Não faça do seu filho um estrangeiro no país onde ele cresce

Das crianças bi culturais que chegam ao consultório da neuropsicóloga Fabiola Dueri Sonderegger, indicadas com problemas na fala, hiperatividade ou déficit de atenção, apenas 15% apresentam real indicação. 

Liliana Tinoco Baeckert
Fabiola Dueri Sonderegger: "Ao contrário do que se esperava, esses meninos e meninas apresentam dificuldades na escola não pelas falhas relatadas, mas simplesmente por comportamentos programados de um dos pais..." swissinfo.ch

O restante é, por incrível que pareça, resultado de um comportamento inadequado de um dos pais, que é estrangeiro, e que por amor quer manter suas tradições e costumes culturais, mas acaba por prejudicar o êxito escolar escola e social da criança. Com experiência própria, Fabiola é boliviana, casada com suíço e mãe de um jovem que também vive entre diferentes mundos. Doutora em Neurociência Cognitiva pela Universidade de Tóquio, no Japão, ela fala à swissinfo.ch sobre sua vivência em um consultório na Suíça, trabalhando especialmente com famílias binacionais. 

Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A psicóloga comportamental explica que componentes específicos das sociedades latino americanas, como o orgulho de manter cultura própria na família, aliado a hábitos caseiros como barulho, falta de disciplina, maior tolerância a barulho, televisão ligada o dia todo e visitas diárias de amigos podem comprometer as notas desses alunos e levar a notas baixas. Consequentemente, abre-se uma brecha para a criação de estigmas e diagnósticos errôneos. Fabiola dá dicas sobre como modificar esses comportamentos e como diferenciar hábitos da identidade cultural.

swissinfo.ch: A Senhora defende a ideia de que muitas das crianças binacionais diagnosticadas com déficit de atenção, hiperatividade e problemas na fala chegam ao seu consultório, em geral, com falha no diagnóstico. Em parte, por incompreensão cultural dos professores e, por outro lado, estimulados por comportamentos equivocados por um dos pais. A Senhora poderia explicar melhor?

F.D.S.: Trabalho há dez anos com crianças de origem latina na Suíça. Muitos chegam ao meu consultório com indicação, geralmente por parte dos professores, de que têm problema na fala, como falta de vocabulário, de que são hiperativos ou apresentam déficit de atenção. A minha experiência me mostrou que, em apenas 15% dos casos, essas crianças apresentam o real problema que as trouxe até a mim.  Ao contrário do que se esperava, esses meninos e meninas apresentam dificuldades na escola não pelas falhas relatadas, mas simplesmente por comportamentos programados de um dos pais. Nesse caso, geralmente o do progenitor estrangeiro.

Sem drama e culpa, por favor; vou me explicar melhor. Eu sou estrangeira e, por amor, também adotei posturas equivocadas baseadas na minha cultura, o que prejudicou de certa forma o meu filho quando ele era menor.

Eu quero dizer com isso que pais latinos têm uma determinada linha comportamental, devido à cultura, que pode contradizer os valores e costumes esperados pela sociedade suíça. Dessa maneira, alguns dos diagnósticos indicados por professores suíços, baseados nessas expectativas, podem camuflar uma interpretação errada de como funciona a educação de uma mãe latina e de como uma casa administrada por essa mulher transcorre no dia a dia.

swissinfo.ch: Então a Senhora afirma que os pais estrangeiros deveriam prestar mais atenção nos seus atos em casa para que os filhos não sofram problemas de avaliação na escola?

F.D.S.: Sim. Vou lhe contar um caso que pude observar, mas que tem se mostrado muito comum na minha experiência profissional aqui na Suíça com famílias em que um dos pais vem da América Central ou do Sul.

Uma criança de cinco anos, filha de mãe latina, por exemplo, está acostumada a escutar seu nome de cinco a sete vezes até que obedeça a um comando. Já a de família 100% suíça responde geralmente na segunda vez. Por quê? Simplesmente porque essa mãe, em geral, não grita pela casa. Ela vai até o filho e comunica o que quer dizer. Nós latinas não; gritamos e muito.

No meu trabalho, tive a possibilidade de observar essas famílias e cruzar a minha própria experiência com o que se espera de um padrão de escola helvética. Durante esse processo de estudo, notei que a mãe mexicana gritava o nome do filho para ele vir comer, enquanto ainda cortava os legumes. Então, além do grito, que se dispersa na casa em meio a tantos outros estímulos, ela perde credibilidade já que o chama para a refeição quando a comida ainda não está pronta. Aqui entram dois fatores de erro comportamental, baseados na cultura estrangeira e desfocada da do país de acolhimento.

swissinfo.ch: E como esse fator interfere na vida da criança na escola?

F.D.S.: A professora pode achar que o menino tem déficit de atenção, porque não atende aos comandos, ou que apresenta até mesmo problema na fala, porque não entenderia. Analisando melhor o caso dessa criança específica e de outras com indicações semelhantes, pude constatar que a dificuldade não estava com o aluno, mas com a mãe, que carrega esses diferentes hábitos e condicionamentos. A professora, assim como as mães suíças, não espera até o sétimo chamado.

Outro componente cultural é a tolerância ao ruído. Uma família brasileira, por exemplo, fala mais alto e aguenta mais bagunça e barulho infantil. Por isso, o motivo de alguns terem conflitos com os vizinhos. No ambiente escolar, esses alunos podem até ser taxados de hiperativos, porque gritam mais, fazem mais barulho e não param quietos.

Não é novidade para ninguém que nós, que viemos da América Central e do Sul, somos mais agitados: dançamos, ouvimos música, falamos mais, recebemos amigos, fazemos várias coisas ao mesmo tempo. Pode acontecer de professores pertencentes a outros grupos culturais estranharem esse comportamento e associarem com uma hiperatividade, por exemplo.

Claro que essa questão é facilmente detectada no consultório com testes. Mas é importante ficar atento a isso para evitar problemas com os vizinhos, com pessoas em restaurantes e até mesmo com familiares, que não estão acostumados com tanta agitação. Sabe a velha máxima de que devemos nos comportar de acordo com o ambiente? E trazendo de volta ao ambiente escolar, é preciso trazer os valores da sociedade suíça para a sua casa também, para que o seu filho não fique prejudicado com notas baixas em comportamento ou em outras matérias, ou até mesmo estigmatizado. E obviamente, para que essa criança se sinta totalmente integrada a essa comunidade.

swissinfo.ch: A Senhora teria outros exemplos comportamentais que poderiam comprometer o sucesso escolar e social dessas crianças binacionais?

F.D.S.: Claro. Música alta pela casa e televisão ligada o dia inteiro. Tudo isso interfere no rendimento escolar, porque dissipa a atenção. TV ligada dispersa muito e ainda é um instrumento muito passivo, que pouco ajuda no aprendizado de uma outra língua por exemplo, se esse for o caso do motivo de deixa-la ligada. A não ser que você assista junto com a criança e discuta o tema junto com ela, aí seria de ajuda na tarefa de faze-la falar a segunda língua da família.

Mas de novo o perigo de crianças se assemelharem a características de déficit de atenção. Porém, eu vejo as mães latinas fazendo exatamente isso. Ligam a TV o dia todo para trazer um pouco de companhia, porque muitas se sentem sozinhas.

Em vez de contaminar a casa toda com seus hábitos, veja seus vídeos no computador. Se gosta de escutar música, leve um rádio pequeno para a cozinha, ou ouça no celular em volume baixo. Mas não imponha o seu modo de viver a toda a família, principalmente quando as crianças precisam se concentrar para fazer o dever, escutar os seus comandos, ou até mesmo manter a disciplina de que tudo tem horário e local adequados. Como psicóloga comportamental, defendo mudanças de atitudes.

Outro hábito muito comum da nossa sociedade é a forma como impomos autoridade. Quem nunca disse ao filho aos gritos: menino, atenção com o carro. Cuidado, você vai morrer!!! É muito perigoso!!! Não estou dizendo que não haja necessidade de alertar. Claro, perigos existem. Mas a forma como avisamos é diferente, baseada no medo, na dramaticidade. Somos muito autoritárias.

Viemos de países perigosos, onde a cada esquina se mata uma vítima desavisada. Mas ao lidarmos com a distribuição de regras dessa maneira, tiramos também o poder de autossuficiência e independência tão prezados nessa sociedade. E qual a mensagem que passamos ao nosso filho? A de que eles não são capazes; os outros podem, ele não.

Aos olhos da professora, por exemplo, fica uma criança incapaz de tomar rédeas do que seria esperado dela naquela idade. Não é verdade que a mãe latina quer fazer tudo para a sua cria? Ela em geral escolhe a roupa, dá comida na boca, quer levar no colégio – nem que seja escondido atrás das árvores. Muitas professoras reclamam que essas crianças nunca manusearam uma tesoura ou uma faca. Claro que por excesso de zelo dos pais. O resultado disso é a quebra da autonomia desse ser, que acaba se diferenciando dos demais.

Eu mesma, quando meu filho tinha uns cinco anos, fui surpreendida com uma conhecida suíça dizendo que meu menino não era maduro para a idade. Chocada na hora, hoje entendo o que ela queria dizer. Ela ofereceu banana e maçã e perguntou qual das frutas ele preferia. Ele me olhou, sem saber o que responder. Para ela, aquela atitude demonstrava falta de confiança na sua vontade, em saber escolher o que lhe parecia mais saboroso. É um exemplo corriqueiro, que mostra o quanto a nossa autoridade forte de mãe latina, que quer resolver tudo para a criança, pode atrapalhar na impressão que essa criança pode passar.

swissinfo.ch: A Senhora menciona que algumas crianças binacionais também podem receber o diagnóstico equivocado dos professores, que atribuem a uma momentânea falta de riqueza de vocabulário a problemas com a língua local. Poderia explica melhor?

F.D.S.: Claro. Crianças de uma determinada idade, seja de quatro, cinco ou seis anos, deveriam ter geralmente uma quantidade X de palavras em seu vocabulário. Só que os que falam mais de um idioma obviamente não irão atingir essa capacidade máxima, simplesmente porque esse X será mais ou menos dividido por dois. A professora, entretanto, que só fala um desses idiomas, só será capaz de avaliar uma ponta dessa pirâmide, e não a figura por completo. Dessa maneira, é preciso ter muito cuidado ao dizer que uma criança que fala mais de uma língua tem realmente problemas.

swissinfo.ch: Voltando à questão cultural: apostar toda a educação do seu filho baseada nos padrões suíços não significaria abandonar a própria cultura e criar um estranho em casa?

F.D.S.: Essa é uma ótima pergunta, que toca exatamente no ponto; justamente o mais difícil de me fazer entender por essas famílias. Não, adotar comportamentos adequados à sociedade suíça não significa abrir mão da sua própria cultura. Os pais latinos precisam aceitar que o estrangeiro nessa sociedade são eles. A criança não é e não deve ser criada como um estrangeiro, embora tenha contato com duas diferentes culturas.

Em primeiro lugar, esse menor não é metade suíço e metade outra coisa; mas 200%: uma criança 100% suíça e 100% outra nacionalidade, aderindo aos costumes e características de ambos os pais, que serão escolhidas por ela mesma, e não por um dos genitores. Entende a diferença? Esse filho ou filha é produto das duas culturas, mas precisa se adequar aos padrões de valores suíços para que tenha êxito na escola e na sociedade.

Quais seriam os valores suíços? Respeito ao professor e à autoridade, mas sem subserviência, autossuficiência, independência, foco na tarefa, valor ao silêncio e à individualidade, pontualidade, compromisso e assim por diante.

Quer colaborar para que seu filho tenha sucesso escolar e social? Adote mudanças comportamentais em casa, começando por você. Não se preocupe em deixar de ser boliviana, portuguesa ou brasileira e tampouco trair sua cultura só porque está desligando a TV em horários específicos, impondo horários para dormir, para fazer o dever, ou dando mais autonomia para que essa criança amadureça.

Não podemos ser impedimento para que nossos filhos sejam plenos. Não façam de suas crianças um estrangeiro em seu próprio país só para que vocês se sintam menos sozinhos nesse ambiente. Às vezes queremos que nossos filhos sejam como nós para nos fazerem companhia. Mas a melhor maneira de nos aproximarmos deles é entendermos o seu mundo, e não os isolarmos no nosso.

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