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Suíça rural festeja cultura e identidade em Interlaken

Para muitos suíços o folclore é uma questão de identidade.

(swissinfo.ch)

A Festa de Unspunnen é uma celebração apoteótica da população rural suíça, um mundo que não se deixa influenciar pelo moderno e prova como a tradição e os costume são importantes para a consciência nacional.

O repórter da swissinfo participou do evento e até mostrou que mesmo brasileiros conseguem lançar pedras, mesmo elas não indo muito longe.

Estamos no ano 2006 depois de Cristo. O início do século XXI pertence aos cabos de fibra ótica e à Internet. Eles abrem as portas dos rincões mais isolados ao mundo em evolução. A Europa está unida por uma sociedade transacional e as fronteiras não existem mais. As mercadorias e os cidadãos transitam sem obstáculos.

Não, mas existe uma tribo de helvécios que parece resistir às ondas da globalização. Teimosos, seu país é o único que insiste em não pertencer a essa união européia. Os habitantes dessas elevadas montanhas e vales profundos se apegam a tradições centenárias e dialetos incompreensível para mostrar, dessa forma, que lá o mundo ainda está em ordem.

Festa de Unspunnen 2006 é o nome da maior celebração folclórica da Suíça. Durante três dias, de 1 a 3 de setembro, mais de 120 mil membros dessa tribo e alguns turistas estrangeiros visitaram o grande parque instalado em Interlaken, cidade na região de montanhas do cantão de Berna. O que se viu foi uma apoteose do mundo rural helvético em toda sua beleza e singularidade, um acontecimento que só ocorre de doze em doze anos.

Choques culturais

Já na principal avenida de Interlaken, onde estão os melhores hotéis da cidade, era fácil descobrir a origem de alguns visitantes. Trajando roupas folclóricas suíça – casacões de veludo preto e chapéu, para os homens, e longas saias e espartilhos com as mais variadas coberturas de cabeça para as mulheres, tudo sempre cheio de bordados de flores alpinas – muitas dessas pessoas paravam na frente do único sex shop da cidade e começavam a rir. Meio encabulados, eles até ameaçavam admirar alguns dos produtos nas vitrines, mas partiam sempre com rapidez, antes que alguém pensasse que eles iriam entrar nesse estabelecimento pecaminoso.

A Festa de Unspunnen foi uma comemoração do mundo do campo. Não apenas pelo fato de quase todos estarem utilizando trajes típicos, mas também pelo orgulho com que os trajavam. Uma parada na barraquinha do leite para tomar um milk-shake de morango e a maioria continuava pela avenida para ver as surpresas do dia.

Um deles era o lançamento de bandeiras, também conhecida como "Fahnenschwinger". Essa é uma das tradições mais marcantes do folclore helvético e surgiu no século XVI. Os turistas desavisados costumam pensar que seus praticantes são malabaristas. Na verdade eles são camponeses orgulhosos dos seus cantões e que, com muita habilidade, jogam as bandeiras cantonais ou vermelhas com a cruz branca para o alto, fazendo evoluções e pegando depois os mastros com a outra mão.

Também havia os grupos de canção alpina, mais conhecido como "Jodler". Eles se apresentavam por todos os lados, em pequenos grupos ou até mesmo apenas formados por crianças. Cerca de 50 delas participaram do concurso de coro juvenil. Muitos turistas chegavam a deixar rolar uma lágrima ao ver esses grupos cantando canções tão melancólicas e melodiosas, surgidas como uma forma de comunicação nas aldeias de montanha. A prática do "jodeln" é como uma prece humilde à natureza.

Outros eventos paralelos também atraíram muitos visitantes. No concurso "Schwiizer Musig" (música suíça), jovens e idosos mostraram suas habilidades tocando sanfonas, violinos, cítaras, corne dos Alpes e até mesmo outros instrumentos completamente exóticos. Quem poderia imaginar que em Appenzell existe um instrumento chamado "Talerschwingen", uma espécie de vaso de barro onde se gira uma moeda, fazendo um som inconfundível?

O suíço rural não gosta apenas de escutar música. Ele também dança. A Festa de Trajes Típicos é um dos exemplos, onde grupos vindo dos mais distantes vales e diferentes idades apresentavam danças típicas com nomes indecifráveis: "Bärenmutz", "Määrtgässler ou "Churzentschlossunä" na parte alemã e "Ballade des Pinguins" ou "Mia Marusa", na parte francesa.

No sábado, à meia-noite, a grande barraca de apresentação ainda estava repleta de grupos para se apresentar. Alguns dos seus membros eram pessoas idosas, que pareciam estar confusos por ficar tanto tempo acordado. Talvez por isso muitos aproveitavam uma pausa nas danças para dormir nos bancos de madeira, enquanto outros já pediam mais cerveja.

Lutas

A vida rural na Suíça é dura. Afinal, produzir queijos a dois mil metros de altitude ou tirar frutos das poucas terras pouco férteis espremidas entre as montanhas não é para qualquer um. Essas dificuldades criam um camponês robusto e um pouco rude.

Essas pessoas costumam chamar um dos esportes preferidos do país, a luta suíça, de "trabalho". Ela lembra um pouco o sumô japonês, mas um pouco mais rústico. Qualquer pessoa que se considere patriota conhece as técnicas dessa luta, onde dois homens musculosos seguram nas barras dos seus calções típicos de couro e no cinto, para tentar derrubar o adversário e fazê-lo encostar com as costas o chão.

"Nesse esporte não fazemos controle de dopping. Os lutadores são fortes pois trabalham duro no dia-a-dia", explicou um dos organizadores do campeonato juvenil para rapazes nascidos entre 1988 e 1991. Cerca de 160 deles estavam inscritos nas competições. Nos ringues feitos de areia, as cenas lembravam guerras de gladiadores. Porém a luta é honesta: o perdedor recebe uma mão do ganhador para se levantar e tem também suas costas limpas por ele, num gesto de amizade e humildade. No sábado, 1.500 pessoas assistiram as lutas e vibraram com cada cena. O ganhador recebia prêmios também curiosos: sinos de vaca, cadeiras de madeira talhada e móveis rústicos.

Se mulheres participam da luta? A resposta foi lapidar: - "Acho que existem 30 delas praticando o esporte na Suíça, mas na verdade a mulher participa da luta suíça sentando no banco do espectador e aplaudindo seu marido", declarou rindo o organizador.

Hércules alpino

Se o repórter que escreve essas linhas se impressionou com a força e tenacidade dos jovens lutadores, o espanto foi maior ao visitar no dia seguinte o local sagrado de Unspunnen, uma área aberta no meio da floresta, com um castelo em ruínas, a poucos quilômetros de Interlaken.

Pela manhã, uma multidão já estava reunida no local para admirar uma das competições mais singulares do mundo: o lançamento da pedra de Unspunnen.

O bloco de granito com 83,5 quilos é majestoso. Porém um grupo de homens musculosos parece não ter problema para levantá-las. Alguns deles ainda soltam urros animalescos antes de iniciar uma corrida que só é interrompida na linha marcada antes do campo de areia. A gigantesca pedra voa como se tivesse asas. Na Festa de Unspunnen 2006, o ganhador foi Markus Maire, um verdadeiro "pacote" de músculos de 115 quilos e 1,85 metros de altura. Na vida normal ele é marceneiro e um exímio construtor de escadas. Na competição o suíço bateu o recorde do evento: 3,89 metros de distância.

O exemplo do campeão suíço foi seguido por centenas de crianças, jovens, homens e mulheres que participaram de várias competições de lançamento de pedras durante a Festa de Unspunnen. Havia de todos os gostos e tamanhos: quadradas ou redondas, umas com 16, outras com até 40 quilos.

O repórter da swissinfo arriscou lançar uma delas, a de 40 quilos, conseguindo jogá-la a impressionantes dois metros de distância. O feito não impressionou as crianças, que torciam para o participante que jogava o pedregulho a mais de quatro metros entre uma cerveja e outra. Aos participantes da brincadeira os organizadores davam diplomas de "capacitação" em lançamento de pedras.

Chave de ouro na Unspunnenfest

Nenhum dos diversos eventos da Festa de Unspunnen foi tão importante quanto a decisão final no campeonato de luta suíça, a "Unspunnen-Schwinget". Nele, apenas os 120 lutadores mais fortes podiam participar.

Em meio ao clarão na floresta, estavam os cinco ringues de areia separados por uma linha das arquibancadas. Num dos cantos, os lutadores se refrescavam na água que estava numa espécie de banheira de madeira, como aquelas vistas nas fazendas para as vacas beberem. Antes de entrar no ringue, alguns deles ainda jogavam um pouco de areia nos ombros como se fossem atrair a sorte. O olhar entre os adversários era sério. Todos pareciam ter ganho músculos de ferro com a alimentação pesada das fazendas e trabalho duro no campo.

A platéia era a de feiras agropecuárias: homens rudes com mãos grossas, tomando uma cerveja e torcendo para os amigos. Nos intervalos, pessoas vestidas com trajes folclóricos entravam nos ringues para tocar corne dos alpes, cantar coros alpinos e também rodar uma estranha chibata ao ar, que estalava de forma ruidosa como se fosse bombas.

Alguns dos lutadores se feriam. Porém todos se conhecem nesse esporte, que é exclusivamente praticado na Suíça. Nele nenhuma forma de propaganda é permitida. O "Schwinget" é um esporte de amigos.

O ganhador desse ano, Martin Grab, veio de Schwyz, um dos cantões fundadores da Suíça. Ele destronou o favorito e levou o maior prêmio: um touro. O bombeiro hidráulico de 27 anos foi carregado por uma multidão depois da vitória. Sua alegria era tanta, que ele não sabia dizer o que iria fazer com o prêmio, o touro "Muni Daniel". Na maior parte das vezes, os ganhadores vendem o seu prêmio ainda no ringue.

Poucos minutos depois da luta, a grande parte dos presentes já abandonava a arena. Antes de partir, ainda foi necessário agradecer a ajuda de um rapaz trajando roupas típicas, que ficou o tempo todo explicando as regras da luta. Apressado, ele só teve tempo de dizer: "Amanhã tenho quinze vacas para cuidar". É preciso saber que um bom suíço nunca esquece o trabalho.

swissinfo, Alexander Thoele

Fatos

A festa de Unspunnen ocorre entre 1 e 3 de setembro de 2006, em Interlaken (cantão de Berna).
O evento conta com quatro mil participantes ativos, 1.500 voluntários e cerca de cinqüenta mil visitantes.
Orçamento: 2 milhões de francos suíços.

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