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"Nós falamos suíço-alemão"

"Se a Alemanha está com febre, então a Suíça já está gripada”, afirma Baumann, de frente para a embaixada em Berlim.

(Keystone)

Werner Baumann é o principal suíço na Alemanha. Como embaixador em Berlim, o diplomata cuida do complexo, e muitas vezes, problemático, relacionamento entre a Suíça e seu grande vizinho do norte.

Em entrevista exclusiva à swissinfo, Baumann fala sobre as oportunidades no leste europeu e sobre a presença suíça na Alemanha.

No coração de Berlim, a capital da Alemanha, a bandeira vermelha com a cruz branca agita-se no vento e parece ter o mesmo tamanho das bandeiras alemãs.

Ninguém tem um endereço tão exclusivo em Berlim como Werner Baumann. Como embaixador da Suíça na Alemanha, o suíço do cantão de Uri trabalha e reside num prédio que está a poucos passos do “Bundeskanzleramt”, o palácio onde governa o chanceler alemão Gerhard Schröder, e o “Reichstag”, o parlamento federal da Alemanha.

A construção, que mistura o clássico com o moderno, foi construída em 1870 e comprada pela Suíça em 1919 para servir como embaixada. Dentre as histórias vividas por lá, a mais impressionante é a que conta como diplomatas suíços sobreviveram ao bombardeio dos russos, durante os últimos minutos da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Em 2001, a embaixada da Suíça foi reaberta depois dos trabalhos de modernização. Atualmente é a representação diplomática mais próxima do poder na Alemanha.

Durante a entrevista exclusiva dada à swissinfo, o embaixador Baumann conta como é representar a Suíça num país vizinho tão próximo culturalmente e economicamente, mas cujas posições podem estar tão distantes como o espaço que separa os Alpes do Mar do Norte.

swissinfo: o senhor já está há mais de um ano em Berlim. Qual é a sensação de representar a Suíça na capital alemã?

Estou me sentindo bem nessa cidade. Berlim é um lugar extraordinário, um centro cultural na Europa e, ao mesmo tempo, a capital da República Federal da Alemanha.

Com a mudança da capital de Bonn para Berlim, a Alemanha teria se distanciado não só geograficamente, mas também psicologicamente da Suíça. O senhor concorda com essa opinião?

Nós não podemos fazer essa afirmação dessa maneira. A realidade é que a Alemanha ganhou uma outra posição no cenário político europeu e mundial através da reunificação. Trata-se de uma posição de muito mais importância, onde os alemães passam a abordar temas que eles não tratavam antes. Porém isso não significa que um pequeno país vizinho como a Suíça tenha se tornado menos importante, mas sim que outros países também se tornaram importantes.

O antigo chanceler alemão Helmut Kohl era muito próximo da Suíça. O senhor acredita que Gerhard Schröder, um chanceler nascido no norte do país, sente o mesmo pela Suíça?

Eu não cheguei a conhecer o chanceler Kohl, quando este ainda exercia o seu mandato. Nós nos encontramos agora, em Berlim. Quanto ao atual chanceler, não sou da opinião de que Gerhard Schröder conhece pouco a Suíça. O chefe do governo alemão recebeu o presidente da Confederação Pascal Couchepin em abril do ano passado em Berlim. Em setembro, o próprio chanceler esteve visitando a Suíça.

Como a futura expansão da União Européia poderá influenciar o relacionamento entre a Alemanha e a Suíça?

Não tenho dúvida de que a expansão da UE significa grandes chances para a Alemanha. Não esqueça que, nesse sentido, a Alemanha será o país ocidental mais localizado ao oriente e, dos países orientais, o mais próximo do ocidente. O relacionamento entre a Alemanha e a Suíça só poderá se beneficiar com essa mudança, partindo do princípio que a economia dos dois países está tão imbricada e próxima uma da outra. Qualquer expansão de mercado para a Alemanha e um conseqüente crescimento econômico só poderá trazer benefícios para a Suíça.

Na embaixada em Berlim, como o senhor tem acompanhado o interesse das empresas suíças na expansão da UE para o leste?

Não posso dar informações sobre investimentos suíços na Polônia, mas posso dizer que a Suíça, nos novos estados da Alemanha, continua sendo um dos grandes investidores. Isso mesmo se esses investimentos se diminuíram na metade dos anos 90. Com segurança, as chances que se abrem a partir da expansão da União Européia irão também refletir nos negócios das empresas suíças que já atuam no leste da Alemanha.

Onde os Suíços investem na Alemanha?

A presença das empresas suíças de pequeno e médio porte é forte na região da Saxônia, na Turíngia, em Brandenburgo e até mesmo Berlim. É óbvio que essa presença não tem a mesma importância do que ocorre no sul da Alemanha, onde o investimento suíço é denso e tradicional. Porém já identificamos um interesse crescente e concreto de empresas suíças no leste europeu.

Como o governo suíço vê o interesse crescente de empresas alemãs de investir ou se transferir para a Suíça, sobretudo por razões fiscais?

Trata-se de algo natural para economias que estão tão estreitamente ligadas como a alemã e suíça. Nesse sentido a Suíça também se esforça para se tornar atrativa às empresas alemãs. Por outro lado, isso não é uma via de mão única. Se você analisar os investimentos suíços e alemães em cada um dos países, irá descobrir que eles estão em patamares semelhantes, ou seja, na ordem de 20 bilhões de Euros. As empresas suíças são responsáveis por 250 mil empregos na Alemanha. O comércio exterior é de 75 bilhões de Euros. Dessa forma é possível ver que o relacionamento econômico dos dois países sempre viveu idas e voltas, mantendo sua importância.

Como o senhor vê a crítica de políticos alemães quanto à transferência de grandes empresas e milionários como o produtor de laticínios Theo Muller, o piloto Michael Schumacher ou o tenista Boris Becker para a Suíça? Sabe-se que eles se instalam, sobretudo, em cantões que oferecerem incentivos fiscais imbatíveis.

Essa questão na Alemanha é vista de diferentes pontos de vista: muitos dizem que essa movimentação é uma indicação de que o complicado sistema fiscal alemão deve ser modificado. Outros já afirmam que o ideal era as pessoas pagarem impostos, onde eles ganham o seu dinheiro.

Na Suíça os municípios gozam da liberdade fiscal, ou seja, elas podem determinar quanto deve ser recolhido. Essa não poderia ser uma solução para aumentar a concorrência da Alemanha?

Não posso julgar se esse sistema pode ser aplicado na Alemanha ou não. Muitos me perguntam como funciona o nosso sistema fiscal e a decorrente concorrência entre os cantões. Se esse modelo pode ser aplicado na Alemanha com sistema federativo de “Länder” (Estados), não são os suíços a darem aconselharem, mas sim os alemães de tomarem decisões.

Além da presença na economia, onde mais os suíços se destacam na Alemanha?

Como nós já debatemos sobre as relações econômicas e vimos que elas estão tão imbricadas entre a Alemanha e a Suíça, posso afirmar o mesmo para o relacionamento cultural entre os dois países. Veja o caso de Adolf Muschg, um suíço que é presidente da Academia de Artes de Berlim e Brandenburgo. Nós temos uma grande quantidade de escritores suíços que vivem e escrevem suas obras em Berlim. Em toda a Alemanha temos uma grande quantidade de artistas suíços. Há pouco tempo tive na Turíngia e conversei com várias pessoas da cena cultural. Descobri que de cinco diretores de teatro nesse Estado, três vêm da Suíça: Stephan Märki, diretor do Teatro Nacional de Weimer; Guy Montavon, diretor da Ópera de Erfurt e Res Bosshart, diretor do Teatro de Meiningen e Eisenach. Talvez isso seja uma coincidência, mas mostra como estamos próximos.

A aversão de muitos suíços aos alemães é um assunto comum na imprensa. Porém dizem que os vizinhos do norte adoram o pequeno país do sul e seus habitantes. Como o senhor vê essa ambivalência?

Eu acho que qualquer generalização é incorreta, como dizer que os suíços gostam menos dos alemães, do que vice-versa. Porém é verdade que a Suíça, como pequeno país, tem um outro relacionamento com a Alemanha do que a Alemanha conosco. Ao mesmo tempo, lembro que se nós pertencemos ao espaço lingüístico alemão, é importante destacar que nós não falamos alemão, mas sim “suíço-alemão.

Na sua opinião, qual é o maior problema que existe hoje em dia no relacionamento entre a Alemanha e a Suíça?

O maior problema que temos atualmente é fraqueza da conjuntura econômica alemã. Você conhece o ditado – “se a Alemanha está com febre, então a Suíça já está gripada”. Se houver uma recuperação da economia, então o beneficio será muito grande para a Suíça. Não esqueça que a Alemanha responde por um terço das nossas importações e um quinto das exportações. De três turistas que vêm conhecer a Suíça, um vem da Alemanha. Se eles não vêm mais nos visitar, pois estão sem dinheiro no bolso, imagine o que isso significa para o nosso país?

Muito obrigado pela entrevista, senhor Embaixador.

swissinfo, Alexander Thoele em Berlim


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