Há trabalho de sobra nos campos

Colheita de aspargos em Diepoldsau, no cantão de St. Gallen, em 1º de abril de 2020. Keystone / Gian Ehrenzeller

Em meio à crise do coronavírus, desempregados ou pessoas em desemprego temporário podem ajudar nas colheitas na Suíça. Agricultores lançam portais, onde ofertas de trabalho são acessíveis a qualquer um. Porém avisam: o trabalho é duro. 

Este conteúdo foi publicado em 08. abril 2020 - 15:30
swissinfo.ch

A primavera chegou. O sol já nasce mais cedo e as temperaturas sobem com rapidez pela manhã nas plantações da Jucker Farm em Rafz, uma cidadezinha localizada na região noroeste de Zurique. Os brotos de aspargos estão ainda cobertos pela terra, à espera dos colhedores. Porém, esse ano, muitos ainda não chegaram. "Uma grande parte deles ainda está nos seus países, esperando as fronteiras voltarem a abrir", explica Nadine Gloor, chefe de marketing dessa fazenda que emprega 150 pessoas na produção de aspargos, abóboras, e em dois restaurantes e três lojas de produtos agrícolas. 

Conteúdo externo

A agricultura suíça depende da mão-de-obra estrangeira, originária em grande parte de países do Leste europeu ou de Portugal. Segundo as estatísticas do Departamento Federal de Migração (SEM, na sigla em alemão), o setor de agricultura e silvicultura empregava pouco mais de 18 mil trabalhadores temporários em 2019.

É o caso da fazenda Jucker Farm. Nelas, 80 colhedores vêm da Polônia e Romênia e já estariam no campo para colher aspargos e morangos. Porém, a evolução da epidemia do novo coronavírus na Suíça fez com que o governo fechasse as fronteiras com a Itália, Alemanha, Áustria e França entre 13 e 16 de março, países através dos quais a mão-de-obra estrangeira precisa atravessar para trabalhar nas colheitas na Suíça. Além disso, há o medo para muitos estrangeiros de saírem e, ao retornar, terem de ficar em quarentena obrigatória, uma regra vigente em Portugal desde 20 de março. 

A situação não é ainda tão dramática para a família Jucker. "Alguns dos trabalhadores já estavam na Suíça e, além disso, estamos recebendo todos os dias chamadas de pessoas interessadas em trabalhar conosco", afirma Gloor. O interesse é inesperado, mas se explica pela situação atual no mercado de trabalho: segundo dados oficiais, o vírus SARS-CoV-2 provocou o desemprego temporário total ou parcial de um quarto da mão-de-obra na Suíça, 1,3 milhões de pessoas.

Ao ver os legumes frescos ainda presos na terra, os agricultores foram à ofensiva. Empresas do setor de gastronomia, a Associação Suíça dos Produtores de Frutas, de Legumes e a consultoria de recursos humanos Coople, lançaram um portal com ofertas atuais de empregos nos campos. O objetivo é direcionar a mão-de-obra hoje inativa no país, seja na gastronomia, comércio ou outros setores, para o produtor rural. Outros portais também estão funcionando da mesma forma: Agrix, Agrarjobs e Zalp.

Porém, quem acha que colher aspargos é uma atividade fácil, se engana. "É um trabalho duro, que precisa ser feito sob sol, chuva ou qualquer tempo. Além disso, o ajudante precisa saber também como espetar na terra para não estragar o broto. Por isso não podemos pegar qualquer um", explica Gloor. Além disso, o pagamento não é dos mais atrativos. O produtor paga 14,50 francos por hora ao trabalhador e a jornada semanal é de aproximadamente 55 horas.

A esperança do setor é que o governo federal ajude a tornar mais atraente o emprego no campo. "Esperamos medidas nessa situação excepcional para subvencionar os salários e torná-los mais compatíveis com o mercado. Assim seria possível empregar 315 mil pessoas que foram atingidas pelo desemprego temporário e que poderiam aproveitar essa oportunidade", afirmou Viktor Calabrò, presidente da Coople, na Revista da Hotelaria e Gastronomia.

O perigo de contaminação também não pode ser ignorado. O governo federal instituiu diversas medidas para garantir que o trabalho na colheita ocorra respeitando as medidas de segurança, como o distanciamento de dois metros e a disponibilização de meios de higiene pessoal, como lavagem regular das mãos. Alguns produtores, como os Juckers, adicionam medidas extras. "Nossos ajudantes moram durante a colheita no próprio local de trabalho e observamos que grupos durmam e trabalhem juntos como uma família, para limitar os contatos", afirma Gloor. 

Os agricultores suíços não sabem quanto tempo essa situação irá durar. "Tudo depende se haverá uma normalização a partir de 19 de abril", declara Loïc Bardet, diretor da Associação de Grupos e Organizações da Agricultura na Suíça francófona (AGORA) referindo-se a data limite fixada pelo governo para o fechamento do comércio, restaurantes, bares e locais de lazer. "Se o isolamento continuar por mais tempo, os agricultores vão precisar encontrar alternativas para realizar as colheitas". 

O governo suíço ainda não vê riscos para o aprovisionamento do país com alimentos. "Não acredito que haverá falta de trabalhadores temporários para as colheitas. Ainda é cedo para dizermos como a situação vai evoluir", afirma Florie Marion, porta-voz do Ministério de Agricultura (BLW), ressaltando que o governo lançou diversas medidas para ajudar a economia, incluindo os agricultores. Dentre elas, prolongando a duração do visto de trabalho temporário de três para seis meses.

Este artigo foi automaticamente importado do nosso antigo site para o novo. Se há problemas com sua visualização, pedimos desculpas pelo inconveniente. Por favor, relate o problema ao seguinte endereço: community-feedback@swissinfo.ch

Partilhar este artigo