O Fabuloso Destino de Anita Guidi

Anita Guidi à beira de um rio na Amazônia. swissinfo.ch

Nascida em 1890, a pintora suíça Anita Guidi sonha em conhecer a Amazônia e seus habitantes. No começo da Segunda Guerra, ela deixa a segurança da neutralidade de seu país para uma expedição que vai mudar para sempre a sua vida. Uma galeria de arte na Suíça presta agora uma homenagem à artista e relembra a sua história.

Este conteúdo foi publicado em 11. setembro 2020 - 12:00
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O dia ensolarado convida mais a ficar do lado de fora do que dentro de um espaço fechado. A pequena galeria de arte Osmoz, no centro de Bulle, na região de Gruyère, embarca seus visitantes em uma aventura de um outro tempo, a milhares de quilômetros dali.

“É melhor pôr a máscara, como houve um surto de Covid na cidade há poucos dias, a polícia está passando para controlar”, diz Julien Scheuchzer, dono da galeria. Dentro do espaço, os visitantes com suas máscaras faciais parecem restauradores de arte em pleno trabalho. E é exatamente esse o objetivo do galerista, restaurar a lembrança do que resta da aventura que a pintora Anita Guidi deixou gravada em suas telas.

“Ela nasceu em Fribourg em 1890 e foi provavelmente a primeira mulher pintora de verdade no cantão. Depois de ser aluna das freiras ursulinas, ela se formou nas artes com o grande pintor suíço Joseph Reichlen. Depois ela foi para o exterior para aperfeiçoar sua técnica. Na Itália, mas também Londres, Paris e Belim”, conta Scheuchzer.

Vários jornais da época, em francês ou alemão, contam a aventura da pintora suíça. swissinfo.ch

Adeus velha Europa

A guerra explode em 1939 e ela diz para si mesma que não há mais tempo a perder para realizar um velho sonho: descobrir o Novo Mundo e os seus primeiros habitantes, lá aonde tudo continuava intacto, nos confins da Amazônia.

A viagem para o Brasil vinha sendo preparada já antes da guerra começar, principalmente com o dinheiro da venda de seus quadros. Anita Guidi também vende todos os seus bens, e com o passaporte e a passagem em mãos, parte para Lisboa, de onde sairia o seu navio em direção ao Rio de Janeiro. A bordo, milhares de passageiros a mais do que o normal davam as costas à velha Europa para procurar asilo na América do Sul.

"Meus amigos, os índios". Recorte de um jornal contando a aventura de Anita Guisi no Brasil. swissinfo.ch

Em um dos recortes de jornais da época que relatam a aventura da artista, Guidi fala de sua chegada ao Rio de Janeiro, da mudança do frio do inverno europeu para o calor do verão no Hemisfério Sul. No entanto, uma outra mudança deixa a pintora suíça perplexa. Durante a viagem, Anita conta ter conversado com muitos passageiros que nos primeiros dias falavam “hochdeutsch”, o alemão padrão, mas que perto da chegada mudaram para o francês. “Pessoas que vinham do Terceiro Reich, mas viajavam com passaporte suíço”, diz.

“Na Europa a guerra já havia começado, no Brasil tudo parecia paradisíaco e calmo”, lembra Guidi.

Longa escala

Anita Guidi se instala inicialmente no Rio de Janeiro, onde ela adquire um apartamento e instala seu ateliê. Seu trabalho tem um grande sucesso e seus quadros encontram rapidamente compradores. É com esse dinheiro que a aventureira suíça pretende financiar sua expedição à Amazônia.

Essa estadia no Rio de Janeiro, a então capital do Brasil, permitiu que Anita conhecesse pessoas indispensáveis à realização de seu projeto. A principal delas foi sem dúvida o suíço Armin Edwin Caspar, que já havia realizado expedições de pesquisa na Amazônia para o governo brasileiro, tendo trabalhado diretamente com o marechal Cândido Rondon, famoso explorador brasileiro.

Caspar providencia as autorizações necessárias para que a artista suíça entre em território indígena. Ele também ajuda com medicamentos necessários para a região, além de acompanhá-la como guia.

Anita Guidi prepara uma enorme caixa metálica com todo o material de pintura, compra vários rolos de tela, mais de cem metros, para os quadros que pretende pintar durante a expedição. Assim, após quatro anos de espera e preparação no Rio de Janeiro, a aventureira está pronta para partir novamente. Ela vende, mais uma vez, sua moradia e tudo que não julga extremamente necessário para a viagem e voa em direção a Belém do Pará.

Duas dúzias de quadros

Lá chegando, Anita precisa esperar um mês até conseguir todas as autorizações que as autoridades locais dizem ser necessárias para o sucesso da expedição. O governador do estado, tendo sido informado pela imprensa da vinda de uma pintora suíça, propõe à artista de passar o tempo pintando, e encomenda uma série de quadros dos bairros da cidade para o museu local.

No total, duas dúzias de quadros, a encomenda veio a calhar muito bem no financiamento da expedição. Anita recebeu ainda um jovem ajudante para carregar todo o material, além de um carro com motorista à sua disposição.

Guidi conta que provavelmente os moradores de Belém nunca tinham visto, até então, uma pintora trabalhando. Cada vez que ela montava seu cavalete, uma multidão se aglomerava em volta dela e era preciso a intervenção da polícia para que a artista trabalhasse livremente.

Anita Guidi pintando nas ruas de Belém do Pará. swissinfo.ch

Esta estadia ajudou a suíça a se aclimatar na região. E ela também conhece os terríveis mosquitos que serão seus companheiros inevitáveis de agora em diante.

De vários lados ela é aconselhada a abandonar seu projeto, os perigos envolvidos em tal aventura são pintados com as cores mais sombrias para que ela entendesse que uma mulher não deveria fazer, em nenhuma circunstância, tal viagem como planejada por ela. Mas Anita Guidi responde aos admoestadores com um sorriso, ela tem certeza que vai conseguir escapar de todas essas atrocidades.

Finalmente, essa espera termina com a chegada, do Rio, de Armin Caspar. Ele havia tirado férias indeterminadas e trazia tudo que era preciso para a viagem. No total, Anita Guidi realizou duas expedições à Amazônia antes de voltar à Suíça. Essa primeira durou dois anos, a segunda um ano.

Saudosa Maloca

A pintora aventureira morreu em 1978 sem deixar herdeiros. Sua história, contada em diversos artigos de jornais da época, já teria sido esquecida se não fosse a paixão de um dos admiradores de seus quadros. “Meu pai havia recebido um quadro da mãe da senhora Guidi quando esta estava no Rio de Janeiro. Mais tarde, meu tio falece e deixa um outro quadro ainda maior dela. Foi aí que eu comecei a querer saber um pouco mais quem era essa senhora Guidi”, conta Bernard Préel, hoje aposentado.

Cartaz de uma exposição de Anita Guidi realizada em Zurique. swissinfo.ch

“Pesquisei primeiro na internet, mas não achei nada. Fui então ao Museu de Arte e História de Fribourg, que realizou em 1949 uma grande exposição sobre a obra dela na Amazônia, e lá eles também não sabiam muita coisa, mas se interessaram em comprar um dos quadros”, diz Préel.

Um ano depois, Bernard Préel conhece um grande colecionador de quadros de Anita Guidi. “Minha mãe estava na mesma casa de repouso que o senhor Thurler, e uma vez, conversando com a senhora Thurler, ela me disse que tinha muitos quadros da Anita Guidi e não sabia o que fazer”, conta.

Além dos quadros, Jean Thurler havia guardado várias caixas com jornais e as sobras das exposições mais importantes que Anita havia realizado na época. “Fiquei emocionado com todo esse material e achei que alguma coisa devia ser feita para lembrar essa história extraordinária”, diz Préel.

Depois de voltar à Suíça, Anita Guidi continuou sua arte com temas regionais, retratos e naturezas mortas, antes de se aposentar e mudar para um chalé na região de Gruyère que ela batizou de “la Maloca”, em referência aos saudosos tempos passados no Brasil.

Anita em seu chalé "la Maloca". swissinfo.ch

Jean Thurler trabalhava, então, no Banco Cantonal de Friburgo e cuidava da parte financeira da artista. “Com a idade, ela não podia mais sair de casa e meu marido ia até o chalé para ajudá-la. Guidi pagava ele com seus quadros, o que encheu nossa casa deles”, conta a senhora Thurler, hoje com 83 anos.

Com a venda da casa, os Thurler procuram agora um local para guardar o acervo. Anita Guidi havia guardado 300 quadros na sua saudosa Maloca. A galeria de Bulle apresenta uma pequena mostra em homenagem à artista e aventureira até o dia 4 de outubro.


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