Eleitores de Zurique decidem abolir o "bom" alemão


Por
Julia Slater


Crianças em um jardim de infância na Suíça.

Crianças em um jardim de infância na Suíça.

(Keystone)

A delicada questão dos idiomas na Suíça volta às manchetes graças aos eleitores do cantão de Zurique.

No último domingo (15/05) eles aprovaram nas urnas um projeto de lei para tornar o dialeto suíço-alemão obrigatório no jardim de infância. A Educação é essencialmente da esfera cantonal (estadual) na Suiça.

Até então se supunha que um terço do ensino era realizado no dialeto, um terço no "bom" alemão (a língua padrão da Alemanha) e um terço era escolhido a critério dos professores segundo a necessidade da situação.

Os defensores da "Sim ao dialeto no jardim de infância", a iniciativa popular (n.r.: um projeto de lei apresentado por um grupo de interesse em plebiscito depois de recolher as assinaturas necessárias), suspeitavam que o objetivo das autoridades da educação fosse substituir completamente o dialeto suíço-alemão.

O problema existe, de fato: a língua falada pelos suíços germanófonos difere do alemão padrão. Existem muitas diferenças na gramática e no vocabulário. Para muitas pessoas que dominam apenas o também chamado "bom" alemão, o dialeto costuma ser incompreensível.

No entanto, o alemão padrão é utilizado para a comunicação escrita e em situações formais. Essa também é a língua aprendida nas escolas pelas outras minorias do país.

Existe um consenso geral de que as crianças suíças germanófonas necessitam dominar tanto o idioma padrão como o dialeto. Porém como é possível concretizar esse objetivo e em qual estágio do processo de aprendizado?

Lançar bases 

Allan Guggenbühl, professor de psicologia, apoia a iniciativa aprovada em Zurique. "Em todo o mundo acredita-se que para ajudar a melhorar a competência na fala, é preciso começar com a língua atualmente falada e não um idioma estrangeiro", declarou à swissinfo.ch.

"O objetivo é ganhar competência linguística no alemão padrão e também no suíço-alemão. A questão é como chegar lá. Você chega melhor e mais rápido nesse objetivo ajudando as crianças a aprender uma língua básica. E depois que elas a conhecerem melhor, então é possível avançar", explicou.

O alemão padrão está por todos os lados, inclusive na televisão, ao qual até as crianças menores estão expostas, algo positivo. Mas se é necessário tornar as crianças versadas em idiomas, a melhor coisa é esperar até que elas entrem na escola por volta dos sete anos antes de ensiná-las de forma ativa, considera o acadêmico.

Competência linguística 

O voto de domingo retornou a situação para o quadro anterior a 2008. Mas isso realmente irá produzir as competências linguísticas desejadas?

Iwar Werlen, professor de linguística geral na Universidade de Berna, lembra-se de estudos que mostraram de forma consistente que a maioria dos suíços germanófonos prefere utilizar o francês ou o inglês ao invés do alemão padrão em situações em que não há opção do dialeto.

"Em certa medida isso tem a ver com o fato do alemão padrão ser utilizado nas escolas como uma língua escrita, que as pessoas não aprenderam a falar no cotidiano", considera.

"Também há a questão dos suíços não gostarem realmente dos alemães. Eles os admiram por falar 'melhor' o alemão padrão. Os suíços acreditam que nunca irão falar tão bem e, portanto, o melhor é não falar nada."

Isso explica porque os diretores cantonais (estaduais) da educação pública  decidiram promover a utilização do alemão padrão nas escolas. Eles não têm jurisdição sobre os jardins de infância, mas alguns cantões se inspiraram na prática de introduzir o alemão padrão também nesse nível de ensino. "A ideia básica é que se deve falar mais "bom" alemão na escola, o que permitirá as pessoas se acostumarem mais a falar o idioma ao invés de simplesmente ler ou escrever nele", disse.

Passar de um para outro 

E para ele, quanto mais cedo as crianças começarem, melhor. "Pesquisas foram realizadas em jardins de infância pilotos na Basileia e em Liestal. Elas mostraram que as crianças não têm problema de passar de um idioma para outro. A maioria delas aprende o alemão padrão na televisão e simplesmente o utilizam. E se eles não sabem uma palavra do alemão padrão, eles procuram uma no dialeto suíço-alemão. Para elas é diversão. Não há problemas."

Cabe ao professor fazer uma distinção clara entre os dois idiomas para não confundir os alunos. "O que é difícil para as crianças é quando o professor muda de uma língua a outra sem nenhuma razão", diz.

Guggenbühl ressalta que se as crianças devem ter uma boa base idiomática, o suíço-alemão precisa ser ensinado: ele tem sua própria gramática, vocabulário e expressões e os professores devem estar atentos a isso.

Mas Werlen afirma que até nos institutos de treinamento de professores não existe uma discussão sobre a natureza do dialeto entre os falantes dele - e que isso é uma falha grave. Mas esforços de promover essa discussão fracassaram.

Integração e coesão 

Uma iniciativa em prol do dialeto em curso no cantão de Lucerna utiliza a imagem de uma criança com seu rosto pintado como uma bandeira suíça. "O suíço-alemão tem um papel central na integração de estrangeiros", declara o seu site na internet.

"Na Suíça você só é aceito se fala suíço-alemão", diz Guggenbühl. "Se você fala o alemão padrão, não é aceito". Talvez isso seja verdadeiro nas regiões germanófonas do país, mas a Suíça tem outros três idiomas nacionais.

Forum Helveticum, uma associação independente que promove debates sobre questões da vida pública, publicou há poucos anos um estudo sobre o suíço-alemão, a identidade local e a coesão nacional.  "A conclusão é que se a identidade local é muito importante, também é verdade que o dialeto tem de ser protegido. Mas a coesão nacional é também muito importante", declarou Paolo Barblan, diretor da Forum Helveticum.

"Muitas pessoas das partes não germanófonas da Suíça dizem que as coisas mudaram nos últimos vinte anos. Antes, um suíço germanófono trocaria automaticamente para o alemão padrão se a outra pessoa não entendesse o dialeto. Agora eles continuam a falar satisfeitos em dialeto e simplesmente não percebem que o outro não está entendendo."

"Outra razão para isso acontecer é que os suíços germanófonos sentem muito menos fluentes no alemão padrão do que antes", acrescenta Barblan.

Línguas na Suíça

Percentagens de línguas faladas na Suíça pelos seus habitantes, segundo o recenseamento de 2000.

Línguas nacionais:

alemão: 63.7%

francês: 20.4%

italiano: 6.5%

Romansh 0.5%

Línguas estrangeiras:

serbo-croata: 1.4%

albanês: 1.3%

português: 1.2%

espanhol: 1.1%

inglês: 1.0%

turco: 0.6%

língua tâmil: 0.3%

árabe: 0.2%

Idiomas oficiais da Suíça

A Suíça tem quatro idiomas oficiais: alemão, francês, italiano e reto-romano.

A forma falada do alemão na Suíça e o alemão da Alemanha se diferenciaram durante a época medieval.

O suíço-alemão é muitas vezes incompreensível para os alemães, sobretudo os do norte.

Dentro da Suíça existem três principais divisões no dialeto suíço-alemão. Cada uma deles transborda para as zonas fronteiriças dos países vizinhos.

Afora uma leve diferença no sotaque e no vocabulário, o francês falado na Suíça é similar ao da França e à língua escrita.

Porém a língua falada originalmente na Suíça ocidental não era o francês, mas sim o franco-provençal, que também era falado ao leste da França e no norte da Itália. É um idioma que sobrevive como um dialeto local, apesar de hoje existir em diferentes variações locais.

Na parte italiana da Suíça - o cantão do Ticino e partes do cantão dos Grisões - a população fala o italiano padrão. Porém em nível privado muitos falam também o dialeto da Lombardia ocidental, a língua não oficial do norte da Itália. Esse dialeto existe em várias formas locais.

O reto-romano é falado em partes do cantão dos Grisões em cinco diferentes formas, conhecidas como "idiomas". Cada uma tem sua própria versão escrita. Os idiomas também têm seus próprios dialetos. Uma língua escrita artificial, o "Romansh Grischun" foi introduzido como elemento de integração em 1982 e é utilizado em documentos oficiais.


Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch



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