Migrantes na política suíça "Não sou estrangeiro, o meu país é a Suíça"

Presidente da Juventude Democrata Cristã (JDC) de Genebra, membro do comité do Partido Democrata Cristão (PDC) em Thônex, conselheiro Municipal desde 2015: Bruno da Silva é um caso singular de envolvimento político de um jovem suíço de origem portuguesa.

Bruno da Silva nas ruas de Genebra.

Bruno da Silva nas ruas de Genebra.

(swissinfo.ch)

Tem 20 anos de idade e foi "a ascensão da xenofobia com o aumento de popularidade da UDCLink externo" que o empurrou para a política: inscreveu-se no PDCLink externo e convenceu os pais a pedir a nacionalidade suíça.

"Tinha 16 ou 17 anos quando vi serem votadas certas leis que atacavam frontalmente os estrangeiros, incluindo as pessoas como eu, nascido aqui de pais com origem estrangeira", contou à swissinfo.ch. "Como é possível atacarem-me? Eu nasci cá, o meu país é a Suíça e eles querem tratar-me como estrangeiro? Não sou estrangeiro, sou talvez até mais suíço que alguns xenófobos e não posso aceitar isto. Se eles conseguem fazer tanto barulho e ser ouvidos, nós também conseguiremos defender os nossos direitos."

Aos 17 anos militante, aos 18 candidato na lista do PDC na freguesia de ThônexLink externo, foi eleito na primeira campanha que fez e é membro do Conselho Municipal há dois anos e meio. Na atividade política não esquece a ligação à comunidade portuguesa, mas frisa que é suíço. "Tento ser o elo entre a comunidade portuguesa e as nossas instituições, porque conheço os problemas da comunidade, mas represento todos os eleitores, independentemente das suas origens e sem prioridade para os portugueses." 

"É na Suíça que me sinto em casa"

Os avós vivem em Portugal, na região de Trancoso, de onde os pais emigraram – o pai no final da década de 80 e a mãe no início dos anos 90. Bruno e o irmão de 12 anos nasceram na Suíça. "Gosto muito de Portugal, mas antes de ser português sou suíço. Vivi aqui toda a minha vida e nunca foi meu objetivo viver em Portugal."

Os pais também não pensam ir viver para Portugal porque viveram a maior parte das suas vidas na Suíça e têm os filhos cá. Isto, apesar de terem a restante família toda em Portugal, com exceção de um tio. Para Bruno, este assunto está arrumado: "A família é muito importante, mas a vida não é só a família. Vemo-nos sempre nas férias, falo todas as semanas com os meus avós, mas temos cá toda a nossa vida profissional e escolar." Considera que em Portugal "as pessoas vivem mais felizes, pois cultivam mais os laços humanos", enquanto "aqui domina um tipo de vida individualista que a longo prazo custa a suportar", mas é na Suíça que se sente em casa.

A maior parte dos seus amigos são "suíços filhos de suíços". Recorda algumas situações quando foi apontado como "filho de portugueses", mas acrescenta que tais atitudes são "sinal de má educação de quem deseja provocar, não vêm de pessoas responsáveis."

Empurrado para a política pela xenofobia

Depois de quinze anos na comuna de Chêne-Bourg, a família mudou-se para Thônex, onde havia uma associação de jovens – o Parlamento dos jovens de Thônex. Não era uma organização política, mas sim uma estrutura associativa que permitia aos jovens exercer pressão sobre os eleitos locais para poderem organizar festivais de música no verão ou defender projetos na Câmara Municipal. O ponto de viragem viria a seguir: "Tinha 16 ou 17 anos quando começaram a surgir sinais de uma crescente xenofobia na Suíça, promovido pelo partido de extrema-direita, a UDC. Foram votadas várias leis que atacavam frontalmente os estrangeiros, incluindo aqueles que como eu já pertencem à segunda ou terceira geração." 

Bruno percebeu que estas iniciativas políticas eram uma ameaça real e que era necessário organizarem-se para defenderem os seus direitos. Decidiu entrar na política e começou a insistir com os meus pais para que pedissem a nacionalidade suíça para eles e para os dois filhos. "Inscrevi-me no PDC em Thônex ainda antes de ter a resposta definitiva das autoridades sobre a nacionalidade."

Encorajar a participação política

Atualmente é membro da assembleia municipal em Thônex e líder da juventude do PDC no cantão de Genebra. Preocupa-o o fraco envolvimento da juventude suíça na política, com a participação a rondar os 25%". Constata que, como noutros países, os jovens estão desiludidos com a política e considera que uma melhor comunicação poderia ajudar: "Os processos políticos têm de ser explicados de forma mais clara. É importante que os jovens entendam que as decisões políticas têm influência nas nossas vidas e que é através do envolvimento político que terão possibilidade de modificar os processos."

Gostaria igualmente de conseguir aumentar a participação da comunidade portuguesa na política. Na sua opinião, a pouca participação dos portugueses na política não se explica apenas com desinteresse. Diz que muitas das pessoas com quem tem falado dizem que gostariam de votar, mas que é demasiado complicado: "Antes de haver falta de vontade, há o desconhecimento das pessoas. O processo não é suficientemente explicado aos eleitores. Quando os meus pais obtiveram a nacionalidade suíça, se não fosse eu a ajudá-los, eles não saberiam como votar. Foram depois eles que explicaram aos amigos deles, que também não sabiam."

Bruno tem mais combates na agenda. Quer "mudar a imagem de país racista que cada vez mais tem a Suíça no exterior", uma imagem que considera muito injusta, pois "o povo suíço não é nada assim, é um povo extraordinário, muito aberto e muito acolhedor." Ao mesmo tempo, frisa que acredita no valor do projeto europeu, defende que a Suíça não deve viver isolada e de costas voltadas à União Europeia: "Há problemas a resolver na UE, mas os discursos populistas e simplistas estão longe da realidade."

Não vai ser candidato nas eleições para o governo regional em 2018. A sua meta são as autárquicas em 2020, quando será candidato na freguesia. Entretanto aposta, enquanto líder da juventude do PDC, em conseguir colocar no meio dos deputados do PDC no parlamento cantonal de Genebra alguns dos membros jovens do partido. "É importante fazer o rejuvenescimento do partido, até porque o peso dos jovens tem aumentado e essa é a imagem real do partido no terreno. Temos jovens entre os 20 e 25 anos com competências e capacidades à altura das exigências." 

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