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Robôs não substituirão os professores

O robô japonês "Pepper", no qual "Lexi" também se baseia, não é usado apenas para aprendizagem, mas também como "funcionário" em hotéis e lojas. © Keystone / Urs Flueeler

A pandemia de Covid-19 coloca em foco a questão se robôs poderiam assumir tarefas educacionais, tanto no ensino à distância quanto na sala de aula. Especialistas veem potencial nesta área, mas alertam para os perigos que os humanóides podem representar aos seres humanos. 

Este conteúdo foi publicado em 13. março 2021 - 10:00

"Olá a todos, eu sou a Lexi". Com estas palavras, um robô humanóide cumprimenta os estudantes da Universidade de St. Gallen, na Suíça. O interesse é grande. O auditório está cheio.

Em 2019, Sabine SeufertLink externo, professora de Gestão de Inovações Educacionais na Universidade de St. Gallen, utilizou o robô pela primeira vez, a título experimental, em palestras universitárias. Equipada com inteligência artificial, a "Lexi" já era capaz de realizar tarefas auxiliares simples. Agora, a universidade investiga outras formas de utilização possíveis.

Já o "Thymio" não parece nada humano. Mas este minirrobô é capaz de ensinar. Crianças em toda a Suíça já estão aprendendo programação de uma maneira simples com a ajuda do “Thymio”. Os alunos veem os resultados imediatamente, como, por exemplo, um desenho que o pequeno robô faz, sob comando, num papel.

Robôs como a "Lexi" e o "Thymio" lideram a transformação digital em curso nas salas de aula e universidades suíças. O ensino à distância, cada vez mais incentivado devido à pandemia de Covid-19, está alimentando esta mudança tecnológica.

Mas qual é o potencial que esses assistentes de ensino e aprendizagem têm? O uso de "robôs educativos" é uma forma de superar a exclusão digital e criar uma maior igualdade de oportunidades. Mas as escolas e universidades estão prontas para essas inovações?

A Suíça já está muito avançada no desenvolvimento de tais sistemas, segundo Francesco MondadaLink externo, colíder do grupo de Robótica EducacionalLink externo do Centro Nacional de Competência em Pesquisa RobóticaLink externo (NCCR, na sigla em inglês), estabelecido pela Fundo Nacional Suíça de CiênciasLink externo. "Desenvolvemos algumas das normas internacionais [nesta área]", diz.

No entanto, a Suíça não é uma nação líder em termos de uso dessas tecnologias. Seufert estima que o país só estará pronto para usar robôs de forma eficaz nas salas de aula dentro de dez a 15 anos.

A docente da Universidade de St. Gallen vê mais potencial no uso de chatbots inteligentes, como os utilizados nos sites de bancos e seguradoras, para o ensino à distância. Como as aulas são online, não é necessário ter uma presença física. Os chatbots podem ainda dar apoio à interação e fornecer orientações para o aprendizado.

Seufert está convencida de que o uso de um chatbot como um tutor faz sentido, especialmente para o ensino de idiomas, que exige muita repetição. Devido à necessidade de oferecer apoio ao aprendizado, "os professores hoje estão completamente sobrecarregados, porque têm de 20 a 25 alunos na sala de aula".

Escolas ainda despreparadas

"Um robô tem o potencial de quebrar o molde educacional da sala de aula tradicional e atrair mais interesse. Isso traz uma nova dinâmica à sala de aula", diz Mondada, que também é professor na Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), onde dirige o Centro de Ciências da AprendizagemLink externo (LEARN).

No entanto, na prática, outros países já estão muito mais avançados nesta área. A França, por exemplo, inclui há anos em alguns livros escolares os robôs como uma ferramenta de programação. Além disso, a informática é uma disciplina obrigatória. 

Mas, na Suíça, nem todas as escolas teriam condições de adquirir robôs para as salas de aula. "Na Suíça, estamos começando a introduzi-los em alguns livros didáticos. Mas a maioria não inclui a robótica como uma ferramenta [de aprendizagem]", explica.

Em muitos casos, as escolas ainda não têm a capacidade de utilizar um robô, devido à fraca conexão de internet ou ao fato de os professores não terem os seus próprios computadores. "Então, coloca-se um humanóide lá, mas nem sequer há um técnico na escola", observa Mondada.

A iniciativa “DigitalswitzerlandLink externo”, que promove a Suíça como um país de inovação digital, também reconhece que este é "sem dúvida um potencial ainda inexplorado, embora as escolas já tenham feito grandes progressos na introdução de robôs educativos".

Initiciativa de Pensamento Computacional 

"O desafio atual é o aumento da exclusão digital, pois nem todas as famílias estão equipadas com a tecnologia certa ou suficiente", escreveu a Digitalswitzerland em uma nota enviada à swissinfo.ch. A organização coordena uma iniciativa nacional e intersetorial que visa a fortalecer a Suíça como um espaço de inovação digital.

Em 2020, a Suíça recuou do 5º para o 6º lugar no IMD, o ranking global de competitividade digital. Na área do conhecimento, que inclui educação e treinamento, o país está no 3º lugar.

Com o objetivo de promover a competitividade digital, a Digitalswitzerland lançou, em 2018, a Iniciativa de Pensamento ComputacionaLink externol, que incluiu o desenvolvimento do robô "Thymio". A meta é promover habilidades na área de digitalização em todas as escolas da Suíça.

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"Nao" permite que as crianças doentes participem das aulas. Keystone / Laurent Gillieron

Seufert cita uma área da robótica na qual a Suíça é líder. Há anos, pequenos robôs chamados "Nao" vão à escola como substitutos de crianças que estão doentes. Os robôs permitem que esses alunos continuem a interagir com a classe – a partir de casa ou do hospital. "Este é um projeto de grande sucesso que pode ser usado para mostrar que os robôs educativos de fato têm um valor agregado extremo aqui", diz Seufert.

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Entender, não apenas brincar

Mondada vê como um grande desafio usar o robô não apenas como um instrumento lúdico. "Em vez de entender os diferentes conceitos de utilização de um robô, muitos projetos simplesmente deixam os alunos brincar com eles", critica. Somente quando os professores compreendem os diferentes conceitos de um robô é que ele pode ser usado de forma eficiente, defende o especialista.

O robô suíço "Thymio" ensina robótica. Keystone / Jean-christophe Bott

Dazu hat Mondada den Mini-Roboter "Thymio"Link externo entwickelt. Dieser Bildungsroboter kann selber ganz einfach programmiert werden und bietet einen Einstieg in die Robotik. Besonders gefordert seien dabei die Lehrpersonen: "Die Herausforderung ist, bei den Lehrpersonen Verständnis dafür zu wecken, welches Potenzial in diesem Tool steckt, wie sie es auf interessante Weise einsetzen und mit diesem Tool die Kinder zum echten Lernen bringen können."

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O especialista desenvolveu o "Thymio" com um objetivo educacional claro. O minirrobô oferece uma introdução à robótica e pode ser programado facilmente. “O desafio é fazer com que os professores compreendam o potencial por trás desta ferramenta, como podem usá-la de forma interessante e, assim, permitir que as crianças de fato aprendam”, afirma.

Segundo Mondada, essa realidade evidencia o grande fosso que existe entre a ciência e as escolas. Com seu centro de aprendizado na EPFL, o especialista pretende cobrir todos os passos necessários, desde o desenvolvimento científico até a prática. "Queremos fechar esta lacuna", diz.

Cuidado com as emoções 

Os especialistas veem como um perigo a possibilidade de que crianças, principalmente, possam desenvolver uma ligação emocional muito forte com robôs humanóides. Mondada cita um exemplo do exército americano. Os soldados estavam preparados para salvar um robô à custa da sua própria vida ou da vida de uma outra pessoa. No Japão, conta Seufert, as pessoas já estão se casando com robôs.

O especialista defende a promoção do conhecimento sobre o funcionamento dos robôs, além do desenvolvimento de habilidades para lidar com eles. "Não se trata de seres humanos, mesmo que demonstrem emoções", diz. Fazer essa reflexão e usar os robôs de forma benéfica têm um grande valor agregado, "porque há o perigo de que o vínculo se torne muito forte".

Seufert e Mondada concordam que a megatendência de uso de robôs educativos está claramente se movendo na direção da inteligência artificial (IA). O robô dá um rosto à IA. Um projeto em desenvolvimento na EPFLLink externo permite que os estudantes não usem um robô simplesmente como um auxiliar de aprendizagem, mas que ensinem o conteúdo para a máquina. 

Onde esta viagem nos levará? A ideia de que um dia os robôs irão substituir os professores é inconcebível, pelo menos nos países europeus, diz Seufert: "Criatividade e entusiasmo, esse é o nosso trabalho como professores. Uma máquina nunca será capaz de substituir isso”, diz. 

Adaptação: Karina Gomes

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