A voz estrangeira de Dandara explora o mundo via Zurique

A cantora busca aproveitar ao máximo sua condição de estrangeira em Zurique como fonte de inspiração para seus próximos trabalhos Valéria Maniero

Por amor, Dandara trocou São Paulo por Zurique há três anos. A mudança deu uma nova dinâmica na carreira desta cantora de 29 anos, cujo novo trabalho toca justamente no tema da migração e do ser estrangeira. swissinfo.ch visitou Dandara em sua casa para saber o que é que a Suíça tem. 

Este conteúdo foi publicado em 17. dezembro 2019 - 11:00
Valéria Maniero, em Zurique

Dandara Varejão Modesto Hölzl trocou o Brasil pela Suíça porque era aqui que morava Antônio, o português-alemão pelo qual se apaixonou. Há dois, nasceu a filha da cantora, Serena, e a vida mudou um pouco, mas ela continuou fazendo aquilo que sempre gostou de fazer. 

Desde os 9, Dandara, que nasceu na periferia de São Paulo, mas tem família também na Bahia, canta. Em outubro, se apresentou no Festival Solar, em Zurique, realizado numa das maiores casas de jazz da Suíça, com um show chamado “Estrangeira”. Também faz apresentações pela Europa - na Alemanha, Espanha, França e em Portugal, onde (en)cantou recentemente.

“Não há como destruir um país capaz de gerar uma Dandara"

Após ter tido contato com a música de Dandara, o escritor angolano José Eduardo Agualusa descreveu como foi ouvi-la cantar num evento em Lisboa. 

Disse que a moça “canta como quem reinventa o mundo”. “Aquela Dandara começou devagar, timidamente: “Sobre ondas velhas/ vou sem vela e sem chegar/ não sou eu quem me navega / e nem me navega o mar”. E então foi crescendo, erguendo-se na sala como uma tempestade, e quando terminou tinha o público todo com ela, em fortes aplausos”. E terminou assim: “Não há como destruir um país capaz de gerar uma Dandara", escreveu, em coluna publicada no jornal “O Globo”.

Diante de um elogio desses e também em outras situações, Dandara mostra que Modesto não é só um dos seus sobrenomes, mas um adjetivo que a qualifica também. Porque foi com modéstia que ela respondeu à swissinfo.ch, quando lembrada sobre o que andam falando dela por aí.

“Eu recebi isso com alegria, amor e muita responsabilidade, mas ele não está falando só de mim. Quer dizer que não dá para destruir um país que gera artistas como os artistas brasileiros”, diz ela.

swissinfo.ch: O que a Suíça representa para você?

Como imigrante, superação, baseado na minha história pessoal, mas eu vejo muitas pessoas que também têm esse traço. Conseguir achar um ponto em que você seja você mesma, carregue as suas coisas e também dialogue com o espaço, é se superar. E depois, estudando um pouco a história do país, eu vi que tem isso também. A Suíça foi um país que se estruturou e se desenvolveu. Cada lugar tem sua língua. Cada cantão faz do jeito que melhor entende. Há essa ideia de que as pessoas podem viver da maneira que elas acordem que seja o melhor para elas.

swissinfo.ch: Morar na Suíça é...

Quase que uma provação, no sentido de que eu tenho que me desenvolver de um lado que eu não trabalhava muito. E a linha entre o conflito e o desenvolvimento é muito tênue. A ideia de comunidade, de privacidade, de laços é muito diferente. A imigração para cá não é simples. Mas tenho muita admiração por esse povo. As coisas têm um outro tempo também. As relações de amizade, de trabalho demandam mais tempo, mas quando pegam, ficam.

swissinfo.ch: Quais são suas impressões sobre a Suíça?

A Suíça, como o Brasil, é um país que tem uma imagem muito clara no imaginário das pessoas. A Suíça, para mim, antes de morar aqui, era aquele país onde só tinha gente rica, vaquinha, chocolate, queijo e banco. Mas quando eu cheguei, comecei a ver muitas outras coisas. Eu agradeço muito, porque eu acho que a Suíça me deu as coisas de que eu precisava para me desenvolver mais como ser humano.

swissinfo.ch: Para você, como é viver aqui?

As bases da ideia da organização da vida das pessoas são muito diferentes no Brasil e na Suíça. De certa maneira, complementares. Não dá para você viver aqui se você não se organiza. E esse é um enorme aprendizado que eu tenho no dia a dia. Tem também o despir-se dos privilégios que eu não tinha consciência de que eu tinha no Brasil. Aqui, apesar da imagem de que quem vive na Suíça tem grana, os privilégios são diferentes. Pagar uma faxineira para limpar o apartamento é um luxo. Aqui, tem a valorização do trabalho, o que é fundamental. Sinto muita alegria em morar num país que valoriza o trabalho humano. Isso também mudou um pouco a minha perspectiva sobre o meu trabalho.

swissinfo.ch: De que forma?

Como meu trabalho apareceu na minha vida desde muito cedo, eu tinha uma certa dificuldade em entender isso como ofício. Às vezes, ficava muito na coisa da missão. Para mim, foi importante ter esse outro olhar sobre o ofício, aprender o significado que a profissão tem. Para mim, sempre foi claro que cantar era a minha vida. Se me deixar, eu trabalho o tempo inteiro. Mas não é porque eu me divirto que não é trabalho. A Suíça me trouxe esse entendimento.

swissinfo.ch: Você gosta de morar em Zurique?

Para mim, foi muito importante, como paulistana, ter vindo morar na (Rua) Langstrasse, que é o barulho, um lugar que tem vida. Tem sempre alguma coisa para fazer. Eu adoro Zurique nas diferentes estações do ano. E isso tem me ajudado no meu processo artístico. Há qualidade do viver. Eu agradeço muito por estar aqui. Tem a questão da segurança. A estrutura de transporte, por exemplo, é maravilhosa. Mas é cara.

swissinfo.ch: Como é ser uma cantora brasileira na Suíça?

Estou descobrindo ainda. Quando eu vim para a Europa, eu sabia que ia ser um “recomeço”. Eu já tinha uma carreira no Brasil, uma história, sabia que ia ser um desafio, porque aqui ninguém me conhece, eu sou uma cantora brasileira, o que é um nicho, uma caixa. Mas eu precisava desse desafio. No show do mês passado em Zurique, eu procurei fazer um trabalho que tivesse alinhamento com o que eu estava fazendo lá. Fizemos uma festa brasileira com muita alegria e elegância. E foi maravilhoso.

swissinfo.ch: Fale um pouco sobre o seu trabalho atual.

O show que eu tenho feito agora, que se chama “Estrangeira”, todo em português, é o resultado de uma pesquisa sobre identidade, trânsito e migração sob uma perspectiva feminina. Vou lançar este disco, que será gravado ao vivo, no primeiro semestre do ano que vem. A performance e o documentário virão depois. Para 2020, já estão previstos shows pelo Brasil e Europa.

swissinfo.ch: Como você vê a música?

Eu enxergo a música como um trabalho sociocultural, porque entra nas pessoas independentemente do desejo de recebê-la ou não. E eu tenho esse compromisso de sempre dizer algo com a música. Acho que a gente está vivendo um momento do embate. E o trabalho do artista é um dos principais ofícios nessas épocas, um dos que seguram a onda e que espalham boas coisas. É como o trabalho do passarinho. A gente, trabalhando com o sutil, vai espalhando mensagens. É a razão da minha vida esse tipo de trabalho.

swissinfo.ch: Como você definiria a sua música?

São vários projetos. Eu tenho uma banda no Brasil, a OKKA, mais pop, que acabou de lançar um single e um clipe (#Tbt). O “Estrangeira”, por exemplo, flerta mais com o jazz. Eu acho que eu faço música brasileira conectada com o mundo. Gosto de dizer que eu faço música e, quando vou cantar uma canção, eu canto em português do Brasil.

swissinfo.ch: Na música “TBT”, você canta: “o amor há de resistir sem medo”. Essa é uma mensagem para o Brasil de hoje?

É. A gente não pode cindir a coisa do jeito que está cindida pela discordância política. A gente não pode deixar de ser humano por conta de convicções distintas. No fim, o que nos liga é o amor que, para mim, é o oposto do medo.

swissinfo.ch: Como foi a experiência que você teve na Alemanha?

Em 2016, fui convidada para fazer uma residência artística em Munique. Éramos nove artistas da América Latina, de diferentes linguagens. Ficamos três meses numa casa com toda a estrutura para desenvolver trabalhos e pesquisas artísticas. Depois, lançamos um disco.

swissinfo.ch: Como você começou a cantar?

Quando eu era pequena, minha família sempre se encontrava para batucar alguma coisa. A música sempre foi algo natural. E eu comecei a cantar assim, no fundo de casa. Aprendi a desenvolver a profissão no fazer mesmo. Antes de vir para a Europa, tocava em São Paulo e no interior do Brasil. Sou intérprete e, dentro desse trabalho, tem o de pesquisar repertório, compositores e canções.

swissinfo.ch: A ideia é ficar por aqui ou voltar, um dia, para o Brasil?

A Suíça é a minha casa, o lugar onde vivo. Mas as minhas raízes vão sempre estar no Brasil. Me sinto um pouco como uma árvore, que tem raiz lá e vai para o mundo. Aqui eu me sinto, realmente, uma cidadã do mundo. Brasileira. Seja lá o que isso significa. Nesse momento, eu sinto que tenho que continuar fazendo meu trabalho fora do Brasil, no mundo.


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