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Annie Dutoit


“A Suíça é uma pluralidade de identidades”



Por Rodrigo Carrizo Couto




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Annie Catherine Dutoit é uma atriz e professora suíça. Nascida em Berna, capital suíça, e residente nos Estados Unidos, participou do festival “Setembro Musical”, em Montreux. Encontro em Lausanne com uma artista que começa a dar o que falar.

Annie Dutoit: A Argentina é um país que adoro e que para mim tem algo de mítico. (Rodrigo Carrizo Couto)

Annie Dutoit: A Argentina é um país que adoro e que para mim tem algo de mítico.

(Rodrigo Carrizo Couto)

Ela não é uma atriz como todas as outras, pois pode dizer “caiu na marmita” quando era pequena. É que Annie Dutoit é filha da legendária pianista argentina Martha Argerich e do grande maestro de orquestra suíço Charles Dutoit. 

swissinfo.ch: A senhora está em plena transição de carreira. Do mundo acadêmico ao do espetáculo. Está sendo difícil?

Annie.Dutoit.: É verdade que me sinto no meio de uma transformação. Mas, na realidade, o palco não é tão distante do meu trabalho como professora universitária. Eu penso que ser um bom professor implica ser um bom ator.

swissinfo.ch: É inevitável falar de seus pais

A.D.: Ter país como os meus foi o maior freio na hora de tentar uma carreira cênica. Dado que eles são verdadeiras estrelas, eu não me atrevia a mostrar meu trabalho. Como se eu não tivesse de também subir no palco. Porém, em Lugano, eles vieram me ver, o que é o mundo aos avessos, pois sou sempre eu que vou vê-los. Ficaram contentes e entendi que se posso atuar diante de meus pais, posso atuar diante que qualquer um. Foi uma experiência muito libertadora.

Annie Dutoit

Nace em Berna em uma família de músicos de fama internacional. Sua mãe é a pianista argentina Martha Argerich e seu pai renomado maestro suíço Charles Dutoit.

 Depois de passar sua infância na Suíça foi para os Estados Unidos, onde formou-se em Literatura e Jornalismo na Universidade de Princeton; depois doutorou-se em francês e Filologia Românica na Universidade de Columbia.

O foco de seu interesse acadêmico são as relações entre a França e a Alemanha nazista. Atualmente é professora na Universidade Estadual de Arizona, onde leciona francês História das Ideias.

Como atriz participou de peças de teatro sobre as obras de Stravinsky, Saint-Säens, Darius Milhaud e Ravel, entre outros. Apresentou-se nos Estados Unidos, Japão, Suíça, França e Polônia.

Nas comemorações do 70° aniversário da Segunda Guerra Mundial, participou de um evento em memória em memória das vítimas de Hiroshima, Nagasaki e da Shoah. É mãe de dois filhos e vive entre Genebra, Bruxelas e Arizona.

swissinfo.ch: Ter os pais que tem ajuda ou é um fardo?

A.D.: É um presente e uma cruz. Graças a eles pude crescer rodeada de gente extraordinária. Porém, ao mesmo tempo, é muito duro afirmar-se como indivíduo e encontrar sua própria voz com pais assim. Em parte, é para encontra meu caminho que fui para os Estados Unidos. Para provar que podia fazer minha vida longe da infância.

swissinfo.ch: Tem alguma anedota familiar que quer compartilhar com os leitores?

A.D.: Meus país estiveram casados cinco anos e graças ao casamento minha mãe é suíça. Mas não sei como fizeram para ficar juntos porque são muito diferentes. Meu pai é diurno, centrado em sua carreira. Minha mãe prefere seus amigos e longas conversas noturnas, o que demonstra sua natureza argentina. Eles se conheceram quando minha mãe tinha 17 anos, porém a relação deles começou mais tarde. Por vezes penso que foram mais amigos do que amantes. Depois de cinco anos de casamento, não houve rancor. Depois de assinarem o divórcio, para festejar foram ao cinema (risos).

swissinfo.ch: Nem todos os dias uma mulher e mãe de mais de 40 anos ousa mudar de carreira. Não dá vertigem?

A.D.: Não quero nem posso falar por todas as mães. Em minha opinião, quando nós mulheres temos filhos pequenos. Pode-se dizer que nos perdemos dentro da maternidade. Esquecemos de nós mesmas. Mesmo se meus filhos foram uma verdadeira revelação e eu os adoro, porém, minha vida consistia em ser mãe a 110%; em um dado momento me senti asfixiada. Portanto, a atual mudança de direção surge de uma necessidade vital profunda, que inclusive chegou a provocar que fiquem doente. Interpretei essa doença como uma mensagem de meu corpo dizendo-me que tinha chegado a hora de fazer o que eu realmente queria fazer: atuar, subir em um palco e evoluir em um entorno criativo. George Bataille disse: “Ter que ser capaz de chegar ao extremo para revolver-se”.

swissinfo.ch: A senhora tem uma identidade múltipla: suíça por nascimento, argentina por parte de mãe e estadunidense por escolha. Como vive essas culturas múltiplas?

A.D.: Nasci em uma família de artistas. Por definição, os artistas são cidadãos do mundo. Ademais, sou suíça e a Suíça é uma pluralidade de identidades. Não creio que exista um “ser nacional” suíço único e indivisível.

swissinfo.ch: Lhe proponho um jogo. Defina sua relação com seus três países. Comecemos com a Suíça.

A.D.: Nasci em Berna e me criei na periferia de Lausanne. Meu pai é suíço, como todos os seus ancentrais até onde temos memória.Com exceção de um ano em Londres, passei minha infância e adolescência na Suíça, Porém, não vivi como uma verdadeira suíça, pois a casa de meu pai ficava aberta o dia todo às visitas de amigos e artistas. Esse ambiente não é muito convencional na Suíça, mesmo se do lado de meus avós paternos absorvi o gosto pela comida tradicional do cantão de Vaud (risos).

swissinfo.ch: O que é a Suíça hoje para a senhora?

A.D.: É un exemplo. Me fascina a estabilidade de nossa democracia direta, sobretudo quando a comparo com o que vejo no resto do mundo. Creio que não conheço outro país com tantas línguas, interesses e culturas diferentes capaz de funcionar unido com tanta eficácia. Olhe o que ocorre na Bélgica ou na Espanha. Parece que, de repente, todos querem se separar. A Suíça é um país complexo e difícil de compreender do exterior. A caricatura do chocolate e dos bancos não serve para explicar-nos.

swissinfo.ch: Sigamos com a Argentina.

A.D.: Quando era bebê me levaram uma vez, mas nunca mais voltamos enquanto durou a ditadura militar. É um país que eu adoro e que para mim tem algo de mítico. Mas sou consciente que para os argentinos que devem viver a realidade a cada dia as coisas devem ser menos idílicas. Na Argentina me sinto bem porque me ajuda a entender a natureza de minha mãe, e, em parte a minha. Coisas como ficar consertando o mundo até as quatro da manhã ou ter sempre a porta aberta para os amigos. Ademais, tem essa coisa única de viver no divã do psicanalista. Coisas que não Suíça não são nada normais.

swissinfo.ch: Terminemos com os Estados Unidos.

A.D.: É uma cultura que eu gosto e que me deu asas. Podem ser ingênuos, mas isso é porque são uma cultura jovem. Minha mudança de carreira é muito mais fácil nesse contexto. Ali ninguém se assusta porque uma pessoa pode recomeçar uma carreira depois dos 50 anos. Isso ocorre por seu uma terra de imigração com poucas tradições, qualquer um pode reconstruir sua vida muito mais facilmente do que na Europa.

swissinfo.ch: Que projetos a esperam?

A.D.: Trabalho em um documentário sobre os “lugares esquecidos do Holocausto”. Me ocupo da narração e da pesquisa acadêmica acerca dos lugares onde ocorreu a Shoah e eu os nazistas conseguir apagar do mapa.

swissinfo.ch: Falar da “Shoah” é falar de suas raízes judaicas?

A.D.: Minha avó era judia, mas converteu-se ao catolicismo em Buenos Aires, dado que era complicado naqueles tempos viver plenamente seu judaísmo. Todos sabiam que ela era judia porque o pai dela era rabino. Me sinto próxima do judaísmo, porém não em seu aspecto religioso, mas cultural. Esse amor do conhecimento tão próximo dos judeus. Ainda me lembro de um momento comovente quando estive em Auschwitz com estudantes e um sobrevivente do Holocausto nos mostrava o lugar em que havia visto a mãe dele pela última vez. Eu me sinto responsável da transmissão dessa memória.

swissinfo.ch: Uma reflexão para terminar?

A.D.: Temos que acabar com essa ideia de que aos 40 anos somos velhos e que já não podemos mudar. Pode soar como otimismo americano, mas é verdade. Não me sinto bem sendo uma coisa só. Penso que as identidades múltiplas correspondem à sociedade moderna. O mundo dos meus pais já não existe. Quase ninguém dedica sua vida inteira a uma coisa só. Creio na diversidade, no nomadismo ... tanto das identidades culturais como profissionais, pois vivermos em um tempo de mudanças.

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Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch

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