O pioneiro dos jogos para celulares

Daniel Lutz aproveitando uma pausa do trabalho em Montreal. zVg

Com joguinhos de celular, o designer e diretor criativo Daniel Lutz construiu uma carreira de sucesso em Montreal. Ele também é um dos pioneiros da informática na Suíça.

Este conteúdo foi publicado em 05. maio 2020 - 09:31
Sarah Genner, swissinfo.ch

Os jogos de computador Monospace e Colorbind lhe renderam algum dinheiro durante os estudos universitários. Há exatamente dez anos, Daniel Lutz usou esse dinheiro para comprar um bilhete aéreo só de ida para Montreal, a metrópole dos jogos eletrônicos. Nunca mais voltou.

Em Montreal, ele conseguiu contratos como designer de jogos. Os estúdios ficaram impressionados com o fato do suiço pode conceber, desenhar e programar apps de jogos sozinho. Além disso, ganhou vários prêmios, dentre eles o de "Melhor Jogo para iPhone". Ninguém perguntou sobre seu diploma de bacharel em design de jogos.

Foi o que ele contou aos estudantes da Faculdade de Artes de Zurique (ZHdK, na sigla em alemão) durante uma palestra. Após dez anos de experiência profissional, ele aconselhou aos estudantes que experimentem diferentes coisas e não esperem conseguir um emprego na indústria do jogo por causa do diploma.

Daniel retornou depois à Montreal, no Canadá. A maior cidade do Quebec é o segundo lar desde 2010. Ele agora é diretor criativo chefia uma equipe de 20 desenvolvedores de jogos.

A meio caminho de sua terceira década de vida, ele passou por Zurique. Nos encontramos em um dia ameno de inverno, num salão de hotel com muito estilo, onde algumas pessoas trabalham em notebooks. No fundo, uma música ambiente.

Não foi nosso primeiro encontro, embora parecia ser o primeiro. Nossos pais contaram que a gente brincava regularmente na prainha do Mythenquai, no lago de Zurique. Nenhum dos dois se lembra disso.

Colorbind: um jogo complexo com regras simples. Daniel Lutz

Em 2011 descobri o jogo Colorbind, o primeiro jogo que usei no celular. Fiquei admirado pelo design. Mais tarde eu instalei o FOLT, um jogo igualmente sofisticado e graficamente atraente concebido por Daniel Lutz. Por acaso, descubri que o criador era um amigo dos tempos do jardim de infância. Na época ele já estava no Canadá.

O que o levou Lutz a estudar design de jogos e a voar para o Canadá sem emprego, e sem um bilhete de volta? "Depois do ensino médio, ficou claro que eu me tornaria designer", diz Lutz. "O lado inventivo me atrai. Você pode criar um mundo no design de jogos e torná-lo tangível para que outros experimentem".

Ele diz que é muito gratificante ver as pessoas entrarem em um estado de transe enquanto jogam seus jogos. Quando criança, teve pouco acesso aos videogames, mas através de pais, dois historiadores de renome, ele se familiarizou com a indústria criativa.

 Na série Pioneiros digitais suíços swissinfo.ch retrata personalidades suíças interessantes no exterior ou com apelo internacional que reconheceram o potencial da Internet em uma fase inicial e a utilizaram com sucesso para suas atividades. A autora, Sarah Genner, é uma pesquisadora de mídia e especialista em meios digitais. O seu livro ON | OFF foi publicado em 2017. 

End of insertion

Destino: América do Norte

Já há muito tempo Daniel Lutz pensava em viver na América do Norte. Montreal está entre as cinco mais importantes capitais no desenvolvimento de jogos no mundo.

Lutz descreve sua cidade natal, Zurique, como uma espécie de gaiola dourada: "É uma cidade muito habitável que não lhe dá motivos para sair". Mas para os jovens criativos, essa cidade rica e aparentemente acabada não é o lugar ideal. Para ele está claro: "Se você quer criar algo, tem de ousar e colocar a prosperidade em risco."

Conteúdo externo

No início não conhecia ninguém. Um professor de faculdade em Zurique lhe passou um contato em Montreal, mas que acabou não dando certo. Hoje, Lutz que sua decisão de viajar para o Canadá foi "ingênua". Mas bem-sucedida, com certeza. "Hoje seria impossível ter desenvolvido um jogo por conta própria. A competição tornou-se extremamente feroz." Várias vezes durante a conversa, Lutz enfatizou ter tido sorte de estar no lugar certo, na hora certa. Apesar da humildade, dada para perceber que espera muito de si e da qualidade do seu trabalho.

Riscos e ganhos

Após apenas algumas semanas vivendo Canadá, ele foi contratado como designer de jogos pela grande produtora de jogos Electronic Arts (EA). Dois anos depois foi contratado pela Square Enix, também uma das empresas de desenvolvimento mais conhecidas do mundo. Lá desenvolveu o jogo Hitman GO, um empreendimento arriscado. Hitman é uma série de jogos “cult”, até então apenas conhecido como jogo de console.

A comunidade de usuários do Hitman desconfia dos jogos para smartphones. Hitman GO foi o primeiro derivativo portátil da série. A ideia de Lutz de converter o “ego-shooter” para uma lógica de jogo de tabuleiro com estética limpa é ousada, mas desperta interesse. Ele ganha o concurso interno de propostas. "Até o lançamento, porém, havia também um grande ceticismo na empresa", diz ele.

A aposta venceu. Hitman Go se tornou um sucesso. No entanto, isto também aumentou a pressão para dar sequência ao sucesso. Na Suíça, ele já era celebrado como uma estrela ascendente.

Criatividade via besteirol

Na indústria dos jogos eletrônicos existe uma forte pressão para o sucesso comercial. Lutz vê isso como um desafio: "É como atravessar uma corda bamba: fazer o que gosta de fazer, mas sem se esquecer do mercado”.

A fim de reduzir o medo do fracasso, é importante para ele como gerente criar uma atmosfera que promova o bem-estar emocional e a serenidade, possibilitando assim a criatividade. Sorrindo, ele diz: "Eu incentivo o besteirol."

Lutz tomou outra medida para baixar o limiar de inibição criativa em sua equipe: "Normalmente, os prêmios e troféus são claramente visíveis nos estúdios de jogos. Ter estes feitos diante dos olhos é intimidante e inibe a criatividade".

Sua equipe trabalha em um ambiente, onde os projetos e a desordem refletem o processo criativo. Como diretor criativo é uma espécie de diretor de cinema, que precisa ter uma visão clara de um jogo, mas também que seja convincente à equipe.

Depois de Hitman GO, como diretor criativo, ele também desenvolveu a versão para celular do jogo “cult” Lara Croft. Depois se permitiu um ano de pausa criativa. Foi um decisão fácil para ele: depois de tanto sucesso, a pressão era alta para se tornar "ainda melhor e ainda mais bem-sucedido."

Depois da pausa, voltou a ser diretor criativo no mesmo estúdio de jogos. O projeto atual ainda é secreto. O título de trabalho é "Dan's Game", conta com um sorriso no rosto. Ele trabalhou durante três meses sozinho no conceito e programou um protótipo do jogo. No momento chefia 20 programadores e designers. Juntos eles trarão o jogo para o mercado. Isto também inclui testes com os grupos-alvo e os ajustes correspondentes.

O mercado suíço é diferente

Voltar para a Suíça? "A indústria de jogos suíça é muito pequena", responde. Provavelmente pequena demais para o tipo de jogos que Lutz gosta de desenvolver. Em Montreal, ele tem boas condições como criador de jogos. Ele fala sobre uma curiosidade do fomento. No seu país natal a situação é diferente: "Na Suíça, o fomento se dá através da promoção cultural e é, portanto, mais artisticamente orientado. No Canadá, o objetivo é empresarial."

Isso explica, entre outras coisas, a ascensão de Montreal como meca dos jogos de computador. Claro, Daniel Lutz também sente muita falta da Suíça, mas fica claro que se sente bem em Montreal.

Como um suíço no estrangeiro com afinidade digital, ele gostaria de votar digitalmente? "Claro que a votação eletrônica seria prática, mas enquanto os problemas de segurança não forem resolvidos, não há pressa". Ele impressiona os amigos sempre que chega uma carta da Suíça, a cada três meses, com documentos para votação em referendos e outros pleitos.

Facilitando o acesso

O que faz deste designer de jogos e diretor criativo um pioneiro digital? Lutz é certamente o produto de exportação suíço de maior sucesso no setor de jogos para celulares. Seus jogos caracterizam-se por uma estética impressionante e uma simplicidade radical. Ele tem uma sensibilidade inconfundível, e a certeza de que jogos em smartphones devem ser projetados de forma diferente dos jogos de console.

Os jogos de Lutz também permitem que pessoas que não são “gamers” típicos, e não possuem sua própria console de jogos, comecem a jogar e acessem os jogos via smartphone. Espero ansiosamente a nova edição do FOLT e de seu jogo, que ainda é "top secret".

Este artigo foi automaticamente importado do nosso antigo site para o novo. Se há problemas com sua visualização, pedimos desculpas pelo inconveniente. Por favor, relate o problema ao seguinte endereço: community-feedback@swissinfo.ch

Partilhar este artigo