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A ‘Ndrangheta causa preocupação na Suíça

Um dos chefes da 'Ndrangheta, Domenico Oppedisano, preso em 13 julho em Reggio Calabria, sul da ltália.

(Keystone)

O braço mais sangrento da máfia calabresa, a Ndrangheta, não se limita mais a lavar seus capitais na Suíça, mas também mantém uma parte de suas atividades no país.

É o que demonstra um relatório preocupante feito por um juíz de instrução, após oito anos de investigação, e entregue ao Ministério Público Federal (MPS, na sigla em francês).

Há exatamente uma semana, em uma operação sem precedentes na Calábria e na Lombardia, a Justiça e a polícia italiana prenderam 300 pessoas suspeitas de pertencer à máfia calabresa, a ‘Ndrangheta. Uma ou várias células desse braço do crime organizado seriam ativos na Suíça.

Um relatório do juiz de instrução federal Jacques Ducry entregue ao Ministério Público Federal demonstra que essa temida organização "exerce atividades criminais principalmente no Ticino (sul) e em Zurique, que vão além da simples lavagem de dinheiro."

Ao final de quase oito anos de investigação, feita em colaboração com a polícia antimáfia de Milão, Ducry entregou seu relatório de 150 páginas ao Ministério Público Federal (N.d.R.: chamado na Suíça de Ministério Público da Confederação – MPC).

Ciclo criminal completo

O documento – que não foi divulgado – visa um cidadão ítalo-suíço suspeito de ter orquestrado tráficos de armas e drogas na Suíça e de ter lavado o dinheiro desses crimes através de empresas fictícias e de contas bancárias suíças. Outras 30 pessoas também são citadas como suspeitas por Ducry.

O cidadão binacional no centro desse caso encontra-se em julgamento em Milão e poderá brevemente ser julgado também no Tribunal Penal Federal suíço (FPF) por supostos crimes cometidos em vários cantões suíços.

Se o relatório de Ducry acarretar um ato de acusação do MPC e o suspeito for condenado, esse caso provaria a entrada em força da ‘Ndrangheta em território suíço para um ciclo completo de atividades criminais e não somente para lavar dinheiro na praça financeira suíça.

Temores concretos

O procurador italiano antimáfia Piero Grasso não considera que a máfia exporte realmente suas atividades criminais e sua violência para fora da Itália. "Não existe um chefe que exerça seu comando a partir do estrangeiro", declarou quando da recente operação de polícia na península.

No entanto, os fatos parecem não dar razão ao respeitado magistrado. Em Zurique, onde o principal protagonista das investigações do juiz Ducry também era ativo, um outro caso inquietante foi recentemente revelado.

Em fevereiro último, a televisão suíça de língua italiana divulgou um documentário sobre a presença da ‘Ndrangheta na maior cidade suíça.

A reportagem, relatando fatos ocorridos em 2003, aborda a surpreendente bancarrota de duas empresas financeiras desconhecidas pertencentes a um grupo calabrês, na quais 1700 pequenos poupadores perderam tudo.

O caso, que ainda não foi a julgamento, provavelmente provocou a morte misteriosa, em Zurique, de um jovem italiano casado com uma suíça. A polícia concluiu que foi um suicídio, mas o documentário afirma que o Ministério Público de Zurique subestimou a gravidade do caso.

Perigo real

"Minimizar", "subestimar", essas palavras sempre se repetem entre os especialistas italianos do crime organizado, referindo-se às autoridades suíças. É o caso, por exemplo, do procurador especial de Varese, Agostino Abate, que já alertou para o problema várias vezes. "Quando constatamos a presença da máfia, geralmente já é tarde demais", declarou à swissinfo.ch, meses atrás.

Mas, pouco tempos depois de assumir o cargo, Michael Perler, novo chefe da Divisão principal da Polícia Judiciária Federal (PJF), falava da presença de atividades mafiosas na hotelaria, gastronomia e construção civil e se dizia inquieto frente à expansão das atividades da ‘Ndrangheta na Suíça.

Pior ainda, atos de violência ligados às atividades mafiosas podem ocorrer na Suíça. Em Duisburg, na Alemanha, em 2007, um acerto de contas provocou a morte de quatro pessoas.

Jacques Ducry diz que, "cedo ou tarde, o mesmo vai ocorrer na Suíça , e só podemos esperar que não haja mortos", afirma o juiz de instrução, visivelmente preocupado.

A dois passos da fronteira

Se a máfia tem suas raízes na Calábria, é na rica Lombardia, às portas da Suíça, que ela se reforçou nos últimos anos. A ‘Ndrangheta escolheu a metrópole milanesa e sua região de 10 milhões de habitantes para deslocalizar grande parte de suas atividades, especialmente para ganhar a concorrência das grandes obras da Exposição 2015.

Diz-se que também está muito ativa no setor de saúde, onde teria infiltrado seus membros. O mesmo ocorreria com o controle do mercado de frutas e legumes, o Ortomercato.

Reputada como a mais secreta das organizações criminosas, sua organização horizontal com clãs familiares (as ‘ndrine), fragmentada e de grande flexibilidade, tornando-a quase impenetrável.

Ao contrário de outras máfias, como Cosa Nostra ou Camorra, a ‘Ndrangheta praticamente não tem dissidentes. Geralmente unidos por laços familiares, seus "homens de honra" emudecem em nome da
l’omertà (a lei do silêncio) quando são presos. Isso complica o trabalho de investigação e só agora começa a ser decifrado o seu organograma.

Problemas a vista

Se a justiça italiana conseguiu talvez decapitar parcialmente a ‘Ndangheta na Suíça, a luta contra o crime organizado é difícil, de acordo com Paulo Bernasconi, antigo procurador do cantão do Ticino (sul).

Atualmente professor de direito e advogado, ele considera que o novo Código Penal suíço, que entrará em vigor em 2011, é um verdadeiro "festival para os delinquentes". Julga que é "indulgente demais", ao facilitar a prescrição de certos crimes, o que vai atrair as máfias.

O juiz Ducry também está preocupado com as dificuldades que o novo código terá na colaboração com as autoridades de outros países. "Os criminosos é que vão aproveitar."

Nicole della Pietra, swissinfo.ch
(Adaptação: Claudinê Gonçalves)

Plataforma suíça

International. Ramificada na Alemanha, Canadá e Austrália, a ‘Ndrangheta também atua na Suíça.

Acusado.Um acusado em julgamento em Milão e personagem central da organização mafiosa poderá brevemente comparecer diante do Tribunal Penal Federal, em Bellinzona (sul). Ele e outras 30 pessoas são suspeitas de tráfico de armas, de drogas e lavagem de dinheiro.

Investigação. Um relatório após quase oito anos de inquérito desse caso feito pelo juiz de instrução federal Jacques Ducry, em colaboração com a polícia antimáfia de Milão, foi entre ao Ministério Público Federal.

Processo? O MPF vai provalmente pronunciar um ato de acusação, que levaria a processo por crime organizado diante do Tribunal Penal Federal (TPF).

Território suíço. Não é a primeira vez que clãs e organizações mafiosas têm atividades na Suíça. Foi o caso, por exemplo, da Pizza Connection, em meados dos anos 80, e do caso dos irmãos Magharian e da Libano Connection, no final dos anos 80

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PODEROSA

A ‘Nrangheta é rica e poderosa. Especialistas calculam seu faturamento anual em 44 bilhões de euros.

Para Roberto Saviano, escritor e jornalista especializado na máfia e autor do livro
"Gomorra", sobre as atividades da máfia napolitana, o montante global do faturamento anual das máfias, somente para a Itália, seria de 100 bilhões de euros.

A ‘Ndrangheta detém o monopólio do tráfico de cocaína na Europa. A organização se associou aos principais barões da droga na América Latina.

Eles fazem transitar todo ano toneladas de cocaína pela África Ocidental antes de inundar a Europa e a Suíça, onde o consumo de cocaína aumentou de maneira exponencial nos últimos cinco anos.

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