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História breve Casa Daros no Brasil foi sonho que durou pouco

A Casa Daros fecha as portas para o público brasileiro. A odisseia da matriz suíça com a sua filial em terra carioca termina num quadro negro.  Arte: desilusão e desinvestimento.



A mostra “ Ficción y fantasia- Arte de Cuba” foi a última exposição da Casa Daros do Rio de Janeiro.

A mostra “ Ficción y fantasia- Arte de Cuba” foi a última exposição da Casa Daros do Rio de Janeiro.

(Guilherme Aquino)

O projeto cultural da Casa Daros naufragou a poucos metros das areias da praia de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. O museu, instalado num antigo casarão, viveu seu último dia de glória num domingo de sol à sombra das palmeiras centenárias. A entrada gratuita em uma moderna instituição que vivia da venda dos bilhetes, foi uma homenagem da direção ao público. Este era o único sinal de algo estranho no ar, num espaço de prestígio para o carioca.

A pequena escadaria de pedras de granito na porta da Casa Daros leva direto para a primeira das 14 grandes salas de exposições, verdadeiros salões aristocratas com pavimentos e portas em madeira de lei. Na passagem pela ampla recepção, com o piso geométrico desenhado em mármore, poucas pessoas notam o olhar perdido de alguns funcionários. Eles até tentam disfarçar com sorrisos de circunstância.

A contida euforia pela gratuidade - ao invés da cobrança do ingresso de 12 reais - sem maiores explicações, equilibra uma certa atmosfera de melancolia. A bilheteira foi a primeira a perder a função depois do curador, o alemão Hans Michael-Herzog, responsável pelo acervo deste moderno museu.

O encerramento das atividades arranha a imagem de polo cultural do Rio de Janeiro e representa também um amanhã de incertezas para os 40 funcionários diretos, além dos terceirizados. “É, né?! A dona Ruth quis assim. Desistiram de investir em arte de uma hora para outra, que estranho”, diz para swissinfo.ch um empregado da Casa Daros enquanto executa a sua tarefa de modo impecável, como se fosse um dia normal.

Investimento

Dona Ruth é uma alusão à milionária suíça Ruth Schmidheiny, proprietária da maior coleção de arte latino-americana na Europa. Dela partiu o sonho de promover o cenário artístico destas latitudes, desde o norte do México ao sul da Argentina.

E, por consequência, dar maior visibilidade ao acervo de 1.200 obras realizadas a partir de 1960, de 120 artistas nascidos ou residentes na América Latina. “Daros Latinamerica (nome da instituição com sede na Suíça, ndr) vai concentrar as atividades públicas numa frente internacional e a Casa Daros no Rio de Janeiro vai se dedicar a estes novos propósitos”, disse ela em carta aos artistas, no começo da aventura.

O desembarque carioca da Casa Daros ocorreu em 2007, em plena efervescência cultural e crescimento da economia brasileira, pouco antes da crise mundial e distante da recessão atual. A compra e a minuciosa reforma do casarão custaram 83 milhões de reais aos cofres privados da dona Ruth, ex-mulher do magnata do cimento (leia-se amianto), Stephan Schmidheiny. O dinheiro foi investido nos últimos seis anos.

Durante a reestruturação, a instituição abrigaria eventos e cursos artísticos e pedagógicos, até a inauguração para as exposições, apenas dois anos atrás. “Acho que faltou algo no planejamento de marketing e comunicação. Não sabemos bem o motivo do fechamento”, diz para swissinfo.ch uma dependente que prefere não se identificar, diante de uma placa que celebra o local como o museu do ano passado, eleito pela revista Época, da editora Globo.

Uma ponte longe demais

A mostra “ Ficción y fantasia- Arte de Cuba” foi a exposição derradeira. O tema caiu como uma luva diante da atualidade. O carioca sonhou de olhos abertos com a Casa Daros, mas foi acordado pela realidade como um pesadelo. A ficção e a fantasia artísticas não amenizaram o sentimento de perda e de desilusão dos frequentadores.

E eles nem foram tão pegos de surpresa. Ao contrário de como ocorreu no aviso prévio, dado pela instituição alguns meses atrás. Mas que muita gente não acreditou. As autoridades públicas até ensaiaram uma tomada de consciência aos donos. Mas promessas e propostas caíram no vazio e o encontro entre eles resultou em palavras ao vento.

Cumpriu-se a profecia anunciada em 13 de maio deste ano, quando o conselho deliberativo da Daros Latinamerica, em Zurique, presidido por Christian Verling, decidiu amputar o braço carioca da instituição. Na ocasião, a desculpa oficial chegou com a palavras de ordem “altos custos de manutenção”.

Os protestos nas redes sociais foram imediatos, até porque a instituição não buscou incentivos públicos nem parcerias privadas.

A ponte artística entre o Rio de Janeiro e Zurique teria desmoronado sob o peso das “contas de luz” e das dificuldades burocrática e logística no transporte das obras. A cidade maravilhosa ficou órfã de uma instituição que não conseguiu caminhar com as próprias pernas no terreno arenoso e insidioso da cultura.

Despedida e Protestos



Havia frequentadores inconformados com o fechamento da Casa Daros.

Havia frequentadores inconformados com o fechamento da Casa Daros.

( Guilherme Aquino)

“Como um lugar tão maravilhoso como este está por fechar as portas? Lamentável “, escreveu na rede social da Casa Daros, a frequentadora Marluce Gonçalves da Silva. Ela era uma das 280 mil pessoas que visitaram a Casa Dares, ao longo da sua curta existência.

“ É uma pena! Muito triste! afirmava na véspera do encerramento Teresa Pinheiro, fazendo coro ao comentário de Tania Matos, “ Muito triste...”, “ Suíça investindo em cultura no Brasil? “Lavagem de dinheiro!” destoa do coral de lamentos, Roberto Matos.

No dia do fechamento, a instituição agradeceu ao público, com um post: “Obrigada a todos os frequentadores, artistas e colaboradores que fizeram esta instituição com tanto carinho. Nesses quase três anos de funcionamento. Seis grandes exposições de arte contemporânea, dezenas de atividades paralelas como performances, bate-papos, cinema e música, além de uma extensa programação educativa. Aqui nos despedimos “.

 Porto inseguro

Com direito à soltura de centenas de balões brancos de gás, no enorme pátio central. Cada um trazia uma mensagem escrita por um visitante.  “Um lugar especial não poderia acabar”, registrou a professora aposentada Lea Maria e completou a viva voz: “isso aqui era um oásis de paz, de contemplação, de encontro com a arquitetura do próprio local e com as mostras de alto nível. Espero que este balão voe longe”, dizia ela.

Com certeza o vento que soprava o levava na direção leste, rumo a África. “Melhor se fosse a nordeste, para a Suíça”, brinca o marido Celio Rocha, aposentado da Marinha. E sério afirma; “ É uma lástima, realmente. Difícil crer que tenha sido um mau planejamento”.

Porto inseguro

Foi um adeus em salsa e merengue.  A exposição de arte cubana acabaria sendo uma metáfora da parábola da Casa Daros em ares tropicais. Havana tinha sido a primeira cidade pensada para abrigar a instituição fora da Suíça.

Em 2003, o Ministério da Cultura já tinha dado o sinal verde quando o regime de Fidel Castro fuzilou três desertores e mandou 75 opositores para a prisão. Diante da repressão castrista, a Daros Latinamerica mudou o rumo e apontou para o Rio de Janeiro, um porto mais seguro, aparentemente.

Assim, a cidade maravilhosa ganharia um espaço moderno à altura de grandes marcos como a Tate Modern, de Londres, e o MOMA, de Nova York.  A obra de restauro do antigo casarão tombado pelo patrimônio histórico em 1987, respeitou as linhas neoclássicas do projeto original do arquiteto Francisco Joaquim Bethencourt da Silva (1831-1912) e concluído em 1866.

Mas o porto seguro carioca começou a demonstrar que não era tão seguro e eficaz assim. E os suíços bateram em retirada.

Quer dizer, “o suíço, o diretor, era o único suíço aqui. Todos os outros eram brasileiros. Os terceirizados terão outros postos, mas os funcionários fixos vão para a rua. Uma pena, aqui sempre tivemos um bom público, aos domingos vinham umas 400 pessoas; hoje, já passamos de mil em apenas três horas. O grupo privado de ensino Eleva comprou e isso aqui vai virar uma escola”, diz um empregado da Casa Daros, para swissinfo.ch.

Assim, mais um ciclo se fecha. No passado, o imóvel, que nasceu como um orfanato - e a placa em ferro batido mantém a história viva – também foi um colégio, um educandário. Pena que a biblioteca de 4 mil volumes sobre a arte latino-americana, da casa Daros, não ficará no país.

Ao final, tem-se a impressão que a Casa Daros nadou, nadou e morreu na praia, deixando como legado uma obra surreal, bem em sintonia com a realidade fantástica da arte latino-americana.

Um crepúsculo artístico-empresarial bem distante da iluminada e anunciada alvorada. Os artistas cedem lugar aos professores. A tela criativa vira um “quadro negro”.

Curiosidades

A Casa Daros abriu em 23 de março de 2013 e fechou em 13 de dezembro de 2015.

Ela abrigou as mostras Cuentos Colombianos, com dez artistas do país e Le Parc Lumière- Obras cinéticas de Julio Le Parc, do artista argentino Julio Le Parc,entre outras.

Um restaurante, uma livraria e uma biblioteca faziam parte do complexo da Casa Daros.

O acervo da casa mãe tem 120 artistas, entre eles 19 brasileiros.

A coleção começou a ser feita em 2.000, por obra do curador Hans Michael-Herzog e acabou em 2015 sem ter o contrato renovado.

Daqui em diante, a Daros Latinamerica vai concentrar as atividades no empréstimo internacional das obras do acervo.

O casarão de Botafogo tinha 12 mil metros de terreno e uma área construída de 11 mil.

Ele foi criado como Recolhimento da Órfãs e Desvalidas de Santa Thereza. Era um orfanato de meninas pobres, no século XIX.

Do século passado até 2003 foi rebatizado como Educandário Santa Teresa, uma escola para órfãs, em regime de semi-internato.  Depois passou a dividir as instalações com o Colégio Anglo Americano.

A Casa Daros formalizou a venda do imóvel para o grupo Eleva Educação, um dos maiores no ramo do ensino, com 55 mil alunos.

O Eleva é uma empresa do grupo Gera Venture Capital e tem como conselheiro o empresário Jorge Paulo Lemann, um dos homens mais ricos do Brasil, atualmente residente na Suíça.

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