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Teólogo suíço propõe desobediência dos bispos ao papa


Bento 16 (aqui em visita a Malta, 18/4), que completou nesta segunda-feira cinco anos como líder de 1,1 bilhão de católitcos, se distanciou da base, diz Küng. (Keystone)

Bento 16 (aqui em visita a Malta, 18/4), que completou nesta segunda-feira cinco anos como líder de 1,1 bilhão de católitcos, se distanciou da base, diz Küng.

(Keystone)

Em carta aberta aos bispos de todo o mundo, publicada em jornais de cinco países, o teólogo suíço Hans Küng afirma que a Igreja Católica enfrenta sua pior crise desde a Reforma Protestante.

Küng conclama os bispos a "começar a reforma" e diz que "a obediência incondicional só é devida a Deus".

Não é a primeira vez que Küng, um dos mais importantes teólogos da atualidade, escreveu uma carta aberta ao alto clero. Em 2005, ele dirigiu um apelo aos cardeais para que elegessem um papa que restabelecesse a credibilidade da Igreja.

Na semana passada, ele repetiu a dose ao publicar uma "epístola da desobediência" nos jornais Sueddeutsche Zeitung (Alemanha), Neue Zürcher Zeitung (Suíça), La Repubblica (Itália), El País (Espanha), Le Monde (França) e New York Times (EUA). O texto propõe a resistência dos bispos à Santa Sé, que em 1979 proibiu Küng de lecionar Teologia.

Mas o teólogo garante que não busca confronto. "Joseph Ratzinger, atual papa Bento 16, e eu éramos os mais jovens teólogos no Concílio Vaticano II (1962-1965). Agora somos os mais velhos e os únicos ainda em plena atividade. Sempre entendi meu trabalho teológico como um serviço prestado à Igreja Católica Romana", afirma no início de sua carta aos bispos.

Críticas ao reacionarismo do papa

Küng faz uma análise dos cinco anos de pontificado de Bento 16, completados nesta segunda-feira (19/4), e conclui: "Minhas esperanças e as de tantos católicos de que o papa pudesse encontrar seu caminho para promover uma renovação da Igreja e uma reaproximação ecumênica no espírito do Concílio Vaticano II infelizmente não se confirmaram."

Ele fala da "mais profunda crise de confiança" da Igreja Católica desde a Reforma e critica diretamente Bento 16. "No que se refere aos grandes desafios do nosso tempo, seu pontificado é cada vez mais o das oportunidades perdidas e chances não aproveitadas", escreve Küng.

O teólogo cita, por exemplo, as oportunidades perdidas de diálogo com outras religiões; de reconciliação com os povos indígenas colonizados da América Latina; de ajudar os povos da África permitindo o controle de natalidade e o uso de preservativos contra a aids. "Perdeu-se a oportunidade de fazer do espírito do Concílio Vaticano II a bússola de toda a Igreja Católica."

Küng acusa Bento 16 de ter fortalecido as forças anticonciliares ao nomear "funcionários reacionários para postos-chave na Cúria e bispos reacionários em todo o mundo"; trazer os bispos da tradicionalista Sociedade Pio X de volta à Igreja sem nenhuma precondição; promover a Missa Tridentina medieval; e recusar a reaproximação com a Igreja Anglicana.

Igrejas vazias e escândalo sexual

"O papa Bento 16 parece cada vez mais afastado da vasta maioria dos membros da Igreja que presta cada vez menos atenção a Roma e, na melhor das hipóteses, se identifica somente com seu pároco ou bispo local", escreve Küng.

Segundo ele, "a política de restauração de Bento 16 fracassou. A resignação e a frustração estão se espalhando rapidamente tanto pelo clero como entre os leigos atuantes". Ele constata que, em muitas dioceses, há "igrejas cada vez mais vazias, seminários vazios e paróquias vazias".

Além disso, o teólogo cita o escândalo dos abusos sexuais cometidos pelo clero contra milhares de crianças e adolescentes. "E, para piorar as coisas, o tratamento dado a esses casos deu lugar a uma crise de liderança sem precedente e a um colapso da confiança na liderança da Igreja."

"Bispos poderiam fazer algo"

Küng diz que sua intenção não foi elaborar um novo programa de reforma da Igreja, mas ele apresenta seis propostas de ação (leia mais na coluna à direita) aos bispos, que, na sua opinião, "poderiam mudar algo, se quizessem".

O teólogo suíço faz um apelo aos bispos para que "não se calem: mantendo o silêncio ante tantas ofensas graves vocês também se mancham com a culpa. Quando sentirem que certas leis, diretrizes e medidas são contraproducentes, vocês devem dizê-lo em público. Enviem a Roma não profissões de sua devoção, mas apelos em favor da reforma!"

Küng os conclama também a começar a reforma, deixar de ser totalmente submissos ao papa, agir de maneira colegiada, trabalhar por soluções regionais e pedir a convocação de um novo concílio para resolver os problemas.

"A obediência incondicional só é devida a Deus: embora em sua consagração episcopal vocês tenham tido de fazer um juramento de obediência ao papa, sabem que a obediência incondicional não deve jamais ser prestada a nenhuma autoridade humana; ela só é devida a Deus. Por essa razão, vocês não deveriam se sentir impedidos por seu juramento de falar a verdade sobre a crise atual que enfrentam a Igreja, sua dioceses e seu país", escreve Küng aos bispos.

Depois da publicação, dezenas de pessoas manifestaram-se solidárias com o teólogo. "Finalmente alguém tem a coragem de dizer alguma coisa", escreveu um leitor. Os bispos e as conferências episcopais até agora não se pronunciaram sobre a carta.

“É preciso dar tempo aos bispos para refletir sobre essa carta. Por isso, não espero uma reação imediata. Afinal, ela se refere aos bispos de todo o mundo e não só de nosso país”, respondeu Küng por e-mail à swissinfo.ch. Ao site Spiegel Online ele declarou que "seria incompreensível para muitas pessoas se nenhum dos 4 mil bispos ou nenhuma conferência episcopal reagisse."

Ele disse que conhece pessoalmente muitos bispos e que eles têm opiniões bem diferenciadas sobre o papa. Küng espera que sua carta não seja interpretada pelos bispos como sinal de arrogância e se diz convicto de que "a Igreja Católica pode se mudar", mas não com este papa.

"Lamentavelmente parece que este papa não é mais capaz de uma mudança. Ele se fixou demais na linha da restauração e esbarra em seus limites, porque nem o clero católico nem a maioria do povo católico quer esse rumo. O papa teria de seguir novamente a linha do Concílio Vaticano II, que é rejeitado pelos bispos da Sociedade Pio X", disse Küng à swissinfo.ch.

Geraldo Hoffmann, swissinfo.ch

Propostas aos bispos

Resumo das seis propostas feitas pelo teólogo suíço Hans Küng em sua carta aberta aos bispos de todo o mundo:

"1. Não se calem: mantendo o silêncio ante tantas ofensas graves vocês também se mancham com a culpa. Quando sentirem que certas leis, diretrizes e medidas são contraproducentes, vocês devem dizê-lo em público. Enviem a Roma não profissões de sua devoção, mas apelos em favor da reforma!

2. Comecem a reforma: muitos na Igreja e no episcopado se queixam de Roma, mas eles próprios não fazem nada. (...) Quer sejam bispos, padres, leigos ou leigas - todos podem fazer algo pela renovação da Igreja dentro da própria esfera de influência. (...)

3. Ajam de maneira colegiada: após debates acalorados e contra a persistente oposição da Cúria, o Concílio Vaticano II decretou a colegialidade do papa e dos bispos. (..) Na era pós-conciliar, porém, o papa e a Cúria ignoraram esse decreto. (...)

4. A obediência incondicional só é devida a Deus: embora em sua consagração episcopal vocês tenham tido de fazer um juramento de obediência ao papa, sabem que a obediência incondicional não deve jamais ser prestada a nenhuma autoridade humana; ela só é devida a Deus. Por essa razão, vocês não deveriam se sentir impedidos por seu juramento de falar a verdade sobre a crise atual que enfrentam a Igreja, sua dioceses e seu país. (...)

5. Trabalhem por soluções regionais: o Vaticano com frequência tem feito ouvidos surdos a demandas bem fundamentadas do episcopado, dos padres e da laicidade. (...) Quando um padre, após considerações maduras, deseja se casar, não há razão porque ele deva renunciar automaticamente a seu ministério quando seu bispo e sua paróquia ficarem do seu lado. (...)

6. Peçam um concílio: assim como a conquista da reforma litúrgica, liberdade religiosa, ecumenismo e diálogo entre religiões requereu um concílio ecumênico, agora é necessário um concílio para resolver a escalada de problemas que pede uma reforma. (...)"

Hans Küng

Hans Küng nasceu 1928, em Sursee, no estado de Lucerna (centro da Suíça).

Ffoi ordenado padre em 1955.
A partir de 1960: professor na Universidade de Tübingen (Alemanha).

1962/65: conselheiro oficial do Concílio Vaticano II, junto com Joseph Ratzinger, o atual papa Bento 16.

1979: por colocar em dúvida a infalibilidade do papa em questões teológicas, o Vaticano proíbe Küng de lecionar Teologia. Desde 1995 é presidente da Fundação Weltethos (Ética Mundial).



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