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Crise climática

Por que o degelo das geleiras nos afeta?

As geleiras alpinas podem desaparecer até ao final do século. As consequências serão sentidas não apenas nas montanhas da Suíça, mas em toda a Europa.

Este conteúdo foi publicado em 15. outubro 2020 - 10:45
Corinna Staffe (ilustração)

As geleiras estão derretendo, mas isto não é novidade: desde 1850, o volume dos geleiras alpinos foi reduzido em cerca de 60%. O que é surpreendente é o ritmo em que os "gigantes" dos Alpes estão encolhendo.

Em 2019, as perdas de massa glaciar atingiram "níveis recordes", diz a Academia Suíça de Ciências Naturais. Em apenas duas semanas durante o verão, 800 milhões de toneladas de neve e gelo foram perdidas, o que corresponde a um cubo de gelo com cerca de um quilômetro de diâmetro, observou Matthias Huss, responsável da Rede Suíça de Monitoramento de Geleiras (Glamos).

Apesar das temperaturas relativamente amenas no verão, mesmo 2020 "pode ser considerado um ano ruim para as geleiras", observa Huss.

Desde a era pré-industrial, a temperatura na Suíça subiu quase 2 graus, o dobro da média global. Se continuar a este ritmo, metade das 1500 geleiras alpinas, incluindo Aletsch, reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, desaparecerá nos próximos 30 anos.

E se nada for feito para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, todos as geleiras na Suíça e Europa correm o risco, segundo os cientistas, de ter desaparecido quase completamente até o final do século.

Desde 1864, a temperatura média na Suíça subiu 1,9 graus

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Será que o desaparecimento das geleiras, um fenômeno recorrente na história da Terra, embora por períodos mais longos, afetará negativamente o nosso futuro? É difícil de dizer. Isso certamente nos obriga a nos prepararmos para novos cenários. 

Na Suíça, um deles é o aumento do risco de desastres naturais, como inundações, fluxos de sedimentos e deslizamentos de terra. Os lagos que se formam dentro de uma geleira correm o risco de se espalharem subitamente pelo vale, destruindo cidades e infraestruturas. E à medida que a camada de gelo e permafrost se torna mais fina, as montanhas tornam-se mais instáveis. Regularmente, imagens de deslizamentos das encostas dos Alpes dão a volta ao mundo.

Com o derretimento dos geleiras, a Suíça está perdendo uma importante reserva de água que poderia garantir o consumo de água potável da população suíça por 60 anos. A Suíça continuará tendo água suficiente à sua disposição, mesmo que sua população aumente dos atuais 8,5 milhões para 10 milhões em 2050.

No entanto, será necessário manejar as precipitações de forma diferente - que se tornarão cada vez mais líquidas ao invés de neve - para evitar conflitos com a água, diz Paolo Burlando, professor de hidrologia e gestão da água do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique. A criação de novos reservatórios polivalentes nas montanhas, em áreas livres de gelo, poderia oferecer novas oportunidades para a produção de energia hidrelétrica e agricultura.

Mais problemática poderia ser a situação na Europa, em regiões localizadas a centenas de quilômetros dos Alpes suíços. Devido à menor contribuição da neve derretida e dos geleiras, o fluxo dos principais rios da Europa - Ródano, Reno, Danúbio e Pó - pode diminuir significativamente no verão.

Uma queda no nível dos rios e lagos tornará mais difícil a navegação fluvial e o transporte de mercadorias para a Suíça.

Para preservar um patrimônio de importância nacional que tem contribuído para tornar a Suíça conhecida no mundo, os cientistas iniciaram uma corrida contra o tempo. Em Morteratsch, no cantão dos Grisões, foi lançado um projeto para proteger a geleira com neve artificial, um sistema que, se bem-sucedido, também pode ser usado nos Himalaias e nos Andes.

Mas a ciência não pode fazer nada se as emissões de gases de efeito estufa aumentarem. Na Suíça, a luta para proteger os geleiras está se deslocando das montanhas para os salões da política e para as urnas. 

Registrada em novembro de 2019 na Chancelaria Federal, a iniciativa popular (projeto de lei levado à plebiscito após recolhimento de um número mínimo de assinaturas de eleitores) "Por um clima saudável" (Iniciativa Glaciar) exige que os objetivos do Acordo Climático de Paris sejam ancorados na Constituição helvética e que as emissões na Suíça sejam reduzidas a zero até 2050. O governo federal também pretende alcançar a neutralidade climática até meados do século. No entanto se posiciona contra à introdução de uma proibição geral de combustíveis fósseis e combustíveis combustíveis, como defendida pela Associação Suíça de Proteção Climática, que está por trás da iniciativa.

Adaptação: Alexander Thoele

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