A dama da cibersegurança

Myriam Dunn Cavelty é considerada uma das mais importantes especialistas em cibersegurança no mundo. Suzanne Schwiertz

Myriam Dunn Cavelty é pesquisadora e líder global no estudo da política de segurança cibernética. Em Zurique, mais precisamente no Instituto Federal Suíço de Tecnologia (ETH), a suíça construiu a maior equipe de pesquisa do mundo em sua área.

Este conteúdo foi publicado em 02. junho 2020 - 12:15
Sarah Genner, swissinfo.ch

Repentinamente, uma grande área na Suíça está sem eletricidade. Os trens não funcionam mais. Tudo está parado no Aeroporto de Zurique e correm rumores de que cibercriminosos penetraram nas redes da usinas nucleares e barragens do país. A Suíça e metade da Europa estão em caos. Esse é o tipo de cenário de horror com que a especialista em segurança cibernética, Myriam Dunn Cavelty, lida diariamente.

Os corredores do edifício da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH, na sigla em alemão) em Haldeneggsteig são longos e sinuosos. Parecem pouco acolhedores e quase sem cor, apesar das suas paredes em verde claro. No final do corredor encontro a famosa cientista.

 Na série Pioneiros digitais suíços swissinfo.ch retrata personalidades suíças interessantes no exterior ou com apelo internacional que reconheceram o potencial da Internet em uma fase inicial e a utilizaram com sucesso para suas atividades. A autora, Sarah Genner, é uma pesquisadora de mídia e especialista em meios digitais. O seu livro ON | OFF foi publicado em 2017. 

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Ela trabalha no Centro de Estudos de Segurança da ETH há quase 20 anos. Foi onde se tornou uma figura proeminente. Tomamos um café juntos nas suas dependências.

Foi quando me apresentou seu antigo mentor, Andreas Wenger, professor de política de segurança na ETH. Sem ser solicitado, Wenger confirma que Dunn Cavelty fez um trabalho pioneiro no campo da segurança cibernética. Ainda estudante de história e ciência política na Universidade de Zurique, ela propôs o tema da segurança cibernética como tese de mestrado no início dos anos 2000.

Naquela época, o tema ainda não existia. Wenger diz: "Mesmo assim, ela sabia o que queria. Não se deixou dissuadir de seu projeto”. A cientista nascida em Zurique submeteu seu projeto e concluiu os seus estudos universitários com uma tese sobre Conflitos na Era da Informação no Centro de Estudos de Segurança da ETH.

A ETH e a segurança cibernética vão se tornar seu habitat profissional. Depois assessorou o Exército suíço e as autoridades federais, trabalhando globalmente na interface entre pesquisa e consultoria, e tornando-se uma especialista internacional.

Em 2019 foi convidada pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) para falar sobre seu tema preferido. Ela defendeu a relevância de uma perspectiva sócio-política sobre o tema da segurança cibernética, que geralmente é percebida como uma questão puramente técnica.

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O telefone tocou. Dunn Cavelty pediu desculpas e começou a conversar com a filha. Meu olhar preocupado faz com que ela me acalmasse: "Está tudo bem, meu marido está em casa." A família vive com dois gatos em Zurich-Schwamendingen.

Família de acadêmicos

Após concluir o mestrado, Cavelty achou que "o tema ainda não estava esgotado". Então acresceu a tese de doutorado ‘Cybersecurity and Threat Politics’, onde analisou a fundo a construção de cenários de ameaça no ciberespaço. Ela mostra que a percepção das ameaças se transforma em problemas de política de segurança. A especialista se opõe à ideia de que os riscos técnicos possam ser combatidos por meios puramente técnicos.

Ficar na ETH lidando com segurança cibernética não era um objetivo de vida. "A rotina não me faz bem. Eu me aborreço rapidamente e sempre preciso de novos desafios", diz Dunn Cavelty. No entanto, os tópicos digitais são ideais para pessoas como ela, curiosas e abertas ao novo.

Dunn Cavelty vem de uma família de artistas Sua mãe é pintora e desenhista. Seu pai, filósofo apesar do diploma de direito. A irmã é música e o marido escritor. Dunn Cavelty é a única da família com um contrato de trabalho. O fato de abordar novos temas de forma explorativa, e com disposição a correr riscos, está ligado à história familiar.

O caso do Irã

Após sua dissertação e muitos anos de trabalho de consultoria em política de segurança na ETH, justo quando imaginava dar uma volta na carreira, o vírus de computador Stuxnet chega em 2010, causando grandes prejuizos. O vírus paralisou grandes partes do programa nuclear iraniano e foi considerado único devido à sua complexidade e o fim específico de sabotar os sistemas de controle de usinas industriais.

Foi uma grande oportunidade para Cavelty. Ela pôde então utilizar todo seu potencial. "A Stuxnet foi instrumental para moldar o debate sobre segurança cibernética e conduzi-lo à nova direção." Durante muito tempo, a segurança cibernética era um tema militar. Além do Stuxnet, o caso Snowden também mudou os paradigmas.

De repente os serviços de inteligência ganharam importância, assim como os especialistas em segurança cibernética. "O panorama da pesquisa mudou. Surgiram mais casos interessantes. Também tivemos de desenvolver novas abordagens na elaboração de teorias".

A equipe de Dunn Cavelty cresceu. O centro na ETH separou a pesquisa do grupo de elaboração de ideias. Uma parte desse grupo assessora o Projeto de Defesa Cibernética do ministério suíço da Defesa. Ela atua como encarregada de pesquisa e ensino do Centro de Estudos de Segurança e, ao mesmo tempo, montou a maior equipe do mundo no campo da política de cibersegurança, com dez pesquisadores.

Área independente de pesquisa

O tema que era apenas um nicho de pesquisa se tornou uma área de especialização consolidada. A lista de publicações de Dunn Caveltys cresce continuamente. Em 2014 publicou o livro ‘Cybersecurity na Suíça’. A política de segurança cibernética  cada vez mais se insere no currículo da ETH.

O interesse pelos temas tratados por Dunn Cavelty cresce, assim como o número de reportagens sobre o tema, hoje distante dos cenários de espionagem, do ciberapocalipse e guerra cibernética. Um número especial da revista Cybersecurity Politics, publicado recentemente, incluiu um artigo com uma visão panorâmica sobre a área de pesquisa.

Riscos para a democracia

O que a motiva? "Continuo profundamente interessada em explorar como os incidentes cibernéticos se tornam políticos. Um incidente nunca é puramente técnico. Ele sempre está ligado a valores e ao poder de interpretá-los". 

Mais uma vez, ela sublinha o papel das empresas privadas na "economia da incerteza" e o perigo de uma crença na tecnologia. "Precisamente porque tanta coisa é invisível no reino cibernético, as verdades construídas, a percepção do perigo e o correspondente poder de interpretação dos incidentes são centrais.

Ela sugere que, além da tecnologia, o foco deve necessariamente recair sobre as seguintes questões: Quem se beneficia com o ataque? Como as organizações reagem aos incidentes? Quem tem de comunicar, quando e como, se algo der errado? O que é necessário para provar que não houve um problema técnico?

Questionada sobre os problemas técnicos da democracia digital na Suíça, como o voto eletrônico, Dunn Cavelty deixa claro: "O voto eletrônico não é apenas uma questão de tecnologia. Se alguém mostra que o sistema tem falhas de segurança, a democracia tem um problema".

Segurança cibernética na sociedade

Há muitos especialistas em cibersegurança, mas a grande maioria é de técnicos. Myriam Dunn Cavelty dedicou-se de forma consistente, e sem hesitação, à dimensão política da segurança cibernética. Assim ela se tornou uma voz conhecida no mundo como outros especialistas como Bruce Schneier e Ron Deibert, do Laboratório Citizen em Toronto.

Ela demonstra, repetidamente, que o cibercrime também tem a ver com a construção de cenários de perigo e a desestabilização da credibilidade. A dependência de computadores para o intercâmbio e armazenamento de dados aumenta. Isto cria novas vulnerabilidades para o Estado, economia e sociedade.

Esta tendência não vai mudar no futuro, pelo contrário. É provável que a insegurança cibernética aumente devido ao avanço das redes digitais e da automação. Especiaoistas Dunn Cavelty serão ainda mais procurados.

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