas já oferecem estágios a refugiados, ainda há um longo caminho a percorrer ao se tratar do negócio próprio...Os refugiados ainda sofrem dos preconceitos arraigados em alguns segmentos da sociedade".

Angarita sabe o que significa ter iniciativa. Ainda era menor de idade quando, em 2001, abandonou o país de origem, a Colômbia, e pediu refúgio nos Estados Unidos. Depois estudou no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais (IHEID, na sigla em francês), em Genebra. Depois fez estágios que a levaram até a Índia, onde trabalhou na Unicef. 

Surpreendentemente foi a troca de moradia na Suíça que lhe inspirou a criar uma incubadora de pequenas empresas de refugiados e imigrantes. Mudar-se de Genebra para Zurique com o marido, depois de oito anos já vivendo no país deveria ter sido fácil. Mas não foi.

Novo desafio

"Tivemos de recomeçar", lembra. "Foi difícil encontrar um emprego. Eu vivi na própria pele a experiencia de muitos migrantes e refugiados de se integrar na Suíça, construir a própria rede de contatos, ganhar a confiança das pessoas e mostrar que você é uma pessoa confiável, um profissional de valor."

Mohamad Aldahouk quer transformar sua idéia de negócio em realidade. swissinfo.ch/Dominique Soguel

Migrantes que se mudam para a Suíça por motivos familiares podem passar anos procurando emprego, mesmo com um diploma de nível superior", afirma Angarita. Os solicitantes de asilo político e refugiados já aceitos enfrentam um conjunto de desafios e são mais propensos a enfrentar o desemprego e a depender da assistência social do que os suíços ou migrantes originários de países da União Europeia, que têm o direito de trabalhar desde quando chegam no país.

As experiências da colombiana a levaram a criar, em 2015, a associação sem fins lucrativos Capacity. Foi uma iniciativa feita com mais três colegas, dentre eles Alexa Kuenburg, uma médica que já trabalhava com refugiados em Zurique e que considera ser mais fácil tratar dos seus problemas psicológicos se têm emprego e um propósito de vida, que os ajuda a criar uma nova identidade no meio em que escolheram viver.

Soluções disponíveis

O sírio Mohamad Aldahouk fugiu da guerra no seu país e vive hoje na Suíça com um visto "F". Formalmente significa que é um estrangeiro admitido provisoriamente, mas que deveria retornar ao país de origem. Porém sua expulsão seria considerada uma violação do direito internacional, um risco injustificado para a vida ou é tecnicamente impossível. 

É um estatuto muito precário, o que não dissuade Aldahouk. O sírio domina o alemão e já conseguiu um estágio de formação profissional em um oculista. A tarefa de marcar a data de validade em produtos para lentes de contato abriu seus olhos para a discrepância entre a data de validade declarada e a data de validade real de muitos produtos farmacêuticos.

"É um risco para a saúde do consumidor e uma oportunidade de negócio perdida para a empresa farmacêutica. Afinal, os produtos são mantidos e utilizados após a data de validade", explica Aldahouk.

Foi então que teve uma ideia de negócio e criou o "iCover". Trata-se de um sistema de bloqueio inteligente, onde a tampa do produto identifica sua validade e alerta o consumidor se ela foi ultrapassada através de sinais sonoros ou de luz.

Uma área de aplicação óbvia seria a indústria farmacêutica. "Fiz um plano de A a Z para meu projeto", explica Aldahouk. "Atualmente trabalho para criar um protótipo. Depois irei apresentá-lo aos investidores e tentar patenteá-lo."

Natalia Sierra quer conectar as pessoas para ajudá-las a criar o próprio negócio. swissinfo.ch/dsoguel

O sírio foi um dos 16 participantes no programa de lançamento da Capacity, que terminou em junho com uma feira. Os refugiados e migrantes que participam do projeto receberam mentores para ajudar a desenvolver suas ideias. Um especialista em finanças do banco UBS, e voluntário no programa, orientou Aldahouk a se "manter focalizado na questão do dinheiro".

Natalia Sierra é outra solicitante de asilo. Ela e sua família sofreram muitas dificuldades nos primeiros momentos na Suíça, em parte devido ao isolamento e condições precárias de habitação. Ela diz que foram forçados a fugir da Colômbia após terem recebido várias ameaças de morte devido à atuação da mãe na defesa de comunidades carentes. 

Superando tempos difíceis

"Não foram dias fáceis para nós", diz. "Foi um choque chegar aqui nessas condições. Há incertezas e lembranças. Lamentos e nostalgia. As condições nos alojamentos de refugiados são muito duras. Eles as pessoas como se fossem criminosas. Fazem você se sentir indesejado. A impressão é que quanto mais cedo você voltar para casa, melhor."

Sierra desenvolveu a ideia do negócio próprio intitulado "Power to the People". Nele, refugiados como ela trabalhariam como guias de turistas, levando grupos aos locais preferidos na cidade segundo seus interesses e paixões. Um exemplo seriam as pichações nos muros. Isso iria permitir que até os habitantes das cidades possam vê-la sob uma nova ótica, criando espaço para o diálogo com os refugiados. 

"Quando comecei a trabalhar com a Capacity não tinha ainda uma ideia clara", diz. "Agora já sei o que fazer. Além disso, tenho também pessoas que me apoiam."

Com energia e força de vontade a colombiana não poupou esforços para alcançar seus objetivos. Ela começou um mestrado na Faculdade de Artes de Zurique. Sierra foi encarregada pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) de criar um cartaz em homenagem às mulheres refugiadas que será utilizado na exposição especial na Art Basel, a feira de arte mais importante do mundo. Além disso, Sierra faz parte do grupo Arquitetura Suíça para Refugiados. "O que as pessoas não conseguem ver é que os refugiados têm muito potencial", afirma.

Estrangeiros na Suíça

Um em cada cinco habitantes na Suíça nasceu em outro país. É a maior taxa de estrangeiros em um país europeu, depois de Luxemburgo.

Segundo o Departamento Federal de Estatística, aproximadamente 2,1 milhões de estrangeiros - mais de dois terços são originários de um país da União Europeia ou do EFTA - viviam na Suíça até o final de 2018.

A população de solicitantes de asilo (visto "N"), de pessoas acolhidas provisoriamente (F) ou refugiados reconhecidos (F/B) é composta por aproximadamente 123.397 pessoas, o que corresponde a 1,45% da população, segundo Capacity.

A maior parte dessas pessoas (70-80%) depende da assistência social para sobreviver. Enquanto passam pelo processo de asilo (visto "N"), apenas 6,3% tem emprego. A taxa se eleva para 30-40% após a aceitação do pedido.

Apenas 6-7% da população migrante depende da assistência social na Suíça (incluindo cidadãos da UE). Essa proporção cai para 2% quando se trata da população nativa.

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