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Bienal 2016


A arte da inteligência ambiental


Por Guilherme Aquino


Uma suíça e um brasileiro desbravam a Selva Jurídica. A obra artística é uma das principais atrações da maior exposição da América do Sul, a Bienal de Artes de São Paulo. Ela revive a floresta como pessoa jurídica de uma nação, através da representação artística.

Amazônia equatoriana: origem de um conflito e da obra exposta na Bienal de São Paulo. (cortesia)

Amazônia equatoriana: origem de um conflito e da obra exposta na Bienal de São Paulo.

(cortesia)

A edição da Bienal deste ano propõe o tema “Incerteza Viva” para questionar a presença da natureza, em suas diversas formas, nas obras de arte contemporânea e vice-versa. A artista suíça Ursula Biemann bate a trilha da transformação da natureza viva (e morta, em leitura artística) em natureza jurídica, ou seja, o reconhecimento legal dos direitos da floresta diante das ameaças dos homens em busca da riqueza subterrânea.

O trabalho foi realizado junto com o brasileiro Paulo Tavares, arquiteto, urbanista e pesquisador de conflitos em zonas de fronteira. Juntos, eles exploraram a Amazônia equatoriana, as terras baixas entre o rio e a cordilheira dos Andes, mergulharam no coração das trevas.

A dupla voltou à superfície com uma narrativa extraída das visões e dos diálogos entre os homens e as árvores, os animais, as pedras, o ar e a água daquela região, além dos espíritos dos antepassados. “No Equador a natureza é um sujeito jurídico com seus próprios direitos, então é mais uma questão de respeito à convivência do que de proteção de algo que temos, à diferença da Suíça que cuida bem do meio ambiente, mas com enfoque paternalista. Esta foi a abordagem que mais nos interessou nesses casos”, diz Ursula Biemann para swissinfo.ch, poucas horas depois da abertura da Bienal e antes do retorno para Zurique.

“Selva Jurídica” é o resultado desta viagem de vanguarda. Ela foi traduzida numa instalação composta por projeções de vídeo, mapas, livros e fotografias realizadas na mata ou resgatadas em antigos arquivos. O resultado é uma mostra que beira o conceito do realismo mágico literário diante do desafio de dar voz e direitos a todos os habitantes da floresta, aos humanos e não humanos. “Então, começamos a trabalhar sobre o direito da natureza e sobre a ideia da floresta como seres viventes como nós humanos”, afirma Paulo Tavares para swissinfo.ch. “Estamos interessados em investigar como os indígenas vivem na floresta e isso vai mais além dos discursos científicos, tem a ver com a expansão da noção de natureza. Por exemplo, a cosmologia, eles falam muito sobre isso”, conta Ursula Biemann.

Ursula Biemann em pleno trabalho e em um momento de distração na Amazônia equatoriana. (cortesia)

Ursula Biemann em pleno trabalho e em um momento de distração na Amazônia equatoriana.

(cortesia)

Plantas naturais e industriais

Os elementos expostos traduzem as letras ameaçadas de uma constituição avançada como a do Equador de 2008. Nela, os pioneiros e anunciados direitos absolutos de garantias dos sistemas naturais são solenemente ignorados pelas próprias autoridades. Isso porque a lei criou duas jurisdições conflitantes num mesmo ambiente: o subsolo – e suas riquezas - pertence ao Estado enquanto o ecossistema do solo deve ser respeitado.

Não por acaso, o Estado equatoriano “sentou” no banco dos réus num processo histórico promovido pelo povo indígena e equatoriano. “Um dos casos que estudamos é o de Sarayaku, no qual a nação Kichwa ganhou muitos territórios, mas sem acesso terrestre. Lá chega-se apenas por avião ou barco. O governo do Equador instalou uma série de oleodutos. Durante dez anos, eles se mobilizaram contra a invasão de suas terras e esse foi um dos mais importantes casos que olhamos de perto”, diz Ursula Biemann. A exposição conta essa história e outras, como o do lago Agrio, agredido pela Texaco com o beneplácito das autoridades, nas décadas de 70 e 80.

A cartografia é um dos fios condutores dessa viagem à natureza selvagem e violada. Os mapas atraem os olhos do visitante para essa vasta região, uma das mais ricas do planeta em biodiversidade e alvo da cobiça extrativista devido ao rico subsolo, com grandes reservas de petróleo, minérios e madeira.

Já os vídeos transportam os espectadores para dentro do tribunal e da floresta, ora como testemunha do processo contra e exploração ilegal do subsolo, ora como encarnação da fauna e da flora, diante da defesa dos habitantes locais. “Essa é uma experiência espacial na qual o espectador tem a sensação de estar dentro da floresta, com a projeção em tamanho real. Nós usamos duas câmeras para as entrevistas e isso dá ao visitante dois ângulos, assim você tem duas percepções diferentes com os dois vídeos sincronizados e que dialogam entre si”, explica Ursula Biemann

Inquietudes e incertezas

O trabalho narra a luta do povo equatoriano de Sarayaku pela preservação da floresta, com batalhas no campo e nos tribunais. Fauna e flora transformam-se em seres vivos e se defendem dos agentes provocadores da poluição, do aquecimento global e da perda da biodiversidade diante da Corte Interamericana dos Direitos Humanos. O julgamento histórico ocorreu em 8 de julho de 2011, na Costa Rica. O processo foi uma audiência pública da nação indígena Kichwa, de Sarayaku, contra o estado do Equador.

As imagens de dois vídeos secundários são uma colagem dessa guerra, de palavras constitucionais e ações inconstitucionais, entre os índios e as autoridades do governo. O cenário é o território às margens do rio Bobonza, no centro da Amazônia equatoriana, distribuído numa área de 135 mil hectares e delimitado como reserva ambiental em 1992.

A demarcação arbitrária das fronteiras -  muitas sobrepostas a imensas e desrespeitadas zonas de preservação ambiental - é denunciada através de mapas e fotografias aéreas devidamente transformados em quadros.

Esse material ganha uma nova versão com uma linguagem artística. “Trazemos um ponto de vista de como esses processos históricos de violência contra a natureza podem ser abordados desde uma perspectiva entre a arte e outros sistemas de significação pelo qual nós entendemos o mundo, como as leis, os desenhos, os mapas, é assim que, esse projeto nasce”, explica Paulo Tavares.

Vista parcial da Bienal de São Paulo. (cortesia)

Vista parcial da Bienal de São Paulo.

(cortesia)

A exposição “ Selva Jurídica” propõe uma nova consciência sobre a natureza e está no roteiro para a visita de milhares de estudantes das escolas públicas da cidade de São Paulo.  “Nossa presença aqui na Bienal é superimportante, uma oportunidade para mostrar esse pedaço da América do Sul; não poderia ser um lugar melhor para isso, não apenas pelo grande público que vem aqui, falamos de 400 mil pessoas, de todo o país, mas também da América Latina. Falo de visitantes e de muitos curadores. Aqui iremos traduzir o livro que faz parte do projeto, para encaminhá-lo às nações indígenas daqui também”, diz Ursula Biermann.

Assim, as imagens originais transformaram-se em telas de uma pintura quase abstrata. Elas são os “desenhos preparatórios” dos trabalhos principais: os quatro vídeos com os depoimentos da ação civil e as entrevistas na floresta e de um personagem como o filósofo francês Michel Serres, autor do pioneiro livro “ O Contrato Natural” (1990). O trabalho ainda relata o cipoal de leis, artigos, normas e parágrafos, além de mitos e legendas integrantes de uma realidade paralela e levada em conta durante o processo.

A inclusão de aspectos sobrenaturais ao longo das audiências é uma peça importante do histórico julgamento. A testemunha principal, líder político e guia espiritual da tribo Kichwa, o xamã Dom Sabino Gualinga, afirma que os mestres das florestas – as entidades Amasanga, Yashingu e Sacharuna que protegem e preservam o meio ambiente- irão morrer com as explosões de dinamites enterradas no subsolo. Isso provocaria uma calamidade aos povos da floresta e à humanidade “civilizada”, “a queda do céu”, na visão apocalíptica dos índios Yanomami, por exemplo, e que vivem na fronteira do Brasil com a Venezuela.

Natureza soberana e sobrenatural

A floresta é um organismo vivo em permanente transformação, composta por uma arquitetura cosmológica. Da mesma forma, uma corporação é um aglomerado de empregados e máquinas, objetos e serviços. As discussões e os debates são transversais aos estudos de semiótica, teologia, antropologia e sociologia, para não citar as ciências naturais e políticas, em campo econômico e diplomático, além da cosmologia.

Ursula Biemann e Paulo Tavares abriram o caminho artístico nessa mata fechada com filosofia e rigor histórico.  “As fontes teóricas e não apenas políticas desse trabalho são o pensamento ameríndio, a filosofia ameríndia dos povos, habitantes do continente ameríndio”, afirma Paulo Tavares. Desse ponto de vista, o homem é a origem de tudo, animais inclusive. Tudo deriva dele.  “Eu estava interessada na relação com a floresta, com a natureza. Porque achamos que a relação do homem com a Terra precisa mudar, até para ele sobreviver neste planeta no futuro”, diz Ursula Biemann.

O trabalho no campo da arte garante a visibilidade ao processo de legalização da “ natureza mística das coisas”, para usar a expressão do poema “ A máquina do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade. “Nessa espécie de abertura na nossa maneira de entender o mundo, era importante que fosse trabalhada no campo da arte. E por que no campo da arte? Porque, claro, é uma questão de visibilidade, se a natureza não é mais apenas um objeto de apropriação, de consumo, ela é um sujeito e surge o problema de como ela aparece em relação a nós humanos e a tudo o que nos rodeia”, afirma Paulo Tavares.

A zona investigada por Ursula Biermann e Paulo Tavares abriga uma população de 1.500 pessoas, além de milhares de espécies vegetais conhecidas e desconhecidas. Eles acompanharam a vida dos povos da floresta, a coleta de amostras do solo para análise química e o estudo de pesquisadores, com a ajuda de ativistas de ONGs. Esse trabalho de campo consumiu três semanas de intensas atividades com os indígenas e a floresta, compreendida em seus elementos concretos e abstratos, suas crenças como pontes para uma realidade paralela.

O botânico inglês David Neill, em depoimento gravado pelos autores de “Selva Jurídica”, afirma que existem cerca de 350 mil espécies de plantas no mundo, das quais 50 mil ainda não foram catalogadas e 30% delas estão na zona de fronteira entre o Equador e o Peru, em plena região de Sarayaku. As plantas medicinais são fundamentais para a existência humana. Elas são a prova mais banal e emblemática da simbiose e da dependência física e química entre o homem e a natureza.

Bienal 2016

A Bienal de Artes de São Paulo é a segunda mais antiga do mundo, atrás apenas de Veneza.

Neste ano, ela começou no dia 7 de setembro e termina em 11 de dezembro.

“Incerteza Viva” é o argumento da edição de número 32 e reúne um total de 340 obras de 81 artistas e grupos.

O tema investiga o pensamento cosmológico, a inteligência ambiental e coletiva, e as ecologias sistêmicas e naturais.

O crítico e curador suíço Hans Ulrich Obrist, presente na Bienal, entrevistou o escultor Frans Krajcberg, autor das obras feitas com troncos de coqueiros e raízes de mangueirae que abrem a exposição.

O projeto “Forest Law”, de Ursula Biemann e Paulo Tavares, começou em 2013 e foi comissionado pela instituição norte-americana Michigan State University. Ele explora as cosmo-políticas da Amazônia.

“Selva Jurídica” possui, como referência básica, a obra do filósofo francês Michel Serres, autor do livro “O Contrato Natural” (1990), um tratado fundamental entre o homem e a natureza.

“Forest Law” foi um trabalho-chave na carreira da artista e “videasta suíça. Recentemente Ursula Biemann foi à ilha de Bornéu para realizar uma obra de sonorização bio-semiótica, em uma árvore hospedeira de 150 diferentes espécies de insetos.

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