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Universidade de Zurique recebeu professor moçambicano

(swissinfo.ch)

O historiador e escritor moçambicano, docente na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, João Paulo Borges Coelho, palestrou recentemente na Universidade de Zurique.

Veio falar da história de seu país, tendo como ponto de partida o 25 de abril de 1974, data da Revolução dos Cravos, que marcou o fim do Estado Novo em Portugal.

Nascido na cidade do Porto, em Portugal, o professor João Paulo Coelho doutorou-se em História na Inglaterra, em 1993. Na palestra em Zurique, disse que a relação de Moçambique com o 25 de Abril é mais racional do que emocional e que a data não é importante para a sociedade moçambicana.

Na época o regime colonial em Moçambique estava nos limites do sustentável, dado o enorme esforço financeiro e humano que acarretava para Portugal.

A guerra colonial foi um dos motivos para a emigração em massa dos portugueses nos anos 60, essencialmente para a França, chegando naquele tempo a cerca de 20% os desertores ao serviço militar.

O 25 de Abril levou 110 mil portugueses, de cerca 120 mil que se encontravam em Moçambique em 1974, a abandonarem o território de forma apressada e dramática nos meses a seguir aos acontecimentos.

Para a Frelimo, a organização que combateu sempre as forças de ocupação portuguesas, o 25 de Abril de 1974 originou a sua subida ao poder de uma forma fácil e sem oposição, e não se pode dizer que tenha sido uma conquista. Ao final da palestra em Zurique, o professor respondeu a algumas perguntas:

Swissinfo: Podemos dizer que o 25 de Abril pacificou a África Austral naquela época?

Professor Borges Coelho: Não. Como fenómeno, podemos dizer, que acelerou, mas não pacificou. Porque o 25 de Abril abriu o caminho para o fim do colonialismo em Moçambique e em Angola, mas as situações coloniais continuaram a persistir na Rodésia até 80, e na África do Sul, que é uma situação sui generis, até princípios de 91, 92. Nesse sentido ainda houve mais quase vinte anos de confronto de natureza colonial.

Sabe-se tudo sobre o Verão Quente de 1975?

PBC: É-me difícil de responder a essa pergunta nesta perspectiva que eu desenvolvi aqui. O Verão Quente, não foi fundamental para o processo Moçambicano. Foi indirectamente no sentido de falta de coesão portuguesa nas negociações com Moçambique.

O Verão Quente é um problema mais interno de Portugal, mas com relações mais claras com o facto da possibilidade de haver um governo socialista na Europa Ocidental. De facto não alterou muito a tendência dos acontecimentos em Moçambique, que caminhava já a passos largos para a sua independência.

A situação que se vivia em Moçambique entre 1970 e 72, acelerou o processo do 25 de Abril?

PBC: Eu penso que sim. Não diria que foi o principal factor, mas foi sem dúvida um factor importante. Tanto a de Moçambique, como a de Angola e da Guiné. De facto havia células do movimento dos capitães nesses territórios todos. Eu posso dizer que a situação militar, foi sem dúvida, para mim, o principal factor do 25 de Abril.

Como vê Moçambique nos dias e hoje o 25 de Abril?

PBC: Não é uma data importante. Se calhar deveria ser mais importante. Não é considerada uma data nacional...

Mas é lembrada nas escolas?

PBC: Sim. Ainda agora a escola portuguesa faz regularmente na data do 25 de Abril colóquios, organiza exposições, mas nas escolas públicas moçambicanas não tem essa expressão...

Falou no êxodo de 110 mil portugueses após o 25 de Abril. Na sua opinião, como seria Moçambique se esses 110 mil portugueses não tivessem partido?

PBC: É abstracto, a nível da economia não teria sido tão traumático. Mas nós não podemos desligar isso também do espírito da época e da perspectiva que esses próprios portugueses teriam do processo. Eram muitos anos de colonização, derivada a aspectos de racismo e de grandes desigualdades.

Portanto é difícil imaginar essas pessoas aceitarem também de um momento para o outro uma mudança tão profunda no seu lugar na sociedade. Não há uma resposta simples. Num certo sentido teria suavizado as perdas mas no outro sentido é duvidoso que também eles aceitassem. É daquelas feridas que eram necessárias para curar o processo.

Como vê Moçambique nos dias de hoje?

Imagine que há alguns afectos, com algumas parcerias Ainda há pouco tempo esteve lá o presidente Cavaco Silva. Portugal não tem aquela importância como tem para Cabo Verde ou para a Angola, mesmo se por vezes é uma relação conflituosa.

Moçambique tem uma situação particular porque é periférico em relação à África do Sul, muito mais de com Portugal... Portugal é muito mais distante...

Entrevista swissinfo, Adelino Sa

Biografia breve

João Paulo Borges Coelho nasceu no Porto, em 1955, mas adquiriu nacionalidade moçambicana. É historiador.

Ensina História Contemporânea de Moçambique e África Austral na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, e, como professor convidado, no Mestrado em História de África da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Tem-se dedicado à investigação das guerras colonial e civil em Moçambique, tendo publicado vários textos académicos em Moçambique, Portugal, Reino Unido, Espanha e Canadá. As Duas Sombras do Rio é a sua primeira obra de ficção.

Fonte: Editora Caminho

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As duas sombas do Rio

Esta é uma história feita de histórias entretecidas. Histórias de guerra e de sobrevivência, de pequenos sinais de humanidade rompendo da violência como as plantas rompem das pedras.

É também uma história de divisões: divisões entre a memória e o presente, entre os deuses e os homens, entre os homens eles próprios. Divisões que crescem no espaço da grande divisão que o majestoso rio Zambeze cavou, separando o mundo da cobra feminina, milenar e sábia, e o mundo do leão masculino, jovem e fogoso — erigindo uma fronteira entre o Norte e o Sul.

Por isso sofre tanto, dividido, sem se encontrar, o pobre Leónidas Ntsato, que tem apelido de cobra mas a quem o pai deu nome de leão. E por isso se afadigam tanto os curandeiros, pedindo aos deuses que o deixem voltar a ser um só.

Esta história feita de histórias mostra que talvez os homens encontrem na ilha de Cacessemo, a meio do rio, uma ponte de união entre o mundo da água e o mundo do fogo.

Fonte: Editora Caminho

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