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“Não podemos viver de costas uns para os outros”


Uma luso-suíça quer fazer do intercâmbio cultural o ponto de encontro de suíços e lusófonos


Por Nelson Pereira, Genebra


Priscilla Frey decidiu fazer das origens uma vocação. Nascida na Suíça, de pai suíço e mãe portuguesa, recusou escolher entre os dois mundos quando percebeu que pode ter o melhor de ambos. 

Cartaz do último filme apresentado em Genebra pela Lusofonart, a associação da Priscilla Frey.  (Divulgação)

Cartaz do último filme apresentado em Genebra pela Lusofonart, a associação da Priscilla Frey. 

(Divulgação)

Ela tem 29 anos e muita energia, mas sobretudo muita paixão pelas duas culturas tão distintas que herdou e insiste em aproximá-las. Apostada em construir pontes entre elas, fundou a , uma associação cultural muito sui generis que se desenvolve em várias frentes sempre com o mesmo objectivo: ajudar (no caso de Priscilla, a palavra certa seria “provocar”) os suíços do cantão de Genebra a descobrir a cultura de língua portuguesa e os lusófonos a conhecer melhor o país onde vivem e onde criaram raízes.

As actividades organizadas pela Lusofonart vão desde mostras de cinema lusófono a visitas guiadas das crianças da comunidade portuguesa aos museus de Genebra. A teimosia de Priscilla dá frutos: alunos e professores estão entusiasmados com as visitas aos museus, numa das últimas sessões do cineclube dois dos espectadores eram um jovem de origem portuguesa que não fala português e a avó portuguesa que estava em Genebra a passar férias e não fala uma palavra de francês. “Estavam os dois contentes de poderem ver juntos um filme português legendado em português – este projecto serve também a fazer pontes entre a geração jovem de origem portuguesa que conhece mal a cultura portuguesa e a geração dos pais e avós”, diz Priscilla.   

Construída de duas culturas

Priscilla Frey tinha seis anos quando foi para Portugal com a mãe, depois do divórcio dos pais. Frequentou o liceu francês em Lisboa até ao 10º ano. “A minha avó adoeceu e isso obrigou-nos a regressar à Suíça”, recorda Priscilla. Terminou o liceu no Ferney-Voltaire em Genebra e em seguida foi para Paris estudar. Para regressar à Suíça seis anos depois, assim que fez o mestrado, em 2011.

“Aqui, comecei um estágio, e dois meses depois confiaram-me projectos de produção. Em Setembro de 2011 estava a trabalhar como produtora e em Fevereiro do ano seguinte produzi o primeiro filme”, continua. O filme era “Le jour viendra”, uma curta-metragem de Cicero Egli que foi seleccionado em Locarno em Agosto. Continuou na produção, mas a veia portuguesa “implicava” com o temperamento suíço e lançou-se noutros voos: “Em paralelo fundei uma associação, que em 2013 organizou o Festival Internacional do Filme Lusófono aqui em Genebra. Em 2014 mudámos os estatutos da associação e criámos a Lusofonart, uma associação suíça e portuguesa consagrada à divulgação da cultura portuguesa no cantão.”

E agora, para algo completamente diferente

Priscilla sublinha que a intenção não é defender eventos portugueses feitos por portugueses para portugueses, mas divulgar a cultura portuguesa às outras comunidades presentes no cantão de Genebra. “Queremos fazer com que as outras comunidades e em primeiro lugar os suíços genebrinos se sintam envolvidos nas nossas actividades, o que presentemente não acontece”, explica, avançando exemplos: “Os eventos culturais que são aqui organizados são normalmente para portugueses, até os cartazes são só em língua portuguesa, ali só se fala português.” Decidida a contrariar esta tendência e fazer chegar a cultura portuguesa ao maior número de pessoas, a luso-suíça colocou em marcha um cineclube.

Nas últimas segundas-feiras de cada mês, são projectadas no Cinélux películas realizadas por portugueses e legendadas em francês, “para atrair um público diferente, um público mais alargado, que não se limita à comunidade portuguesa”. É um pretexto para que as pessoas se misturem e se conheçam. Trata-se de quebrar o estereótipo do português “concierge” e “maçon”, insiste Priscilla, consciente de que “as pessoas conhecem muito mal os portugueses também porque a comunidade funciona em núcleos fechados, as pessoas até podem descobrir que há uma festa portuguesa, um baile, mas o cartaz está em português e se lá entrarem só encontram portugueses.”

Para dar a conhecer o quê? Priscilla não hesita: “Os suíços conhecem as lojas de portugueses, mas Portugal é muito mais que isso, Portugal tem uma cinematografia rica, cada vez mais reconhecida e premiada no estrangeiro, tem literatura e teatro, gastronomia, turismo.”

Os filmes que a Lusofonart traz a Genebra são legendados em francês, a pensar no público suíço mas também para construir pontes com a comunidade jovem de origem portuguesa e sensibilizar os jovens para a cultura. “Como disse recentemente o ministro Pierre Maudet, se as comunidades de origem estrangeira conhecerem bem as suas culturas, vão estar também mais abertas a conhecer a cultura do vizinho”, ressalva Priscilla.

O cineclube fez um ano em Abril e projecta filmes de Setembro a Junho. Recentemente, foi apresentado o filme “A uma hora incerta”, a segunda longa-metragem do realizador português Carlos Saboga, que conta a história de exilados franceses que em 1942 decidem fugir da guerra em França e são apanhados em Portugal por um inspector da PIDE, a polícia política. Esta película foi projectada no dia 25 de Abril, assinalando o aniversário da revolução de 1974, que levou à queda do regime de partido único em Portugal.

“Muitos dos filmes que temos projectado têm referências ao período do Estado Novo. Desta vez, no filme de Saboga aparecem referências também a uma Europa em guerra, não apenas à realidade portuguesa”, sublinha Priscilla.

No público há sempre muitos portugueses, mas aparecem também suíços e alguns brasileiros. Os três primeiros filmes apresentados foram títulos que tinham tido êxito nas salas de cinema em Portugal: “Virados do Avesso”, o segundo filme mais visto em Portugal em 2014, “Alentejo, Alentejo”, o terceiro mais visto em 2014, e “Os Maias”, o filme mais visto em 2014.
“Esperamos trazer cá no futuro actores e realizadores portugueses por ocasião das projecções do cineclube, mas estamos a desenvolver o projecto ao ritmo das possibilidades e dos apoios que conseguimos”, explica Priscilla.

Outros mares

Com o cineclube a funcionar, a associação começa a avançar para outras áreas. Está a desenvolver um projecto virado para os filhos dos emigrantes que vieram para a Suíça muito novos ou que já nasceram em terras helvéticas. Estas crianças têm uma relação muito limitada com a cultura portuguesa ou conhecem apenas aquilo que os pais lhes transmitiram. Ao mesmo tempo, apesar de nascidos em Genebra, não conhecem a história do cantão e do país. Priscilla quer ajudar a preencher esta lacuna: “Iniciámos uma parceria com a coordenação do ensino do Instituto Camões, levámos os alunos das aulas de língua portuguesa aos estúdios da RTS, para verem o que é um estúdio de televisão. Foi um sucesso, porque houve muitos professores que aderiram e as crianças gostaram muito.”

O programa seguinte foi a visita aos museus da cidade de Genebra, com a ajuda do município: os alunos das aulas de português tinham um programa preparado para eles, uma vista que os ajudava a perceber melhor a cidade onde vivem, a conhecer a história da cidade. As visitas começaram em Abril e os professores recebem um léxico que distribuem às crianças, um apoio didáctico que as familiariza com um vocabulário específico, um manual que depois utilizam nas aulas.

Estas actividades entusiasmam muito os professores, porque tornam as aulas de português mais interessantes para as crianças: “Num dia falam de cinema, noutro de museus, aprendem a compreender uma obra de arte, como se produz um programa de televisão, e tudo isto desperta e encoraja o lado artístico das crianças”, explica Priscilla, frisando que os pais estão satisfeitos e pedem mais. A partir de Setembro, serão organizados ateliers de teatro. “Queremos dar a conhecer peças de autores portugueses, mas serão trabalhadas em francês ou em português, pois mais uma vez interessa-nos envolver suíços e portugueses”, pontua a timoneira destes sonhos.

A paixão de Priscilla começa a despertar interesse igualmente fora do cantão genebrino. A associação recebeu pedidos do cantão de Vaud e planeia avançar no futuro para outros cantões. Há uma sala de cinema em Lausanne disposta a acolher um cineclube português que arrancará provavelmente em Setembro. Há também planos para alargar as actividades com crianças aos períodos de férias escolares. “Somos uma pequena associação, estamos a tentar angariar mais fundos e também depende disso, diz Priscilla, acrescentando que gostava de ter um estagiário, mas “há muitos projectos culturais e cada vez menos dinheiro para a cultura”.

A associação está a tentar abrir parcerias com o cantão de Genebra, mas “os processos são lentos, até porque o trabalho que fazemos assume objectivos que são da competência de departamentos diferentes, nas áreas da educação, cidadania, integração, cultura. Temos de bater a várias portas diferentes para pedir apoios e tudo leva muito tempo. Não trabalhamos apenas ao nível da integração, interessa-nos também divulgar a cultura de língua portuguesa aos suíços.”

Priscilla Frey

Nasceu em 1986 na Suíça

Lycée français Charles Lepierre, Lisboa

Lycée International de Ferney-Voltaire, Genève

Licenciatura em Artes e Espectáculos (menção cinema) – Université Paris Ouest Nanterre la Défense

Mestrado de Produção Audiovisual 

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