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"A Suíça queria sua própria bomba atômica"

"Blindado ", 230x170 cm, óleo sobre tela, 2017 Gilles Rotzetter

Durante quatro décadas, a Suíça fez pesquisas para dotar-se da arma nuclear. O artista Gilles Rotzetter se debruçou sobre essa história e conta, na entrevista a seguir, que ele ficou surpreso de ver “como ainda faltam respostas”.

Este conteúdo foi publicado em 09. junho 2017 - 11:45

swissinfo.ch: O sr. apresenta uma exposição intitulada “Swiss Atom Love”(*). Do que se trata?

Gilles Rotzetter: Eu conto a história da bomba atômica suíça. Um mês depois de Hiroshima, a Suíça decidiu construir a bomba.

Gilles Rotzetter Marc Latzel

Quem exatamente decidiu? Havia um plano secreto?

É isso que é interessante. Tudo é muito bem documentado. Era parcialmente secreto, mas também parcialmente oficial porque tem duas histórias paralelas. De um lado, o abastecimento em energia e, por baixo do pano, a da bomba atômica suíça. Houve até uma votação sobre o assunto com a  lniciativLink externoa popular “pela interdição das armas atômicas”, em 1962. Com o tempo, numerosos atores surgiram. O programa de armamento nuclear suíço começou em 1945 e durou até 1988. E os planos da bomba atômica só foram definitivamente abandonados em 1996, quando a Suíça assinou o tratado contra as armas nucleares.

Como o sr. trabalhou nesse assunto?

Começou por uma anedota. Um amigo me perguntou “você sabe que a Suíça queria uma bomba atômica? Puxa vida, eu não sabia. Aí comecei a me interessar. Eu pensava que, logicamente, com uma história tão antiga, tudo já tinha sido contado. Mas descobri rápido que tinha zonas obscuras. Entre elas, o papel de Paul Scherrer, que trabalhou com os americanos durante a Segunda Guerra Mundial. É uma figura central dessa história e tem muitas perguntas ainda sem resposta. Ele era líder da comissão de estudos pela energia nuclear mas, ao mesmo tempo – segundo enquetes de jornais dos anos 1990 – ele dirigia os esforços da Suíça para se dotar da bomba atômica.

"Good morning Herr Züblin", 50x60 cm, óleo sobre tela, 2016. Gilles Rotzetter

O próprio Paul Scherrer trabalhou na bomba Suíça?

Em todo caso é o sugerem os artigos de imprensa até agora. Em um relatório oficial encomendado em 1996 pelo então ministro da Defesa Adolf Ogi, seu papel não é exatamente precisado. O problema é que Paul ScherrerLink externo a brûlé ses archives personnelles avant sa mort.

Quais são os resultados mais espetaculares de suas pesquisas?

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O mais espetacular é o número de respostas que faltam. Memorável é a citação do antigo chefe das forças aéreas. Em pleno escândalo financeiro sobre a compra dos aviões Mirage, ele disse: “Pouco importa que avião de combate você compra, o que conta é que ele seja capaz de levar uma bomba atômica até Moscou”.

Como o sr. teve acesso a essas informações?

Tinha um jornalista do Tages-Anzeiger, de Zurique, que se interessou muito por esse assunto até os anos 1990. Ele transferiu todos os resultados de suas investigações a um arquivo privado. Eu sou um artista, mas também sou leitor. Visitei muitos arquivos, especialmente na ABB, e estou em contato com vários historiadores no mundo inteiro. Só que um historiador pode dificilmente conhecer tudo dessa vasta questão, até porque numerosos documentos ficarão inacessíveis até 2050


"Fortaleza nacional potato blues", óleo sobre tela, 170x130 cm, 2017 Gilles Rotzetter

O sr. traduziu suas pesquisas complexas em imagens muito coloridas, brutas, praticamente infantis. Isso funciona?

Infelizmente, não é possível pintar como uma criança. Todos os meus trabalhos resultam da pesquisa, se alimentam dela. Mas não só pinturas. A exposição apresenta também um vídeo que conta essa história. Por contraste com as pinturas que são metafóricas, o vídeo é mais realista. A tecnologia, a natureza e o homem são sempre componentes de meu trabalho. Nesse tema convergiam todas essas áreas de interesse. Depois, tratava-se de encontrar uma maneira de contar a história. Eu me questionei: como essa história foi contada até agora? E o que falta? De uma certa maneira, eu tomo distância entre a representação histórica, as informações resultantes da pesquisa e a pintura enquanto mídia.

E agora, o sr. sabe por que a Suíça queria a bomba?

Sei, a ideia era que todos os países da Europa teriam a bomba atômica e, portanto, a Suíça também precisava ter. O argumento da neutralidade foi esquecido. Estávamos no auge da guerra fria.

 (*) Gilles Rotzetter ” Swiss Atom Love – a Suíça e sua bomba atômica”, Museu de Belas Artes de Lucerna, de 10 de junho a 20 de agosto de 2017

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