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Uma biografia de Osama bin Laden

Detalhe da capa do livro. Payot & Rivages

Em 'O enigma Osama bin Laden', o jornalista Ian Hamel, freelancer de swissinfo, traça um retrato assombroso do líder da rede terrorista Al Qaeda e principal responsabilizado pelos atentados do 11 de Setembro.

Este conteúdo foi publicado em 01. dezembro 2008 - 09:11

Hamel seguiu os rastros de Bin Laden entre maio de 2007 e julho de 2008. Em entrevista à swissinfo, ele fala sobre o homem que é o "inimigo público número 1 para uns e o salvador do Islã para outros".

Ainda não está claro quem está por trás dos ataques terroristas que mataram 195 pessoas na Índia, na semana passada. O serviço secreto britânico suspeita que é a Al Qaeda. Isso seria mais uma peça no quebra-cabeça das ramificações da rede terrorista comandada por Osama bin Laden. Considerado um ideólogo carismático, ele é, na verdade, um "homem de pouca consistência", revela Ian Hamel em seu livro.

swissinfo: Como você procedeu para reconstruir o puzzle da trajetória de Osama bin Laden?
Ian Hamel: Sublinhemos primeiro que se trata da biografia de um homem; não é um livro sobre terrorismo.

Procedi de maneira bastante simples, isto é, parti de seu pai, do lugar onde nasceu, do que se pode encontrar, das declarações de testemunhas. Trabalhei do mesmo modo em todos os países em que viveu Osama bin Laden, com a única exceção da Arábia Saudita, que não me concedeu visto. Estive no Paquistão, no Sudão e no Afeganistão, onde já havia estado anteriormente.

Também fui ao Tadjiquistão, porque é pouco sabido que Osama bin Laden apoiou a revolução islâmica nesse país depois da queda do Muro de Berlim. Também fui ao Líbano, visto que a Al Qaeda, organização criada por Bin Laden, se inspirou no Hisbolá libanês.

Neste tipo de investigação de campo não é mais provável que se reúna mentiras em vez de encontrar verdades?
Sím, as pessoas não têm vontade nem bons motivos para dizer a verdade. Em compensação, o que se pode constatar sobre Osama bin Laden é que era uma pessoa mais afinada com a comunicação do que um homem de ação. Muitos jornalistas, sobretudo no Paquistão, o viram; o mesmo ocorreu também no Sudão.

Antes de 1998 e dos atentados contra as embaixadas estadunidenses na África, ele era um homem que falava muito e que reivindicava os atentados... sem haver a menor prova de que foi realmente ele o autor. É partir de 1998 que se dão conta de que é uma pessoa muito perigosa.

Ou seja, é alguém que comunica mais do que age... No entanto, em momento algum você duvida da responsabilidade de Bin Laden pelos atentados de 11 de Setembro, apesar das diversas teorias que existem sobre essa questão.


Não, ele é o homem responsável, não há dúvida.

Você pinta o retrato de um homem que foi mais um fantoche de certos ideólogos do que um verdadeiro chefe de guerra.
Todos os que encontraram Osama bin Laden fazem praticamente o mesmo retrato dele: é um homem eficaz, tímido e pouco lúcido. E descobri que efetivamente existem outras cabeças. Ele não foi ao Afeganistão por sua própria vontade, apesar de ter pretendido, e sim porque o príncipe saudita Turki Al- Faisal o incitou. Portanto, a alma de combate contra os russos não foi Bin Laden e sim um palestino. E, desde 1998, interveio Ayman al-Zawahiri (vice-líder da Al Qaeda), sem o qual não teriam ocorrido os atentados.

Você também recorda a desaprovação manifestada por algumas figuras islâmicas, especialmente o xeque Salman Al Awdah e sua carta aberta ao 'irmão Osama' em setembro de 2007.
De fato, há dois tipos de reprovação do movimento islâmico à ação da Al Qaeda. Há os que criticam a sua estratégia e propõem outras formas de terrorismo, e há os que se perguntam a que serviram os atentados de 2001 e inclusive dizem: 'tínhamos um terrorismo tranqüilo no Afeganistão, que agora perdemos. Tínhamos outro terrorismo, na Europa, onde acabamos com a paz, em Londres, que também perdemos. A que nos serviu matar 3 mil americanos em 2001?'

Os Estados Unidos afirmam que não conseguiram liquidar Bin Laden. Você, como outros, não acredita nisso e afirma que o deixaram escapar através das malhas da rede.
Como não se pôde encontrar o inimigo público número um desde 2001? É preciso saber que, em 2001, ele não estava só: tinha duas ou três esposas e uns 20 filhos! Como se pode explicar que, quando os estadunidenses atacaram o Afeganistão, provocando a fuga dos talibãs e da Al Qaeda, não conseguiram capturar sequer um de seus filhos? É completamente absurdo.

E como você explica isso?
Se o prendem e matam, o temor é que se torne um mártir. Caso se consiga capturá-lo vivo e condená-lo, é uma pessoa que pode dizer muitas coisas, especialmente sobre seus laços com a família real saudita, sobre os serviços secretos sauditas, e muito provavelmente também sobre o poder paquistanês.

Yeslam bin Laden, o semi-irmão de Osama, radicado em Genebra e nacionalizado suíço, já reagiu ao seu livro?
Não, ainda não, mas me interessaria muito conhecer sua reação, já que por parte da família Bin Laden não se recebe realmente nenhum tipo de colaboração. Nem a menor informação, também não de Yeslam bin Laden.

Como mudou a sua imagem de Bin Laden ao longo das pesquisas?
O que chocou foi a pouca consistência do personagem. Até o ponto de que, em 2001, os estadunidenses não puderam reconhecer que teriam de se confrontar um homem de tão pouca envergadura. Em seguida, os serviços secretos e o exército se viram obrigados a encontrar um inimigo muito mais importante...

swissinfo, Bernard Léchot

Ian Hamel

Ian Hamel trabalhou durante seis anos na América Latina, depois cinco anos na África, principalmente para os diários Le Monde, Libération, a Agência France Presse e a Associated Press.

Colabora na França com o semanário Le Point, e na Suíça com o Matin Dimanche e swissinfo.

Especialista em terrorismo e serviços secretos, é também colaborador do site intelligence online.

É autor do livro A verdade sobre Tariq Ramadan, de 2007 (editora Favre).

L'énigme Oussama Ben Laden (336 páginas) é uma publicação da editora Payot & Rivages.

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