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O papa pode salvar a maior geleira dos Alpes?


Moradores de Fiesch e Fieschertal, no Valais, querem rezar contra o derretimento da geleira de Aletsch, a maior dos Alpes, mas para isso precisam de autorização do Vaticano.

É que em 1678 eles fizeram a promessa de rezar contra o aumento da geleira, que avançava perigosamente sobre os povoados. Uma mudança do objetivo desse juramento depende agora da bênção do papa.

"Não é uma jogada de marketing. A situação é séria. A geleira recuou 3,5 km e ficou cerca de 300 metros mais fina nas últimas décadas", diz o prefeito Herbert Volken à swissinfo.ch.

Com 23,6 quilômetros de comprimento e 26,5 bilhões de toneladas de gelo, o Aletsch é a maior geleira dos Alpes, cobrindo uma área de 117,6 km2. Desde 2001, é patrimônio da humanidade tombado pela Unesco. Devido ao calor extremo dos últimos anos, ela está encolhendo rapidamente.

"Nossa preocupação é que, se continuar assim, tenhamos escassez de água e secas. Sem água não há vida. A conseqüência seria abandonar a terra", diz Volken.

Promessa contra catástrofes

Nos séculos 17, 18 e 19, o problema era outro. Os habitantes do Vale de Fiesch enfrentaram várias catástrofes, a maioria causada por vazões do lago e avalanches da geleira. Segundo Volken, em menos de cem anos ocorreram 35 transbordamentos do lago, que causaram enchentes e destruição nos povoados.

A população tentou domar as forças da natureza com fé. Foi assim que, em 1678, o então pároco de Fiesch, Johann Joseph Volken – um ancestral do atual prefeito – oficializou a promessa de sua comunidade de rezar contra o crescimento da geleira e o transbordamento do Lago Märjelen, e a enviou ao bispo de Sitten, Adrian VI von Riedmatten. De lá documento foi ao núncio apostólico em Berna, monsenhor Odoardus Cibo, que o enviou para aprovação ao papa Inocêncio XI.

O documento foi complementado ao longo do tempo. "Pela última vez, há 147 anos, quando foi acrescentada a promessa de realizar anualmente, sempre em 31 de julho – dia de Santo Inácio de Loyola—, uma procissão de cinco horas em honra à Nossa Senhora até a capela de Ernerwald", conta o padre Pascal Venetz.

Oração contra mudança climática

"Aparentemente a oração dos fiéis ajudou. Depois de ter atingido seu nível máximo em 1865, a geleira recuou - até demais. Naturalmente fatores climáticos, como indústria, calefação nas casas, automóveis e aviões também influíram, através de emissões de CO2", diz Volken. Mas ele diz desconher "pecados ambientais" da população local.

Segundo ele, agora a antiga promessa será adaptada aos tempos atuais. "Queremos mudar o objetivo: em vez de rezar pelo recuo, queremos orar pelo crescimento da geleira. Para isso, precisamos da autorização do papa". Um pedido nesse sentido está sendo elaborado pelo padre Pascal Venetz e será enviado ao Vaticano através do bispado e da Nunciatura em Berna.

Volken está convencido de que o apelo dos católicos de Fiesch e Fieschertal será ouvido pelo papa. "Em sua mensagem de Páscoa, este ano, o líder da Igreja Católica abordou a mudança climática. O tema é extremamente atual em todo o mundo."

Região depende da geleira

O prefeito de Fiesch explica que os efeitos da mudança climática para a economia local "ainda não são graves. Mas a geleira de Aletsch significa para nós o que representa o pico Matterhorn para Zermatt (povoado de 5.800 habitantes de teve 2 milhões de pernoites de turistas no ano passado). Eu sempre digo que a grande geleira de Aletsch é nosso Matterhorn deitado."

O povoado de Fiesch, com mil habitantes, registra mais de 400 mil pernoites por ano. "Esses visitantes têm um destino certo, entre outros: eles vêm para admirar o maior rio de gelo dos Alpes, a grande geleira de Aletsch", diz Volken.

No verão europeu, mais de 2.500 turistas por dia sobem com o teleférico de Fiesch para o pico Eggishorn (2934 m), de onde se tem uma vista panorâmica de dezenas de montanhas de 4000 m de altitude dos Alpes do Valais e da geleira.

"Se esta derreter, não teremos mais base de sobrevivência. Turismo e água – é disso que vivemos. O turismo é a nossa única fonte de renda. Sem ele, Fiesch (Goms) vai mal. Temos um pequeno e saudável parque industrial. Mas também este está estreitamente ligado ao turismo", explica Volken.

Os habitantes de Fiesch e Fieschertal esperam conseguir uma audiência com Bento 16 em setembro ou outubro próximo. Volken já tem um plano que, se der certo, terá – esse sim – terá um efeito publicitário. "Vou convidar o papa para visitar o Aletschgletcher. Como guia de montanha, posso guiá-lo pela geleira."

Geraldo Hoffmann, swissinfo.ch



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