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Os outros caminhos do cristianismo

A imagem do menino Jesus entre o burrrinho e o boi provém de escritos apócrifos. (Foto: Sínodo Evangélico Luterano do Wisconsin)

Um grupo internacional de pesquisadores publica os textos cristãos apócrifos pouco conhecidos. Esses cientistas trabalham sob a direção do suíço Jean-Daniel Kaesli.

Um segundo volume desses textos acabam de ser publicados em uma das coleções mais prestigiosas da literatura francesa, a Bibliothèque de la Pléiade.

A história do galo que cantou três vezes quando Pedro renegou Jesus é conhecida dos cristãos. No entanto, eles geralmente ignoram que Cristo teria ressuscitado o galo previsto para a Santa Ceia e que o teria posteriormente mandado espionar Judas, o apóstolo traidor.

A primeira parte da história é conhecida porque está no Novo Testamento. A segunda parte está somente na Bíblia, relatada no "Livro do Galo", um texto apócrifo dos cristãos da Etiópia.

Os textos apócrifos foram redigidos nos primeiros séculos de nossa era por diversas comunidades cristãs mas que a Igreja não os integrou no Cânon bíblico porque se distanciavam do dogma ou porque abusavam do aspecto maravilhoso.

Para os leitores francófonos, esses diferentes textos estão disponíveis em dois volumes na prestigiosa coleção Bibliothèque de la Pléiade, da editora Gallimard. O primeiro volume, publicado em 1997, vendeu quase 30 mil exemplares e o segundo, publicado em setembro, já vendeu mais de 5 mil.

Esses textos foram reunidos pelo Instituto de Ciências Bíblicas de Lausanne, formado pelas três faculdades de teologia protestante de Lausanne, Neuchâtel e Genebra. Entrevista com o diretor, Jean-Daniel Kaesli.

swissinfo: Qual foi o seu papel e do Instituto nessa aventura?

Jean-Daniel Kaesli: O projeto de colaboração com as Edições Gallimard começou em 1989. No início, nosso Instituto e a Escola Prática de Altos Estudos de Paris eram os dois polos do projeto. Mas as colaborações se ampliaram com o tempo.

Daqui para a frente, nosso projeto foi assumido pela Associação Internacional que reúne mais de 60 pesquisadores de doze nacionalidades. Mas o Instituto que dirijo e, por conseguinte, a Universidade de Lausanne, continua no centro desse projeto internacional.

swissinfo: O que quer dizer examente um texto apócrifo?

J.-D. K. : A palavra apócrifo vem do grego e significa escondido, secreto. Na origem, é um termo atribuído a livros escritos mais ou menos na mesma época dos outros livros do Novo Testamento. Apócrifo indica que existe um sentido oculto, no sentido positivo da palavra. Podemos citar o evangelho do apóstolo Thomas, que contém palavras de Jesus.

Mas a partir do século IV, quando o Cânon de 27 livros do Novo Testamento foi formado, o termo apócrifo foi usado para designar textos que foram excluídos dessa coleção canônica. A partir desse momento, um texto apócrifo é um texto a ser rejeitado e portanto se desconfiava que ele contivesse idéias heréticas.

swissinfo: Atualmente, qual é posição das Igrejas protestantes e católicas com relação a esses textos?

J.-D. K. : Há grandes diferenças nessa massa que denominamos escritos apócrifos cristãos. Há textos que circulam em grupos cristãos marginais condenados pela Igreja. Seus textos foram proibidos ou destruídos ou ignorados. Encontramos alguns deles, por exemplo em jarros enterrados nas areias do Egito.

Mas existem também apócrifos que nunca foram condenados pela Igreja. O exemplo mais conhecido é o proto-evangelho de Tiago, que é perfeitamente integrado na tradição da Igreja.

swissinfo: O grupo de pesquisadores trouxe novos conhecimentos?

J-D. K.: No segundo volume, reunimos textos que não fazem parte da coleção clássica dos textos apócrifos cristãos. Eles provêm de comunidades cristãs situadas à margem dos impérios romano e bizantino: as comunidades copta, armênia e etíope.

A maior parte desses textos está traduzida pela primeira vez em francês. Pelo menos três deles nunca haviam sido traduzidos em uma língua moderna. Para conhecê-los, era preciso saber armênio, siríaco ou etíope, ou então pertencer às Igrejas da periferia.

Esses textos que foram traduzidos pela primeira vez eram conhecidos apenas por alguns raros especialistas.

swissinfo: Esses dois volumes publicados na Bibliothèque de la Pléiade são sucesso de livraria. Não é surpreendente?

J.-D. K. : Quando vimos os dados das vendas dessas dois volumes, ficamos inicialmente surpresos. Mas acho que isso se explica pelo fato desses textos gravitarem em torno da Bíblia. Há um público que continua interessado por tudo que diz respeito à Bíblia.

Também existe uma tendência bem ilustrada pelo sucesso de romances como o Código Da Vinci, de Dan Brown. Uma parte do sucesso provém ainda dessa curiosidade de uma parte do público pelas tradições esotéricas.

Mas penso que os leitores que comprarem os volumes com essa intenção ficarão decepcionados. Há alguns elementos que podem impressionar ou supreender mas não há qualquer revelação que possa transformar totalmente a imagem do cristianismo e a compreensão da Bíblia.

swissinfo: Como teólogo, qual sua recomendação para que o leitor apreenda esses textos?

J.-D. K. : Cada um vai abrir esses livros com questões que lhe são próprias.

Eu penso que há um aspecto que pode interessar muita gente. É o de compreender melhor como, ao longo de séculos, os cristãos de diferentes regiões do mundo viveram com a Bíblia, como eles a prolongaram, embelezaram e completaram. Aí tem um aspecto histórico.

Depois, conhecer melhor esses textos é conhecer melhor a cultura e a fé de gente que vive em Igrejas que nós conhecemos muito menos do que a Igreja em que crescemos. Enfim, há ainda o aspecto literário. São histórias apaixonantes a descobrir.

Mas, na minha opinião, esses textos não têm nem pretendem ter o mesmo estatuto nem a mesma autoridade dos textos do Novo Testamento.

swissinfo, Olivier Pauchard

Fatos

Os textos reunidos em dois volumes contém diversos gêneros bíblicos: evangelhos, epítropes, Atos de apóstolos, apocalipses.
O segundo volume concentra-se em escritos provenientes de Igrejas cristãs periféricas dos impérios romano e bizantino (Etiópia, Egito, Armênia, etc.)
Consta também o Evangelho de Maria, que inspirou em parte a trama do Código de Da Vinci, de Dan Brown.
Com esses dois volumes, os leitores francófonos dispõem de cerca de 80 textos cristãos apócrifos. Para comparar, o Novo Testamento contém 27.

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Breves

- Certos escritos cristãos apócrifos são conhecidos do público.

- Um exemplo é o da imagem do menino Jesus na manjedoura entre um burrinho e um boi. Essa cena não existe no Novo Testamento.

- A adoração dos três magos, mais tarde transformados em três reis também é parte de escritos apócrifos.

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