Navigation

Universidade de Zurique recebeu professor moçambicano

swissinfo.ch

O historiador e escritor moçambicano, docente na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, João Paulo Borges Coelho, palestrou recentemente na Universidade de Zurique.

Este conteúdo foi publicado em 29. abril 2008 - 17:02

Veio falar da história de seu país, tendo como ponto de partida o 25 de abril de 1974, data da Revolução dos Cravos, que marcou o fim do Estado Novo em Portugal.

Nascido na cidade do Porto, em Portugal, o professor João Paulo Coelho doutorou-se em História na Inglaterra, em 1993. Na palestra em Zurique, disse que a relação de Moçambique com o 25 de Abril é mais racional do que emocional e que a data não é importante para a sociedade moçambicana.

Na época o regime colonial em Moçambique estava nos limites do sustentável, dado o enorme esforço financeiro e humano que acarretava para Portugal.

A guerra colonial foi um dos motivos para a emigração em massa dos portugueses nos anos 60, essencialmente para a França, chegando naquele tempo a cerca de 20% os desertores ao serviço militar.

O 25 de Abril levou 110 mil portugueses, de cerca 120 mil que se encontravam em Moçambique em 1974, a abandonarem o território de forma apressada e dramática nos meses a seguir aos acontecimentos.

Para a Frelimo, a organização que combateu sempre as forças de ocupação portuguesas, o 25 de Abril de 1974 originou a sua subida ao poder de uma forma fácil e sem oposição, e não se pode dizer que tenha sido uma conquista. Ao final da palestra em Zurique, o professor respondeu a algumas perguntas:

Swissinfo: Podemos dizer que o 25 de Abril pacificou a África Austral naquela época?

Professor Borges Coelho: Não. Como fenómeno, podemos dizer, que acelerou, mas não pacificou. Porque o 25 de Abril abriu o caminho para o fim do colonialismo em Moçambique e em Angola, mas as situações coloniais continuaram a persistir na Rodésia até 80, e na África do Sul, que é uma situação sui generis, até princípios de 91, 92. Nesse sentido ainda houve mais quase vinte anos de confronto de natureza colonial.

Sabe-se tudo sobre o Verão Quente de 1975?

PBC: É-me difícil de responder a essa pergunta nesta perspectiva que eu desenvolvi aqui. O Verão Quente, não foi fundamental para o processo Moçambicano. Foi indirectamente no sentido de falta de coesão portuguesa nas negociações com Moçambique.

O Verão Quente é um problema mais interno de Portugal, mas com relações mais claras com o facto da possibilidade de haver um governo socialista na Europa Ocidental. De facto não alterou muito a tendência dos acontecimentos em Moçambique, que caminhava já a passos largos para a sua independência.

A situação que se vivia em Moçambique entre 1970 e 72, acelerou o processo do 25 de Abril?

PBC: Eu penso que sim. Não diria que foi o principal factor, mas foi sem dúvida um factor importante. Tanto a de Moçambique, como a de Angola e da Guiné. De facto havia células do movimento dos capitães nesses territórios todos. Eu posso dizer que a situação militar, foi sem dúvida, para mim, o principal factor do 25 de Abril.

Como vê Moçambique nos dias e hoje o 25 de Abril?

PBC: Não é uma data importante. Se calhar deveria ser mais importante. Não é considerada uma data nacional...

Mas é lembrada nas escolas?

PBC: Sim. Ainda agora a escola portuguesa faz regularmente na data do 25 de Abril colóquios, organiza exposições, mas nas escolas públicas moçambicanas não tem essa expressão...

Falou no êxodo de 110 mil portugueses após o 25 de Abril. Na sua opinião, como seria Moçambique se esses 110 mil portugueses não tivessem partido?

PBC: É abstracto, a nível da economia não teria sido tão traumático. Mas nós não podemos desligar isso também do espírito da época e da perspectiva que esses próprios portugueses teriam do processo. Eram muitos anos de colonização, derivada a aspectos de racismo e de grandes desigualdades.

Portanto é difícil imaginar essas pessoas aceitarem também de um momento para o outro uma mudança tão profunda no seu lugar na sociedade. Não há uma resposta simples. Num certo sentido teria suavizado as perdas mas no outro sentido é duvidoso que também eles aceitassem. É daquelas feridas que eram necessárias para curar o processo.

Como vê Moçambique nos dias de hoje?

Imagine que há alguns afectos, com algumas parcerias Ainda há pouco tempo esteve lá o presidente Cavaco Silva. Portugal não tem aquela importância como tem para Cabo Verde ou para a Angola, mesmo se por vezes é uma relação conflituosa.

Moçambique tem uma situação particular porque é periférico em relação à África do Sul, muito mais de com Portugal... Portugal é muito mais distante...

Entrevista swissinfo, Adelino Sa

Biografia breve

João Paulo Borges Coelho nasceu no Porto, em 1955, mas adquiriu nacionalidade moçambicana. É historiador.

Ensina História Contemporânea de Moçambique e África Austral na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, e, como professor convidado, no Mestrado em História de África da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Tem-se dedicado à investigação das guerras colonial e civil em Moçambique, tendo publicado vários textos académicos em Moçambique, Portugal, Reino Unido, Espanha e Canadá. As Duas Sombras do Rio é a sua primeira obra de ficção.

Fonte: Editora Caminho

End of insertion

As duas sombas do Rio

Esta é uma história feita de histórias entretecidas. Histórias de guerra e de sobrevivência, de pequenos sinais de humanidade rompendo da violência como as plantas rompem das pedras.

É também uma história de divisões: divisões entre a memória e o presente, entre os deuses e os homens, entre os homens eles próprios. Divisões que crescem no espaço da grande divisão que o majestoso rio Zambeze cavou, separando o mundo da cobra feminina, milenar e sábia, e o mundo do leão masculino, jovem e fogoso — erigindo uma fronteira entre o Norte e o Sul.

Por isso sofre tanto, dividido, sem se encontrar, o pobre Leónidas Ntsato, que tem apelido de cobra mas a quem o pai deu nome de leão. E por isso se afadigam tanto os curandeiros, pedindo aos deuses que o deixem voltar a ser um só.

Esta história feita de histórias mostra que talvez os homens encontrem na ilha de Cacessemo, a meio do rio, uma ponte de união entre o mundo da água e o mundo do fogo.

Fonte: Editora Caminho

End of insertion

Este artigo foi automaticamente importado do nosso antigo site para o novo. Se há problemas com sua visualização, pedimos desculpas pelo inconveniente. Por favor, relate o problema ao seguinte endereço: community-feedback@swissinfo.ch

Em conformidade com os padrões da JTI

Em conformidade com os padrões da JTI

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Os comentários do artigo foram desativados. Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch

Partilhar este artigo

Modificar sua senha

Você quer realmente deletar seu perfil?