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Brasil e Portugal


Marcos Assumpção canta poesias de Florbela Espanca na Suíça


Por Lourdes Sola


O cantor e compositor brasileiro Marcos Assumpção é um apaixonado por Florbela Espanca, renomada escritora portuguesa do século 20. Pela primeira vez, ele apresentou seu trabalho sobre a poetisa na Suíça, onde fez shows em Biel/Bienne e em Genebra. 

Marcos Assunção no Café Literário Pessoa, em Genebra. (Lourdes Sola)

Marcos Assunção no Café Literário Pessoa, em Genebra.

(Lourdes Sola)

De acordo com o cantor, uma reportagem brasileira sobre o lançamento de uma coletânea da poetisa portuguesa despertou seu interesse. “Não foi só a poesia dela que me atraiu, mas também sua história de vida: uma mulher muito à frente de seu tempo e com muito carisma”, conta. Os versos de Florbela Espanca mostravam a inquietação de uma mulher que vivia numa época em que a moral conservadora e religiosa imperavam. Mesmo assim, a poetisa enfrentou os preconceitos: casou-se três vezes e tinha uma postura libertária em relação ao amor e à vida.

Inquietações de Florbela

A história de vida de Florbela, marcada por muito sofrimento, foi a motivação de Marcos Assumpção para transformar em músicas alguns de seus poemas. O resultado está no CD A Flor de Florbela , lançado em 2009, e no livro Dois olhares sobre Florbela Espanca , em coautoria com Bernardo G.B.Nogueira. A poetisa foi rejeitada pelo pai, desejava ter filhos, mas sofreu vários abortos involuntários, divorciou-se várias vezes, perdeu um irmão num acidente de avião e tinha o diagnóstico de distúrbios psicológicos.

O músico passou a pesquisar a poetisa e tornou-se um especialista: reuniu um acervo,  graças a muitos sebos, capaz de revelar detalhes da sua personalidade. “Ela gostava de cozinhar e alguns livros reproduzem suas receitas”, conta. Consta também que ela adorava crisântemos e violetas. “Era uma pessoa sensível e suas cartas mostram que ela sofreu muito por não poder ter filhos e com o preconceito da época”, diz.

Por isso ele quis divulgar o trabalho dela no Brasil. “Minha intenção foi mostrar a poesia dela”, explica.

Música brasileira para poesia portuguesa

Marcos Assumpção apresentou-se duas vezes em Genebra. Primeiro, no último salão de livros e de imprensa ; depois, no Café Literário Pessoa. Nos dois lugares, cantou para um público que conhece os versos e a vida de Florbela Espanca. Amar, O Fado, e Mentiras  foram algumas das músicas apresentadas a um público majoritariamente lusófono - portugueses, brasileiros, angolanos e cabo-verdianos.

“Esta foi a primeira vez que apresentei meu trabalho sobre Florbela na Europa e foi muito emocionante”, conta. De acordo com ele, muitos portugueses estranham o fato de um brasileiro musicar versos lusitanos.  “Acham que poderia musicar Drummond, por exemplo. Compus para os versos de Florbela porque realmente me apaixonei por eles e por ela”, explica.

Cantar Florbela em Portugal

Em sua turnê europeia, Marcos Assumpção apresentou-se também em Matosinhos, cidade em que Florbela viveu grande parte de sua vida e morreu, em 1930, na terceira tentativa de suicídio. Ele aproveitou para continuar sua pesquisa sobre a poetisa. “Pude visitar o acervo da biblioteca da universidade, onde estão as cartas e outros documentos dela”, conta.  “Uma coisa é ler a carta no livro, outra é ver a letra dela num pedaço de papel como vi: uma carta no verso de uma nota promissória portuguesa”, explica. “Agora conheço a caligrafia de Florbela”, brinca.  

Para muitos especialistas, Marcos Assumpção foi ousado de musicar poemas da escritora. “Acho que só percebi minha ousadia depois que fiz o cd”, conta. “Eu não tinha muita pretensão com o trabalho: só queria mostrar a obra dela”, diz.

Depois de algumas perguntas dos alunos e pesquisadores, o cantor mostrou que estudou muito para produzir um trabalho à altura da poesia de Florbela. “Foi interessante discutir com pessoas que conhecem tanto ou mais que eu a poetisa”, conta.

Fado e a música brasileira

Durante o show, voz e violão, o cantor apresenta um repertório de música brasileira que passa por “Roda-Viva”, de Chico Buarque; As velas do Mucuripe, de Raimundo Fagner; ´Aguas de Março, de Tom Jobim ; Não chores mais , de Gilberto Gil , entre outras.

Ao apresentar as poesias de Florbela, o cantor explica alguns detalhes de sua vida. “Mentiras”, por exemplo, foi uma poesia em que ela percebia as traições de seu primeiro marido. “Tu julgas que eu não sei que tu mentes!/Quando o teu doce olhar pousa no meu?/Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?/Qual a imagem que alberga o peito teu? /Ai, se o sei, meu amor!/ Eu bem distingo/ O bom sonho da feroz realidade.../Não palpita d’amor, um coração/Que anda vagando em ondas de saudade!”.

“Amar”, um dos poemas mais conhecidos de Florbela, foi escrito em seu terceiro casamento, mas ela teria tido outros relacionamentos com um médico e um pianista.

“ Eu quero amar, amar perdidamente!/ Amar só por amar: Aqui...além.../ Mais Este e Aquele, o Outro e toda gente.../ Amar!Amar! E não amar ninguém!”

De volta ao Brasil, Marcos Assumpção continua sua turnê com o novo CD, Encantamento. Onde quer que se apresente, leva consigo o encantamento por sua musa inspiradora, Florbela. 

Um pouco mais

Florbela Espanca morreu em Matosinhos, Portugal, em 1930. Viveu apenas 36 anos e transformou seus dramas pessoais em poesia, geralmente em forma de soneto. Escreveu também contos, um diário, epístolas, traduziu romances e colaborou para diversas revistas e jornais. Teve uma história de vida conturbada – seu pai só a reconheceu como filha 18 anos após sua morte – e sua poesia evidencia o erotismo, a feminilidade e sua crença panteísta. Era considerada muito à frente de sua época.  

Marcus Assumpção é de Niteroi, Rio de Janeiro, tem 49 anos. É músico (violão, piano e guitarra), compositor, cantor e escritor. Tornou-se mais conhecido em 1995, quando participou do projeto Novo Canto, em que trabalhou em parceria com Raimundo Fagner.

No salão do livro de Genebra, apresentou-se no estande Varal do Brasil, que mostrou o trabalho de 38 autores e 200 títulos em português. Dentre eles, um grupo da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, com seis autores. 

http://varaldobrasil.com

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