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A cura do câncer ou um grande negócio

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A indústria médica de câncer, segundo as previsões, deverá tornar-se, nos próximos anos, o mais lucrativo setor terapêutico mundial. Essa indústria é dominada por dois gigantes farmacêuticos, sediados na Suíça, Roche e Novartis.

Este conteúdo foi publicado em 14. março 2013 - 11:00
Chantal Britt, swissinfo.ch

Analistas econômicos da IMS Health, em Connecticut, preveem que o mercado de produtos de câncer chegue à casa dos 75 bilhões de dólares (CHF 71 bilhões), até 2015, representando um aumento de cerca de 40% sobre os $54 bilhões faturados em 2009.

A mais ambiciosa meta de todos os participantes desse lucrativo mercado é descobrir a cura da enfermidade que, segundo a Liga Suíça contra o Câncer, afetará uma em cada três pessoas, durante seu período de vida. As barreiras, os objetivos e os orçamentos diferem, porém, segundo seus respectivos papéis, nos campos da descoberta de medicamentos, desenvolvimento e marketing.

“Tanto para as organizações sem fins lucrativos como para as que visam lucros, os desafios são idênticos. É, no entanto, mais fácil superar barreiras quando se dispõe de dinheiro, disse Beat Thürlimann, presidente do Grupo Suíço para Pesquisa Clínica do Câncer e diretor do Centro de Câncer de Mama do hospital cantonal de St.Gallen. A indústria gasta até 30 vezes mais em pesquisa do que organizações acadêmicas, observou.

A Roche, que há mais de 50 anos sintetizou sua primeira molécula cancerígena, comercializa as três mais importantes drogas do mundo – ou cinco das dez principais terapias, controlando cerca de um terço do mercado mundial.

O setor oncológico da Roche responde por mais de metade da sua comercialização e de seus orçamentos para pesquisa e desenvolvimento. A empresa gastou, no ano passado, 19% de suas vendas – CHF8.5 bilhões – em R&D (Pesquisa e Desenvolvimento).

“Em consequência desse volume de investimento anual, é preciso produzir drogas que façam a diferença, que sejam usadas amplamente e cujo reembolso produza verbas para aplicação em futuros programas”, disse Stefan Frings, responsável pelo setor de oncologia de organização parceira da Roche.

Tratamento personalizado

A medicina personalizada consiste em adaptar os tratamentos ao indivíduo ao invés de tratar os pacientes em função dos sintomas, ou seja, a maneira tradicional que funciona por ensaio e erro.

Os progressos da pesquisa genética poderiam permitir uma melhor compreensão do impacto da genética em doenças como o câncer.

Os medicamentos contra o câncer podem, por exemplo, visar os genes que normalmente controlam o crescimento celular, porque os oncogenes favorecem a proliferação descontrolada das células e a formação de tumores.

O tratamento personalizado visa desenvolver moléculas adaptadas às características genética dos tumores de cada doente.  

Esses resultados permitem aos médicos detectar nos pacientes certas mutações genéticas que têm um papel no desenvolvimento tumoral. Essa individualização dos tratamentos permite fabricar remédios mais eficazes e menos nocivos, mas isso significa também que essas terapias só funcionam se há certeza que o paciente é portador de uma mutação genética precisa.

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Pastilhas Mágicas

Os tratamentos tradicionais como radioterapia e quimioterapia – de aplicação muito mais vasta – atende a cerca de um quarto do mercado. O sonho dos pacientes, médicos, governos, controladores e fabricantes de remédios é o de um tratamento mais individualizado, que funcione melhor e com menores efeitos colaterais, pois é baseado no conhecimento da biologia do tumor.

Estas drogas específicas, que estão reformulando, irreversivelmente, o mercado, exigem mais dinheiro para seu desenvolvimento ao mesmo tempo que prometem melhores tratamentos.

Quando a concorrente Novartis lançou Glivec, o quarto medicamento mundial para o câncer, aprovado em 2001, a droga foi capa da revista americana Time e aclamada como pastilhas mágicas na cura contra o câncer. Hoje, parte dessa magia perdeu seu encanto.

Perdas com patentes, exigências regulatórias mais duras e a relutância governamental em pagar medicamentos caros estão desafiando os fabricantes de drogas. Estas também são as razões pelas quais o desenvolvimento de medicamentos extremamente rendosos (‘blockbusters’), capazes de gerar vendas anuais de 1 bilhão de dólares, está se tornando cada vez mais difícil, segundo a IMS Health.

Daqui para frente, o caminho para os fabricantes de remédios é descobrir ou comprar patentes de promissoras pesquisas, que possam se tornar uma droga inovadora, a primeira e única de sua categoria, explica Frings.

Se não há patentes, não há interesse para os fabricantes de remédios, disse Thürlimann à swissinfo.ch. Algumas vezes as pesquisas não se pagam porque o produto poderá perder, a curto prazo, sua patente protetora ou porque o mercado se revela limitado.

“Se você tem em mãos uma rara doença de complexa mutação talvez não consiga executar um programa de desenvolvimento”, disse Frings.

Que terapia?

O desafio da organização sem fins lucrativos de Thürlimann não é descobrir fórmulas mágicas, mas identificar a melhor terapia para os pacientes, comparando-a com o que se acha disponível no mercado. Cerca de 40% do orçamento de CFH 12 milhões para realizar testes clínicos são financiados pelo governo mais a participação das indústrias e de doações, em partes iguais, de 30 por cento cada.

Para as organizações sem fins lucrativos, a propriedade intelectual e os lucros futuros talvez não sejam a principal questão dessa luta, desde que, no final do dia, todos os atores dividam não só ganhos e sonhos como também os pesadelos.

“O pesadelo do oncologista é que existe uma droga produzindo resultados, devidamente aprovada para ele usar, que está em seu armário – mas que não pode utilizá-la porque a terapia é muito cara e não é reembolsável”, diz Thürlimann.

A política econômica da saúde e a qualidade de vida da população moldam cada vez mais as decisões. Com novas drogas – algumas custando mais de $100,000 por ano – os doutores têm que avaliar se os benefícios médicos obtidos compensam as despesas. Algumas vezes pacientes chegam a ser aconselhados a suspenderem o tratamento oncológico, diz o oncologista Thürlimann.

“Com custos crescentes não somente apelamos para a eficiência como para dados estatísticos que comprovem os benefícios para o paciente” disse Thürlimann.

“Podemos testar se uma droga funciona com uma dose menor ou em um período mais curto de tempo ou ainda levamos em consideração indícios que fogem à lógica de mercado para as indústrias farmacêuticas.

“Um animal arisco”

Quando o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, declarou “guerra ao câncer”, em 1971, muitas pessoas acreditaram que pesquisadores médicos venceriam a doença dentro de dez anos. A missão, entretanto, se revelou muito mais complexa.

Como área de pesquisa, os estudos do câncer podem ser menos fragmentados e melhor unificados do que outras enfermidades. Na Suíça, cerca de 40% das pesquisas médicas em pacientes são conduzidos na área de oncologia, juntamente com 38 diferentes campos de pesquisa – incluindo doenças cardiovasculares, imunologia e desordens mentais – complementando o restante, segundo Thürlimann.

Mas apesar de o genoma humano ter sido completamente ‘genotipado’, há dez anos, o câncer ainda é um “um animal arisco”, Frings disse - à swissinfo.ch - em linguagem metafórica. Muitos dos mecanismos que provocam 250 diferentes tipos de tumores malignos ainda não foram satisfatoriamente identificados e exigem uma diferente abordagem.

As células cancerígenas infiltram-se no corpo humano, ganham experiência, aprendendo a fugir, passar por mutações, dividir-se, crescer e desenvolver resistências. Progressos e incursões visando desvendar mecanismos e superar todas estas proezas típicas surgem geralmente passo a passo ao longo das décadas, Frings explica.

Mesmo assim, para a Roche, o fato de o câncer ser baseado em definidos mecanismos biológicos, é também uma bênção. É muito mais fácil pesquisar o câncer que doenças multifatoriais, em que o meio ambiente, as atitudes ou a idade podem desempenhar o papel principal, observa Stefan Frings.

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