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Espécies alpinas lutam para acompanhar crise climática

Polyommatus damon, uma espécie de borboleta de baixa e média altitude, é cada vez mais observada nos Alpes. (Photo: Yannick Chittaro) Yannick Chittaro

Pesquisa mostra que animais e plantas estão se adaptando e migrando para outras áreas devido ao aquecimento global, mas não rápido o suficiente.

Este conteúdo foi publicado em 09. junho 2021 - 17:30

Nos Alpes suíços, a temperatura média aumentou em 1,8 graus Celsius desde 1970. Para sobreviver a condições mais quentes, muitas espécies alpinas são forçadas a procurar regiões montanhosas mais frias e altas.

Uma equipe de cientistas europeus – liderada pelo Instituto Federal Suíço de Pesquisa para Floresta, Neve e Paisagem (WSL) – examinou mais de perto esse fenômeno. Recentemente, os pesquisadores publicaram um relatório abrangente sobre as mudanças e movimentos sazonais de mais de 2.000 espécies de plantas, animais e fungos nos Alpes ao longo dos últimos 50 anos.

“O fato de muitas espécies estarem migrando para altitudes mais elevadas é essencialmente uma boa notícia, porque pelo menos elas estão tentando se adaptar”, explica Yann Vitasse, especialista em ecologia florestal da WSL.

Yann Vitasse, pesuisador WSL WSL

“Mas a maioria das espécies não consegue subir os 60 a 70 metros de altitude por década que elas precisariam percorrer para continuar vivendo sob suas condições climáticas ancestrais.”

Os cientistas descobriram que, nos últimos 50 anos, plantas, animais e fungos subiram em média 18 a 25 metros de altitude por década, mas com diferenças significativas entre grupos de espécies.

A única opção é subir

Insetos terrestres, borboletas, besouros e répteis foram os que melhor enfrentaram as mudanças de temperatura e se deslocaram até mais longe, segundo os pesquisadores (veja gráfico abaixo). Os insetos terrestres subiram até 90 metros de altitude por década, enquanto os répteis se deslocaram 63 metros durante o mesmo período.

As espécies que menos migraram foram as de insetos semiaquáticos e anfíbios, como sapos, cujos ambientes naturais geralmente são pântanos, rios e lagos.

Deslocamento de espécies em altitude ideal nos Alpes (metros por década) para o período 1980-2020. Yann Vitasse, WSL

Árvores e arbustos também sobem até 33 metros em curtos períodos de tempo.

“Isso foi bastante surpreendente, pois as árvores têm um ciclo de vida mais longo para se reproduzir. Achávamos que demorava muito tempo para que elas se instalassem em novos locais, mas no final vimos que elas se moveram bastante rápido e se estabeleceram numa altitude muito mais elevada”, diz Vitasse.

Mas isso ainda não é o suficiente para acompanhar o ritmo das mudanças climáticas. Para outros grupos, como pássaros, samambaias e fungos deterioradores de madeira, a mudança de altitude tem sido muito mais lenta – menos de 15 metros de elevação por década.

“Algumas aves também conseguem subir de altitude, especialmente até seu limite altitudinal superior. A distância que elas migram depende da mobilidade da espécie, de seu habitat e de seu microclima”, afirma Vitasse.

“Fiquei surpreso que as espécies tenham conseguido migrar tão rapidamente, mesmo que elas ainda sejam muito mais lentas do que a mudança climática”, comentou o cientista da WSL. “Hoje, se você quer encontrar o mesmo clima dos Alpes nos anos 70, você tem que escalar 300 metros de altitude. Tudo isso é muito rápido para animais que evoluíram ao longo de milhares de anos em condições climáticas mais frias.”

A primavera chegou

As geleiras suíças derretidas são provavelmente o sinal mais visível de que os Alpes estão ficando mais quentes. Desde 1850, a massa das geleiras alpinas diminuiu em cerca de 60%, e o derretimento tem se acelerado nos últimos anos.

A antecipação de fenômenos como o derretimento de neve nas montanhas e o surgimento de vegetação, bem como dias de primavera cada vez mais quentes que podem atrapalhar o equilíbrio da flora e da fauna, também são consequências de temperaturas mais altas.

A equipe de pesquisadores descobriu que plantas, répteis, aves migratórias e insetos terrestres, como borboletas e gafanhotos, reagiram a essas mudanças antecipando suas atividades primaveris – como a floração de plantas – em uma média de 2 a 8 dias por década. A consequência disso foi vista nesta primavera, no cantão Valais, quando as geadas e a floração precoce de damascos e outras árvores frutíferas destruíram as colheitas.

Água é pulverizada em pomares de damascos para proteger os botões floridos com uma fina camada de gelo em Martigny, cantão do Valais, Suíça, em abril de 2019. © Keystone/ Valentin Flauraud

Em relação a outros animais, como pássaros, anfíbios e insetos semiaquáticos (especialmente libélulas), os pesquisadores não encontraram nenhum ou apenas pequenos deslocamentos temporais em suas atividades primaveris.

Fora de sincronia

Para o pesquisador da WSL, essas grandes discrepâncias entre espécies são problemáticas: “Esse desenvolvimento pode levar a um desencontro das diferentes espécies, que não conseguiriam mais coordenar cronologicamente suas atividades umas com as outras, o que ameaça a sobrevivência a longo prazo da espécie como parte de um ecossistema”.

Ele usa o exemplo de uma lagarta que precisa nascer no momento certo para comer folhas frescas de um carvalho.

“Se a lagarta surge tarde em relação à produção de folhas, estas já terão produzido tanino ou outras defesas químicas para evitar que a lagarta as coma. Então, se houver menos lagartas, a vitalidade dos filhotes de pássaros pode ser afetada. Cada desencontro pode causar uma reação em cadeia no ecossistema”, explica o pesquisador.

Existe o risco de que espécies alpinas fora de sincronia, incapazes de subir mais alto ou de enfrentar a concorrência mais acirrada no topo das montanhas, morram nos próximos anos?

Vitasse disse que os cientistas da WSL haviam ficado surpresos ao verem certas espécies ameaçadas conseguindo coexistir com espécies de altitudes inferiores que haviam migrado. Mas, com o tempo, outras vegetações podem acabar sendo uma ameaça para plantas alpinas, por exemplo.

Em seu trabalho, a equipe de pesquisadores escreve que “as interações entre as espécies são suscetíveis de mudar em múltiplos níveis tróficos através de desencontros fenológicos e espaciais”. Fica nítido que são necessários estudos mais aprofundados, apoiados pelas observações de cidadãos, para melhor compreender e antecipar as mudanças no ecossistema, concluem os cientistas.

Adaptação: Clarice Dominguez

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