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Retrospectiva do mais popular pintor suíço

Camponês com feijão verde, 1901 (Fundação Gianadda).

As obras mais representativas de Albert Anker, que entre os grandes pintores suíços é mais conhecido pelo povo, estão expostas em Martigny até 23 de maio.

A mostra reativa certa polêmica pela conexão que se faz entre o pintor e um líder da direita, hoje ministro do governo.

Albert Anker (1831-1910) pode não ser o mais famoso – o Petit Larousse, dicionário francês de referência nem o menciona – mas entre os pintores suíços de renome, como Ferdinand Hodler, Paul Klee e Alberto Giacometti, ele é seguramente o que o povo suíço conhece melhor.

Alguns de seus quadros – como os de crianças brincando ou cumprindo deveres escolares, ou ainda de pessoas idosas na labuta diária – têm sido sempre muito reproduzidos, entrando nos lares suíços, através de calendários, livros didáticos, cartões postais, caixas de lápis ou simples caixas de biscoitos...

Sucesso variável

Calcula-se que, por ano, suas obras são reproduzidas em cerca de 15 mil cartões postais. E segundo a curadora do Museu de Artes de Berna, Therese Bhattacharya-Stettler, é difícil encontrar uma casa de camponês da região da Suíça de língua alemã onde não haja um calendário com reproduções de Anker.

Curiosamente, a estima de que goza Anker – que é natural de Ins, perto da capital Berna – limita-se mais à Suíça Alemã.

(Ela é bem menor na Suíça Francesa. Basta dizer que a atual retrospectiva na região – em Martigny – é a primeira desde 1911. Mas como os suíços alemães representam 2 terços da população do país – os de língua italiana são 10% – eles têm naturalmente peso bem maior).

O apreço popular pela obra do pintor tem lógica. Retratando a vida rural, Anker demonstrava estima pelas pessoas simples. A retribuição veio naturalmente...

Vale notar que a vida dos camponeses suíços num registro naturalista é o filão que o artista explora em Paris, onde durante 35 anos Anker passava o período do inverno.

Nem van Gogh fica indiferente

O sucesso na França veio logo. Na capital francesa, ele participa ativamente da vida artística, expõe no badalado “Salon de Paris”, onde, aliás, recebe uma medalha de ouro em 1866 por um de seus óleos (“Dans les bois”). O sucesso de Anker chega a ultrapassar as fronteiras: na época, suas obras interessam a marchands de Frankfurt, Londres ou mesmo dos Estados Unidos. Albert Anker torna-se o pintor suíço mais famoso no século XIX.

Em uma das cartas de van Gogh a seu irmão Theo, em 1883, o artista holandês manifesta interesse pelos trabalhos do pintor suíço, trabalhos que ele estima “sérios, aplicados e subtis”. E acrescenta: “Ele (Anker) é ainda da velha escola”.

Albert Anker estudou em Paris com Charles Gleyre, pintor suíço, o mesmo que orientou os famosos impressionistas Monet, Renoir e Sisley. Mas Gleyre não era nenhum revolucionário em pintura. Isso talvez explique, pelo menos em parte, porque o próprio Anker passou ao largo do impressionismo e do realismo militante de um Courbet ou Millet.

Divergência

Há no entanto quem conteste a afirmação de que a pintura de Anker escamoteia as tensões sociais.

Segundo o critico suíço Philippe Mathonnet, há os que acham desenxabido esse gênero de pintura, reflexo de uma época. Mas ele mesmo estima que “debaixo do verniz de suas telas, ele pinta as tensões sociais e a dureza dos tempos, através de roupas remendadas, de pessoas que passam fome ou da condescendência de uma burguesa”.

Em geral predomina, porém, a opinião de que a obra de Anker reflete ao mesmo tempo de uma Suíça idílica, voltada para os valores da família, alheia ao mundo exterior.

Essa ótica combina muito bem com o programa do partido de direita, UDC (União Democrática do Centro), cujo expoente maior é Christoph Blocher, que desde o início deste ano exerce o cargo de ministro da Justiça e Polícia. Blocher que é considerado o maior colecionador das obras de Albert Anker.

Mas há os que relativizam tudo isso. Blocher gosta de Anker? E daí? se pergunta.

Podem ter razão. Afinal o importante é qualidade do pintor. Sua obra transmite uma real emoção e não se pode negar seu alto valor estético.

swissinfo, J.Gabriel Barbosa

Breves

- Durante a vida, Albert Anker – falecido em 1910 – tinha fama internacional. Ele é considerado o pintor suíço mais popular do século XIX. Após a morte, seu renome se limita à Suíça.

- Anker estudou vários anos teologia protestante. Mas sentia vocação para a pintura a que se consagrou após autorização paterna.

- A retrospectiva, que se realiza de 19 de dezembro de 2003 a 23 de maio de 2004, apresenta as diferentes técnicas utilizadas pelo pintor – óleos, desenhos, aquarelas e faianças.

- As aquarelas, realizadas por ocasião de viagem à Itália em 1891, revelam maior leveza e liberdade que o resto de sua obra, afirmam especialistas.

- Anker realizou mais de 500 pinturas em faianças – em travessas, pratos e vasos – para uma firma francesa. Foram um meio de engordar os rendimentos de um pintor que em geral viveu sem problemas financeiros.

- Christoph Blocher – figura de direita e atual ministro suíço – é um dos maiores colecionadores das obras de Anker. Ele já adquiriu 130.

- Blocher emprestou 26 obras para a retrospectiva atual, realizada na Fundação Gianadda, em Martigny, estado do Valais, sudoeste suíço.

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