Coronavírus promove salto da telemedicina

Sanae Mazouri trabalha como médica no Hospital Universitário de Genebra. HUG

A pandemia provocada pelo novo coronavírus impulsionou a medicina à distância. Na Suíça o confinamento popularizou as chamadas "teleconsultas". E mesmo se muitos pacientes já retornaram ao consultório após a normalização gradual, a digitalização da medicina é um fenômeno que veio para ficar.

Este conteúdo foi publicado em 03. agosto 2020 - 09:00
Laure Wagner

Consultas médicas através da câmera ou receber resultados de exames através da internet são práticas correntes há anos. Porém as teleconsulta ainda eram raras. Pacientes e profissionais ainda desconfiavam dessa prática, que possibilita consultar um médico ou terapeuta à distância graças às novas tecnologias de informação e comunicação. Como fazer o contato? Como garantir a confidencialidade dos dados? Como ter certeza do diagnóstico? Muitas perguntas ficaram sem resposta por muito tempo...

Acelerando o processo

A crise do coronavírus mudou a situação a partir de março. Frente aos riscos à saúde, a teleconsulta se tornou para o corpo médico, como explica Arthur Germain, diretor e um dos fundadores do site OneDoc, especializado no agendamento de consultas médicas online: "Há tempo queríamos desenvolver uma ferramenta de consulta médicas por vídeo, mas sentíamos que os médicos ainda não estavam prontos. Assim o projeto acabou na lista de espera. O Covid-19 foi um grande impulso: nossos programadores trabalharam duro por uma semana para montar uma plataforma encriptografada de vídeo". Pois a demanda explodiu com a aparição do novo vírus. "Em dois meses aumentou dez vezes", observa Germain, que tem quase dois mil profissionais registrados, incluindo 500 usuários do novo serviço.

Nos escritórios da OneDoc, a startup genebrina dirigida por Arthur Germain (de costas). Laure Wagner

Até o final da pandemia, o serviço permanece gratuito para todos os profissionais de saúde já cadastrados na OneDoc. A startup genebrina pretende assim convencer os médicos a adotar a solução, que pretende ser mais eficiente que o telefone e mais segura que outras ferramentas de comunicação por vídeo como o FaceTime, Skype ou Zoom. Alguns são conquistados: "Se for de alta qualidade, o vídeo é uma vantagem concreta", diz Eric Bec, médico-generalista e chefe do centro de saúde Teomera. "No início da crise eu atendia meus pacientes através do telefone, mas era complicado fazer um diagnóstico sem vê-los. Então tentei com o WhatsApp e depois com a OneDoc, o que me ajudou a descobrir quem podia ficar em casa e quem tinha que vir ao consultório para uma consulta física."

Mas outros médicos são um pouco mais céticos após as primeiras experiências com as teleconsultas. "Tivemos que recorrer à tecnologia pela força das circunstâncias", diz Mouncef Berrada, chefe do Centro Cirúrgico de Cornavin, "mas não aderimos integralmente ao sistema: você não pode confiar apenas no que um paciente diz sem poder examiná-lo fisicamente, e para isso, o vídeo não é suficiente", diz.

Medicamentos 2.0

No Hospital Universitário de Genebra (HUG), Sanae Mazouri não esperou a chegada do coronavírus para dar os primeiros passos na telemedicina. Em maio de 2019, a médica lançou o projeto HUG@home, uma plataforma que estabelece um sistema de chat e chamada de áudio ou vídeo entre os médicos do hospital e a equipe de enfermagem do IMAD (home care institution) para assegurar o monitoramento dos pacientes que tiveram alta hospitalar. "Nosso objetivo era incentivá-los a ficar em casa e, dessa forma, controlar o fluxo de pacientes no setor de emergência, ganhar tempo e reduzir o custo de hospitalização", explica Mazouri. "Nós testamos durante seis meses a plataforma com pacientes que receberam alta do hospital e foram monitorados pelo IMAD. E esses foram os resultados: em nove de cada dez casos, conseguimos evitar a hospitalização."

Diante dos resultados encorajadores, seu plano agora é estender o serviço aos pacientes monitorados por doenças crônicas a partir de 2021 e eventualmente oferecer um serviço de teleconsulta diretamente acessível a todos os pacientes, após o controle feito pela enfermagem. A pandemia precipitou as coisas... "Para responder à emergência sanitária e evitar a saturação hospitalar, trabalhamos durante dois dias para oferecer uma nova versão do nosso aplicativo, que agora se chama Docteur@home, a todos os médicos da cidade", explica Mazouri. Desde então, o serviço já conta com mais de 900 profissionais do HUG e quase 400 médicos em todo o cantão de Genebra.

O Hospital Regional de Friburgo também investe na telemedicina. Em abril, o diretor Ronald Vonlanthen apresentou à imprensa um projeto apoiado pelo cantão: malas equipadas com dispositivos médicos conectados que permitem o tratamento remoto de pacientes. "O coronavírus destacou dois grandes riscos para o nosso sistema de saúde: a saturação dos hospitais e o isolamento dos pacientes considerados de risco. Com a nossa mala levamos o tratamento médico necessitado ao domicílio", diz Vonlanthen, completando: "Fazemos consultas prévias para limitar o número de hospitalizações em caso de complicações". Durante a crise, os enfermeiros em formação foram requisitados como intermediários para auxiliar os pacientes durante as teleconsultas. Entretanto o projeto tem um custo de cinquenta mil francos o diretor do hospital ainda procura de investidores para desenvolvê-lo a longo prazo.

Sanae Mazouri utilizando um aparelho de diagnóstico no Hospital Universitário de Genebra. HFR

"Uberização"

O pessoal da área de saúde também vê pontos críticos na digitalização da medicina. Hoje, a maioria dos médicos já retomou na Suíça às consultas físicas em consultório. "A telemedicina nos dá uma ideia dos sintomas do paciente, mas o exercício presencial da medicina nos permite, em minha opinião, ir além para chegar a um diagnóstico e, sobretudo, um tratamento adequado", considera Gilbert Geinoz, médico em Genebra. Muitos médicos, enfermeiros e terapeutas até se preocupam com o futuro profissional e já denunciam a "uberização" da saúde. "Não é a minha concepção de medicina", reforça Mouncef Berrada. Todos enfatizam a importância do contato humano entre médico e paciente.

Isso é ainda mais importante no campo da saúde mental, onde a telemedicina vem sendo desenvolvida há vários anos, particularmente nos Estados Unidos. A análise da relação corporal "não-verbal" é essencial à nossa profissão", diz Pierre-André Mayor, psiquiatra e psicoterapeuta atuante em Genebra. "A teleconsulta me permitiu manter um vínculo terapêutico com meus pacientes durante a crise. Mas eu considero que isso funcionou, pois já tinha construído uma relação prévia com eles", conclui.

Portanto, ainda é um cedo para dizer que o coronavírus mudou a forma de praticar a medicina. Para Arthur Germain, "as profissões da saúde evoluirão inevitavelmente com a digitalização e os profissionais terão que se adaptar para atender às novas expectativas dos pacientes". Ronald Vonlanthen, por sua vez, continua otimista: "Novas tecnologias e inteligência artificial vão mudar a maneira como a medicina é praticada e novas profissões vão surgir entre o corpo médico, que se tornará cada vez mais conectado, mas para fazer um diagnóstico você sempre precisará de um cérebro humano atrás das máquinas", lembra.

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