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Opinião Praga da indiferença embota os ânimos e desbota a história

 “Quem fala hoje no extermínio dos armênios?” Consta que Adolf Hitler teria formulado a cínica pergunta em fins de agosto de 1939, dias antes de ordenar a invasão da Polônia e dar início ao Holocausto, o maior massacre em escala industrial registrado na história.

Ponto de vista
(swissinfo.ch)

O genocídio dos armênios no Império Otomano ocorreu no segundo ano da Grande Guerra, 1915, e começou na noite de 24 de abril na chamada “Sublime Porta” (Constantinopla, hoje Istambul). As tropas inglesas haviam desembarcado em Galipoli para enfraquecer a pressão dos turcos sobre os russos ansiosos para liberar o estreito dos Dardanelos.

A comunidade armênia majoritariamente cristã, pró-Rússia, começava a mobilizar-se, os militares turcos anteciparam-se e naquela noite prenderam, deportaram ou fuzilaram cerca de 250 intelectuais, profissionais liberais e lideranças políticas, religiosas e comunitárias armênias. Começava uma “operação limpeza” perpetrada pelos militares turcos, que em dois anos assassinaram cerca de um milhão e meio de armênios. Com a assessoria dos aliados alemães.

Promessa cumprida

O sangrento desenrolar da Primeira Guerra Mundial abafou as notícias sobre o massacre. Logo as conversações de paz, o fim do Império Otomano e o redesenho do mapa centro-europeu e médio-oriental colocaram uma pá de cal no terrível episódio.

Quando Hitler começou a arregimentar as massas com a bandeira da limpeza étnica e germanização da Europa, um talentoso poeta e dramaturgo tcheco-austríaco, Franz Werfel, judeu, amigo e companheiro de Franz Kafka e Max Brod, colaborador do ácido crítico vienense Karl Kraus e já casado com a linda e dominadora Alma Mahler, resolveu relembrar a pavorosa história.

A novela Os 40 dias de Musa Dagh tem uma envergadura tolstoiana e conta a história heroica e trágica dos cinco mil armênios da pequena localidade (Monte Moisés, em português) que preferiram morrer lutando a serem passivamente dizimados pelos turcos.

Publicada na Alemanha em 1933, antes de ser proibida e queimada pelos nazistas causou grande comoção internacional. Exemplares do livro foram contrabandeados para os guetos montados pelos alemães na Polônia e usados como cartilhas de resistência.

O sucesso da versão inglesa no ano seguinte (35 mil exemplares vendidos em apenas duas semanas) levou a Metro a comprar os direitos e iniciar a pré-produção com o então jovem galã Clark Gable como estrela.

Não foi adiante: a pressão alemã até 1941 e a turca logo depois, assim como o papel estratégico da Turquia durante a Guerra Fria, forçaram o adiamento do projeto, afinal materializado de forma medíocre em 1982.

Os genocídios armênio e judeu cruzam-se não apenas através das metodologias de extermínio. O casal Werfel deixou a Áustria quando esta foi anexada pelos alemães. Estabeleceram-se na França, perto de Marselha, mas a ocupação da França obrigou-os primeiro a esconder-se no santuário de Lourdes e, em seguida, a escapar da França cruzando os Pirineus na ponte comandada pelo americano Varian Fry e encarregada de salvar os intelectuais judeus da morte nos campos de extermínio. No grupo que cruzou a pé a fronteira franco-espanhola estavam um dos filhos de Thomas Mann (Golo Mann), seu irmão, o também escritor e político esquerdista Heinrich Mann, e a primeira mulher do amigo vienense Stefan Zweig, Friderike, duas filhas e genros. De trem atravessaram a Espanha e Portugal; em Lisboa embarcaram num velho vapor grego com destino a Nova York.

E, para cumprir uma promessa feita em Lourdes caso conseguissem se salvar, escreveu A Canção de Bernardete – logo transformado em filme de sucesso com música de Alfred Newman (1943). Morreu logo depois do fim da guerra, aos 54 anos.

Aposta na indiferença

O Holocausto eclipsou o banho de sangue perpetrado pelos turcos. Nos últimos 70 anos o genocídio armênio só foi lembrado por força de uma discussão bizantina sobre a qualificação de genocídio. Os turcos a rejeitam ferozmente, mas admitem a violência da guerra. Não querem ser comparados aos nazistas, embora os alemães tenham reconhecido o que fizeram com todos os substantivos e adjetivos apropriados. E, por isso, respeitados.

No domingo (19/4) nossos jornalões lembraram os 100 anos da tentativa de erradicar os armênios da face da terra. Como obrigação cronológica, efeméride, para cumprir uma pauta. Não lembraram a epopeia de Mussa Dagh publicada no Brasil em 1946 (pela José Olympio) e republicada nos anos 1970 pela Editora Paz e Terra, do descendente de armênios Fernando Gasparian, bravo combatente pela democracia brasileira.

Evocação solta no espaço e no tempo, sem as imperiosas e imensas vinculações e conexões, sem lembrar que genocídios se comunicam e se propagam. Em 1939, como teria dito o Führer, ninguém se importava com o que acontecera um quarto de século antes. Hoje, 70 anos depois, o morticínio parece que ainda não foi suficientemente entendido.

Adolf Hitler sempre apostou na indiferença, a praga que embota os ânimos e desbota a história.

(Artigo originalmente publicado em 22.4.2015 no Observatório da ImprensaLink externo

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