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Genebra abre primeira universidade africana da Europa

Kanyana Mutombo, diretor da primeira universidade popular africana na Europa. swissinfo.ch

Jovens africanos na Suíça estariam um pouco perdidos e necessitando de ajuda para redescobrir suas raízes africanas, é o que explica o diretor da mais nova universidade popular africana, em Genebra.

Este conteúdo foi publicado em 28. fevereiro 2009 - 10:33

swissinfo entrevistou Kanyana Mutombo sobre o primeiro centro educacional na Europa voltado para a cultura e história africana que, ao mesmo tempo, também oferece aconselhamento jurídico e ajuda a novos imigrantes em sua integração na Suíça.

O centro de estudos, financiado pelo estado (cantão), prefeituras e autoridades federais, abriu suas portas em 20 de fevereiro.

Ele teve origem na associação genebrina "Regards Africains" e na revista coligada, que Mutombo ajudou a fundar em 1986. O projeto foi parcialmente inspirado na Universidade Popular Albanesa de Genebra.

swissinfo: O que o levou a criar um centro educacional africano em Genebra?

Kanyana Mutombo: A missão da universidade é servir como um ponto de encontro para as comunidades africanas e outras, incluindo também o próprio povo helvético.

Os primeiros africanos a chegar à Suíça eram jovens estudantes. Normalmente eles terminavam seus cursos e retornavam aos seus países, mas hoje em dia uma grande parte dessas pessoas vem e fica. Além disso, essa população envelheceu. Trata-se de um grupo de pessoas que vive aqui sem uma estrutura que lhes ajude a se mobilizar.

De outro lado existem aqui uma grande quantidade de africanos com formação educacional e profissional, muitos até super-qualificados. Eles dispõem de competências que não estão sendo utilizadas e que poderiam muito bem ser empregadas na universidade popular. Ao mesmo tempo existe uma carência de informação, especialmente entre jovens e adultos.

Quais são essas carências?

Jovens de famílias africanas vão à escola na Suíça e recebem uma boa educação, porém eles não sabem nada sobre o continente africano. Seus pais chegam aqui muito jovens e, possivelmente, nada conhecem de sua cultura pátria. Daí a dificuldade de transmitir aos seus filhos conhecimentos sobre a África.

Seus filhos estão um pouco perdidos. Queremos proporcionar-lhes a oportunidade de redescobrir sua identidade africana.

Que tipo de curso vocês irão oferecer?

Pela primeira vez a universidade vai se preocupar com todos os setores, todas as nacionalidades e todos os grupos étnicos.

A nossa abordagem é a integração e as necessidades práticas das pessoas, mas também daremos ênfase muito maior à co-integração. Uma grande quantidade de pessoas diz conhecer africanos, mas isso ocorre muitas vezes através de clichês e preconceitos do que um conhecimento verdadeiro. Dessa forma iremos desenvolver seminários e encontros entre africanos, suíços e outras nacionalidades para que eles conheçam mais sobre a África e seu povo.

O autoconhecimento de africanos, especialmente os jovens, se dá quase sempre através desses clichês. Sendo assim, iremos oferecer cursos sobre a identidade e a história positiva da África. Ao invés de dar cursos acadêmicos, iremos ensinar a história através da experiência dos mais velhos.

Jovens reclamam também da dificuldade de encontrar moradia e trabalho. Ao trazer aqui pessoas mais velhas, podemos levá-los a compartilhar sua experiência de como resolveram esses problemas.

E a sua própria experiência de integração na Suíça. Como ela ocorreu?

Cheguei em Genebra em 1975 do Congo para fazer um PhD em relações internacionais. Quando cheguei, negros não eram vistos como um problema. O problema eram mais com os italianos ou espanhóis.

A questão da integração nunca foi realmente um problema para mim e isso é o mesmo para muitos africanos. Eu já estava integrado antes de chegar à Suíça. Falo francês e a maior parte da história que aprendi na escola era sobre a Europa. Para mim era como se eu tivesse saindo de uma região da África para outra.

A questão era muito mais sobre a minha aceitação pelos suíços. Inicialmente ela não era problemática, mas com a chegada de mais imigrantes acabou se tornando um problema devido atitudes racistas.

Qual a sua percepção do racismo na Suíça?

Um africano pode esquecer suas origens e falar o dialeto suíço local, mas enquanto ele não conseguir trocar a cor da sua pele, ele não será realmente integrado. Não sou aceito devido a minha visível distinção dos outros.

O racismo na Suíça está crescendo. Enquanto não for colocado em funcionamento um mecanismo adequado e as pessoas atacadas se tornarem interessantes do ponto de vista eleitoral. Existe um artigo no Código Penal que pune o racismo, mas apenas atos que ocorrem publicamente e que obrigam os procuradores a apresentar uma queixa-crime. Porém, você não pode forçá-los a lidar com um caso.

Se alguém é vitima de racismo em situações, por exemplo, como na procura de uma moradia ou na agência de emprego, não existe nenhuma instância de recurso. Ou se tem dinheiro suficiente para contratar um advogado ou a pessoa é obrigada a desistir. Existem vários casos como esses, em que as vítimas não têm condições de levar adiante a queixa e a estrutura judicial é inadequada.

Mas apesar desse problema existem vários sinais positivos. Cada vez mais africanos participam da vida política da Suíça, sendo reconhecidos pela população. O Ricardo Lumengo (um ex-exilado político originário de Angola que se elegeu como primeiro deputado federal negro em 2007) foi eleito exatamente no momento em que a União Democrática do Centro (UDC, partido da direita nacionalista) teve um número recorde de votos.

Isso é encorajador e bastante positivo. Mas Lumengo não é o único caso. Existem cada vez mais africanos que estão se beneficiando do efeito "Obama". Espero que o fenômeno continue.

Em breve você estará há tempo aqui do que viveu no Congo. Como você se sente agora? Mais suíço ou congolês?

De certa forma eu me tornei um suíço, mas só percebo isso quando estou no exterior. Isso são clichês, mas eu não gosto quando as coisas não funcionam corretamente e gosto de limpeza. Não que essas coisas não existam na África.

Além disso, existem valores helvéticos que aprecio como o consenso, que é também muito importante na África, e a diversidade cultural.

Talvez essa universidade possa reforçar os laços entre suíços e africanos, já que compartilhamos tantos valores comuns.

swissinfo, Simon Bradley

Breves

Em 2007 aproximadamente 144 mil estrangeiros imigraram para a Suíça, um aumento de 45% em relação a 2005.

Os três cantões (estados) com o maior número de residentes estrangeiros permanentes são Zurique (299.842), Vaud (195.071) e Genebra (163.951).

Os três cantões com a maiores proporção de residentes estrangeiros são Basiléia cidade com 33,3% (56.106 pessoas), Schaffhausen com 31.6% (16.323 pessoas), e Basiléia campo com 29.9% (48.719 pessoas).

De acordo com o Departamento Federal de Imigração, nas estatísticas do final de agosto de 2008, apenas 3% dos estrangeiros residentes permanentes na Suíça vêm da África.

Na Suíça só existem alguns parlamentares negros. Afora Lumengo (angolano de origem) e deputado federal, Carl-Alex Ridoré (nascido no Haiti) é prefeito da comuna de Saane desde julho de 2008.

No cantão de Neuchâtel, Nathalie Fellrath, nascida na Suíça de uma mãe gabonesa, é deputada estadual. Rupan Sivaganesan, do Sri Lanka, é deputado estadual no cantão de Zug.

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